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Essências da floresta ganham indústrias cosmética

Os cheiros das plantas da floresta amazônica fazem parte da cultura indígena da região. Segundo cientistas, existem mais de 35 mil espécies de plantas na Amazônia, 230 mil com amostras no Inpa, somente 15 a 18 mil delas classificadas e 200 espécies com potencial para as indústrias de perfumes e cosméticos. Isso é só um começo diante da corrida das industrias em busca das essências silvestres,

A rica biodiversidade da Amazônia chega com força total à indústria de produtos cosméticos, perfumaria, higiene e limpeza à base de plantas da floresta, cujo resultado é uma diversidade de perfumes, óleos, sabonetes e cremes e outros manufaturados que aos poucos vão substituindo os similares derivados minerais e animais, muitas vezes nocivos à saúde. E não é à toa que a nossa biodiversidade tem atraído a atenção das indústrias brasileiras e internacionais que utilizam produtos e essências naturais, visando à industrialização e comercialização em larga escala, principalmente pelo atrativo que a natureza amazônica exerce sobre o mercado.

Ao longo da história, muitos povos acreditavam se conectar com os deuses, com o sagrado, através dos perfumes, palavra latina per fumum, que significa por meio da fumaça. Até hoje no Brasil, essa relação está presente nos cultos de origem africana, com mirra, bálsamo, alecrim entre tantas outras essências usadas nos rituais. Os cheiros das plantas da mata também fazem parte das tradições dos povos indígenas brasileiros.

Segundo cientistas, existem mais de 35 mil espécies de plantas de grande porte na Amazônia. O Inpa tem 230 mil amostras delas, mas até agora somente cerca de 15 a 18 mil foram classificadas, 200 espécies com potencial para as indústrias de perfumes e cosméticos, selecionada no livro Apontamentos para a Cosmética Amazônica, do botânico Juan Revilla.

O cheiro das essências da Amazônia, aliás, já foi cantado em prosa e verso desde os primórdios da colonização, quando os portugueses trouxeram para Santa Maria de Belém do Grão-Pará a devoção a São João e as superstições a ele ligadas, cujas tradições mantêm-se com o sincretismo cultural nas práticas do perfumado banho-de-cheiro paraense, que foi buscar ingredientes e aromas na selva amazônica.

Segundo a crendice regional, o banho-de-cheiro é o resumo de todos os anseios de felicidade, que deixa escorrer pelo corpo a água de perfumes bons, preparada em casa ou adquirida nos mercados e lojas do ramo, com cachaça-cheirosa, ou “garrafada” que possuem dons miraculosos. Antigamente os banhos-de-cheiro eram vendidos nas ruas e anunciados pelos pregoeiros: “Cheiro cheiroso! Cheiro cheiroso para o banho de cuia!”.

O cheiro do Pará é uma mistura de cascas de árvores e raízes, que são raladas e depois dosadas de acordo com o aroma de cada uma, transformando-se em pó granulado. A matéria-prima do cheiro na sua maior parte é originária de nossa flora, como as raízes patchuli e priprioca, e as cascas são de macacaporanga, casca-preciosa, mucuracaá, cipó-catinga, japana, mangerona, catinga-de-mulata, trevo-mangericão, pataqueira, cumarú, oriza, dentre as mais usadas.

Quem não conhece o perfume do famoso sabonete Phebo? Sua história começou na década de 1930 em Belém do Pará, com o ambicioso sonho de dois primos, Antônio e Mário Santiago, portugueses radicados no Brasil, que resolveram criar um sabonete brasileiro que fosse tão bom quanto os sabonetes ingleses e franceses, considerados na época os melhores do mundo. Os dois pesquisaram diversas essências naturais da região até obterem uma mistura que combinava a do pau-rosa a mais de uma centena de ingredientes, como sândalo, cravo-da-índia e canela-de-madagáscar, entre outras.

A qualidade dos produtos Phebo e a originalidade de suas fragrâncias fizeram com que a marca conquistasse, ao longo dos anos, um lugar cativo no lar de todos os brasileiros, tornando-se querida por todos e estabelecendo um tipo de fidelidade única que foi seguida de geração a geração. Depois de vendida para a multinacional Procter & Gamble e de passar pelas mãos da empresa holandesa Sara Lee, a marca foi adquirida pela Granado Laboratórios, que reeditaram o perfume original da Phebo, tornando-o, porém, mais suave.

Outra empresa que marcou história da cosmética na região foi a Chamma da Amazônia, que nasceu há mais de 40 anos, quando Oscar Chamma começou a formular perfumes em Belém, com matérias-primas da região, como o patchuli, a priprioca, a alfazema e outras plantas encontradas na Amazônia. A Casa Chamma, empreendimento comercial de Oscar, fazia sucesso em Belém quando sofreu um incêndio no início dos anos 80 e teve de adiar o sonho de seu fundador (vender cheiros da região) até 1996, para ter continuidade pelas mãos de sua filha Fátima Chamma.

Hoje, o domínio das essências regionais deixou de ser exclusividade das “garrafadas”, dos banhos-de-cheiro, da raiz de patchuli e das fragrâncias dos pioneiros que promoveram o “cheiro cheiroso” da Amazônia, para disputar um mercado muito concorrido. A fantástica química dos cheiros da biodiversidade regional, rica em plantas aromáticas, tem um enorme potencial a ser explorado e pode despontar ainda mais pelo valor estratégico do Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia (Probem), que criou o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), um complexo de laboratórios voltado para pesquisas básicas e aplicadas, transferências de tecnologia, incubação de empresas e prestação de serviços, como a certificação de produtos, patenteamento e controle de propriedade industrial, comercialização de produtos, serviços e tecnologias. O CBA está instalado em Manaus, abrindo caminho para o pólo de bioindústria, com empresas que utilizam matéria-prima local na elaboração de produtos oriundos da biodiversidade.

Mistérios d´Amazônia, Juruá Cosméticos Naturais da Amazônia, Pharmakos Farmácia de Manipulação e tantas outras empresas cosméticas são frutos desse valor estratégico dos produtos oriundos da biodiversidade amazônica. Atualmente a Natura é a maior fabricante de cosméticos da América Latina, aparecendo como a única representante da região no seleto clube das gigantes mundiais do ramo. Domina 12% do mercado brasileiro – onde 1.123 empresas movimentam R$ 11 bilhões ao ano – com um portfólio de cerca de 500 produtos, renovados ao ritmo de 130 lançamentos por ano.

O botânico peruano Juan Revilla, 30 anos de Brasil, pesquisador do Departamento de Botânica do Inpa e um dos grandes conhecedores da flora da região, afirma que agora é uma boa oportunidade da Amazônia contribuir com os novos cheiros para que o mundo renove seus perfumes. Diz que “se a gente pudesse trabalhar com perfumes feitos totalmente aqui, com alto valor de agregação, seria o ideal. As folhas da preciosa é uma dessas essências da região com potencial para se tornar perfume”.

O pau-rosa (Aniba rosaeodora), árvore da Amazônia que quase desapareceu do Brasil depois de muito explorada pela indústria internacional de perfumes, foi e continua sendo fundamental para indústria cosmética regional. Marilyn Monroe, que eternizou o Chanel Nº 5, provavelmente não sabia que seu perfume preferido continha linalol, substância extraída do pau-rosa, uma espécie da floresta amazônica O linalol é um dos mais importantes fixadores usados pelas indústrias de perfume do mundo. Pesquisadores calculam que para atender a demanda mundial de 1930 para cá, mais de dois milhões de árvores de pau-rosa foram retiradas da Amazônia. Paulo de Tarso, pesquisador do Inpa, afirma que na década de 60 o Estado do Amazonas exportava mais de 500 toneladas de óleo linalol, hoje reduzida a menos de quatro mil quilos.

Maria da Paz Lima, da Coordenação de Pesquisas em Produtos Naturais do Inpa apresenta a Aniba canelilla e a Cinnamomum verum, conhecidas popularmente como preciosa e canela-da-índia ou canela-do-ceilão, respectivamente, como plantas com potencial para a indústria de cosméticos, pois a preciosa possui uma substância chamada nitrofeniletano, com odor parecido com o da canela. Para Maria da Paz, o principal constituinte da planta é o eugenol, substância que ainda possui ações analgésica, anestésica e anti-séptica.

A coordenadora também destaca a família da Burseraceae, com as espécies Protium altsonii e Protium strumosum, conhecidas na Amazônia como breu, breu-branco, breu-sucuruba, breu-vermelho e breu-almíscar. “Os breus são muito utilizados pela indústria de cosméticos para a produção de perfumes e óleos essenciais”, afirma a pesquisadora. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 79)

 
Apolonildo Brito

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