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Festival de beleza na Ilha da Fantasia

Pela primeira vez na história do Festival Folclórico de Parintins, os Bois Garantido e Caprichoso ficaram empatados na pontuação dos jurados e assim a chamada “festa da vitória” não teve uma cor única. Por causa do resultado, a ilha Tupinambarana, após os três dias de apresentação, permaneceu literalmente azul, na parte baixa da cidade, reduto do Caprichoso, e vermelha, no lado alto, onde fica o Garantido, com cada um curtindo a justa conquista

O show folclórico agradou a todos os que foram a Parintins, principalmente os patrocinadores, que se viram gratificados pelo grande sucesso. O Governo do Amazonas, maior promotor do Festival, sentiu-se plenamente satisfeito. Valeram os investimentos, mas o resultado da disputa deixou a galera pasmada. O Festival Folclórico de Parintins acontece há 35 anos e só agora em 2000 deu empate. Todos venceram e ninguém pôde “gozar” o contrário, detalhe de fim de festa que dá um gosto todo especial entre os rivais Caprichoso e Garantido.

O Festival deste ano, o primeiro do novo milênio, foi o mais bonito de todos os tempos. A organização esteve impecável, o público animado e o espetáculo no Bumbódromo melhor do que nunca – os dois Bois se esmeraram, oferecendo criatividade, coreografia e beleza cênica jamais vistas na ilha Tupinambarana. Pelo que ocorreu em Parintins, a cidade provou mais que nunca que de fato é dona do maior evento folclórico da Amazônia, quiçá de todo o Brasil, tendo como personagens principais os bumbás Caprichoso e Garantido.

O folclore de dez milhões de dólares nasceu da criatividade do povo parintinense, que soube transformar o belo e singelo bumba-meu-boi maranhense num inigualável espetáculo cultural, sintetizando as tradições caboclas da região do Médio Amazonas, ao mesmo tempo em que apresenta o brilho e a pompa de um mundo imaginário, atingindo tal feito com a mestria de artesãos e artistas da terra.

Nos temas dos bumbás, este ano, ficou bem clara a opção ideológica de cada grupo. Com “A terra é azul”, o Caprichoso parodiou o astronauta Yuri Gagarin, como apelo, para mostrar, sob qualquer artifício, a preferência da cor de sua galera, em detrimento de qualquer compromisso ortodoxo. Pecou porque a figura principal (o Boi) do folclore pouco apareceu no espetáculo, mas deu um verdadeiro show cênico ao introduzir em suas apresentações alegorias, coreografias e fantasias que pouco têm a ver com o folclore original, mas bem engajadas ao espetáculo.

Até mesmo a bela guerra tribal apresentada no terceiro dia, praticamente excluiu o Boi de cena, que só apareceu no final da apresentação, tornando-o figura secundária, quando é o personagem central do auto. Mas o Caprichoso teve talento suficiente para dissimular, com beleza, luxo e grandiosidade, o seu vôo tecnológico e pirotécnico em busca de novos visuais, sem muito compromisso com o folclore original, merecendo o empate.

O Garantido, por sua vez, foi mais raiz e fiel ao folclore, até mesmo no tema escolhido. “Meu brinquedo de São João”, além de ser carinhoso com seu Boi, mostrou a importância que o grupo lhe dá e às origens do folclore do folguedo junino. Pai Francisco e Catirina, por exemplo, que não contam ponto, mas são presenças obrigatórias nas apresentações, tiveram destaque nos três dias de espetáculo. Todo o auto se fez exclusiva e genericamente em torno do Boi Garantido, em variações dignas de Hollywood, o que refletiu a preocupação da diretoria vermelha e branca de manter a tradição.

O Festival Folclórico de Parintins é hoje o evento amazônico mais conhecido no exterior e atrai a cada ano maior número de turistas. Nos últimos anos, a presença de artistas e personalidades nacionais tem sido uma constante, inclusive a imprensa. Isto, contudo, é fruto de um trabalho de marketing elaborado pelo Governo do Estado do Amazonas, que tem investido milhões em mídia e em infra-estrutura na cidade berço dos bumbás, como a construção do Bumbódromo, financiamento para hospedagem dos visitantes e melhoramentos no visual de Parintins.

Os patrocinadores, como a Coca-Cola e outros ocasionais, também têm colaborado para o sucesso do empreendimento, mas cabe aos próprios grupos folclóricos a responsabilidade de preparar o espetáculo. Cada Boi, este ano, gastou cerca de R$ 2,5 milhões para fazer a grandeza da festa, um terço destes bancados pelo Governo do Amazonas, Coca-Cola e demais patrocinadores. O restante, fruto de promoções: bar do Boi, Currais e Movimentos Garantido e Caprichoso. São exemplos para ser seguido por outros Estados que possuem potencial cultural semelhante. (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 32)

 
Apolonildo Brito

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