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Encantadora de Botos

Em Novo Airão, boto não seduz nem emprenha mulheres como diz a lenda amazônica, mas são encantados por elas. Pelo menos 15 golfinho rosa (Inia geoffrensis) ali comprovam que foram seduzidos por Marilda Medeiros, uma bela acreana radicada no município. Ela é proprietária de um restaurante flutuante ancorado às margens do rio Negro, em frente à cidade, onde cardumes de golfinhos dão um show à parte

No município amazonense de Novo Airão, ao contrário da crendice popular, o boto não seduz nem emprenha as mulheres como relata a lenda amazônica, mas é encantado por elas. Pelo menos 15 botos (Inia geoffrensis) ali comprovam que foram seduzidos por uma bela acreana radicada no município, Marilda Medeiros, de 36 anos, proprietária do restaurante flutuante Boto Cor-de-rosa, ancorado às margens do Rio Negro, em frente à cidade.

Amistosos, hábeis nadadores, curiosos e com respiração às vezes barulhenta, os botos vermelhos, ou brancos, também conhecidos como botos cor-de-rosa, fazem festa ao sentir a presença ou a voz da cabocla Marilda, que brinca e nada com eles como se fossem crianças travessas. Ela os reconhece cada um pelo nome: Curumim, Josefá, Dani, Eire, Ricardo, Alexandre, Rafinha, Cauã, Fêfa, Reginaldo, Vini, Grandão, Deidinha, Carretim e Bandido. E isto não é exagero, pois basta observá-los mais atentamente, que podem ser identificados um a um, diferenciados, como os humanos, pela personalidade, cor, formato do corpo e até por alguma marca ou cicatriz. O mais incrível, contudo, é a paixão recíproca na bela relação harmônica entre Marilda e os cetáceos. O melhor é que os visitantes também podem tocá-los, alimentá-los, brincar e nadar com eles. É um espetáculo à parte para os moradores e turistas nessa pequena e hospitaleira cidade amazonense.

Distante 115 quilômetros em linha reta de Manaus, a cidade de Novo Airão possui acesso fluvial (142 km, oito horas de viagem) e rodoviário (198 km), com boa pavimentação asfáltica recentemente inaugurada pelo governador do Estado. A agradável e pitoresca viagem rodoviária entre as cidades de Manaus e Novo Airão pode se feita em duas horas e meia, dependendo da travessia da balsa (Manaus-Cacau Pereira). O trajeto até Novo Airão possui bares e restaurantes à beira da estrada, com paisagens bonitas, muitas fazendas e sítios, além de recantos pitorescos.

O município de Novo Airão desponta como pólo de turismo ecológico e de natureza no Estado do Amazonas, possuindo em seu território a Estação Ecológica do Arquipélago de Anavilhanas, partes do Parque Nacional do Jaú e do Parque Estadual do Rio Negro, além de vários sítios arqueológicos e o histórico de Velho Airão ou Airão Velho, onde se encontram ruínas do final do século XIX e a construção religiosa em pedra, dedicada a Santo Elias do Jaú.

Anavilhanas é o maior arquipélago fluvial do mundo com cerca de 400 ilhas de feitio alongado, cobertas pela floresta tropical amazônica, fazendo uma intrincada rede de canais. O arquipélago é considerado uma das mais belas paisagens do gênero no mundo e sedia uma importante estação ecológica administrada pelo Estado. O Parque Nacional do Jaú, no Amazonas é uma área da floresta amazônica virgem e intocada, listada como Patrimônio Natural da Humanidade. Situa-se entre os rios Negro, Jaú, Carabinani e Unini.

A sede de Novo Airão é um lugar de singular beleza, bucólica, que se aproxima à paradisíaca, devido às Terras Altas do Período Terciário à margem direita do Negro e à bela paisagem de um dos paranás das Anavilhanas que fica em frente à cidade, onde o progresso praticamente ainda não chegou e os celulares se calam. Suas ruas largas, arborizadas, limpas e povo hospitaleiro mostram que o lado humano ali caminha pari passu com a beleza suave da paisagem formada por todos os seus atrativos naturais, em especial aqueles proporcionados por passeios fluviais através das águas límpidas do Rio Negro, cor de Coca-Cola.

Além de suas belezas paisagísticas, riqueza ecológica e biodiversidade, o município possui ainda um belo e variado artesanato de fibras, cipós e madeiras produzido pelos artistas de duas importantes associações apoiadas por ongues: a Fundação Almerinda Malaquias e Associação dos Artesãos de Novo Airão (Aana). A cidade dispõe ainda da Associação da Marcenaria Náutica de Novo Airão (Amabarco), que congrega renomados artífices da construção de embarcações regionais, que desponta como uma das melhores de toda a Amazônia, sendo a mais importante do Estado por reunir dezenas de estaleiros e cerca de 30 mestres, no total de 82 profissionais amazonenses. O Festival de Peixe-boi, único no gênero no Amazonas, é outra manifestação cultural de Novo Airão, considerada a sua maior festa folclórica.

Não faltam atrativos capazes de levar multidões de turistas para Novo Airão, mas nada exerce tanto fascínio quanto à festa que os botos cor-de-rosa promovem em torno de Marilda Medeiros, a encantadora de golfinhos. A fama dela já correu mundo por meio das mais importantes revistas, jornais e canais de televisão, como provam os álbuns de recortes e cópias de mídia eletrônica que ela guarda.

As duas filhas de Marilda (uma de 18 anos e a outra de 11) ajudam a mãe a manter a fama mundial, entretendo turistas e promovendo o belo espetáculo aquático do cardume de botos, com auxílio de tabuleiros cheios de pedaços de peixe fresco, que oferecem aos cetáceos. Estimulados pela comida e seduzidos pela  pela família Medeiros, os botos oferecem o mais belo espetáculo de interação animal-homem, com acrobacias aquáticas e até cenas de ciúmes explícitas, como faz Ricardo, o boto grandão róseo-claro, por exemplo, que não admite que nenhum outro chegue perto de sua domadora, que se vê obrigada a dar a ele uma cabeça de peixe maior, para que se afaste até o meio do rio, onde demora algum tempo comendo, momento em que os outros se aproximam de Marilda.

O interessante é que mesmo tendo a imensidade de águas dos rios e a farta fauna aquática da região, eles preferem arriscar-se próximos à Marilda, no movimentado paraná em frente à cidade de Novo Airão, onde barcos e banhistas podem ferí-los, o que demonstra que não estão apenas atrás de comida. E tal atração já vem de muito, há nove anos, quando ela ainda morava com seu marido numa balsa, em Igarapé-Açú, afluente do Rio Negro próximo à cidade.

O fenômeno se repetiu quando Marilda se transferiu para o porto de Cacau Pireira, em frente a Manaus, com sua balsa-residência, e lá estavam os botinhos de novo. De volta a Novo Airão, trouxe a balsa para um pouco mais abaixo do porto da cidade e os cetáceos não a abandonaram. Sua fama de domadora de botos começou a correr mundo e logo surgiu a idéia de instalar a balsa-residência na frente da cidade e transformá-la num bar e restaurante, com uma pequena plataforma atrás dele, onde os turistas e curiosos poderiam observar os shows dos botos vermelhos.

Apesar de queixar-se que as autoridades do turismo nada ou pouco tenham ajudado para o sucesso da sua empreitada ecológica, que tanto promove o Estado do Amazonas e ajuda a despertar na população de Novo Airão uma consciência em relação à preservação ambiental e animal. A empresa Ibero Star, que promove cruzeiros fluviais no Amazonas a bordo do confortável navio-hotel Grand Amazon, com programações turísticas e culturais no percurso, reconheceu os méritos da encantadora de botos e a contratou para dar palestras sobre o golfinho amazônico em sua própria balsa-restaurante. O analista ambiental da Estação Ecológica de Anavilhanas, Thiago Straus Rabello, apóia a iniciativa e diz: “Essa coisa dela (Marilda) com os botos elevou o interesse dos habitantes do município em mantê-los vivos”.

Marilda afirma que depende do emprego da Ibero Star e da venda em seu restaurante-bar, além de doações dos admiradores do trabalho que executa, para ajudar a comprar os peixes oferecidos aos golfinhos. Por outro lado, ela garante que não altera a vida dos cetáceos que não foram capturados e ali estão por livre e espontânea vontade. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 82)

 
Apolonildo Brito

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