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Sairé: uma opereta cabocla santarena

Criado há quatro anos para resgatar o imaginário regional, atrair turistas, gerar empregos e renda para a paradisíaca vila de Alter do Chão, em Santarém, o folclore dos Botos foi sistematizado por artistas locais e ganha identidade como opereta regional, oferecendo um espetáculo diferenciado dos demais festivais da Amazônia, entrelaçando o religioso e o profano à margem de um dos rios mais bonitos do mundo.

A festa do Çairé deste ano surpreendeu pelo crescimento de público e pela beleza do espetáculo apresentado. A platéia presente literalmente duplicou, tanto no Çairódromo quanto nas praças e praias da vila balneária. Mais de cem mil pessoas visitaram Alter do Chão durante o Çairé 2000, 60 mil destas no penúltimo dia (domingo). Mas a grande surpresa foi o encontro da identidade do folclore dos Botos, que se transformou numa grande opereta cabocla, mote cenográfico, musical e temático que hoje o diferencia dos festivais de Parintins e Juruti ou de qualquer outro lugar do país. Paralelamente, o cantor baiano Netinho foi a principal atração artística. O som e a iluminação dos espetáculos ficaram sob a responsabilidade de Paulinho Produções.

Pode-se dizer, sem medo de errar, que foi o maior evento já acontecido na paradisíaca vila de Alter do Chão. E tudo graças à iniciativa do atual prefeito de Santarém, Joaquim de Lira Maia, que introduziu fundamentais mudanças ao tradicional evento ali realizado há mais de 300 anos e está construindo o novo Çairódromo com uma bela praça ao lado, além de ter praticamente bancado toda a festa do Çairé deste ano.

Folclore dos Botos – Quando a atual administração municipal começou a discutir as mudanças necessárias ao desenvolvimento da Festa do Çairé com a comunidade de Alter do Chão, há quatro anos, decidiu-se por mudanças de data e local do evento e pela criação do folclore dos Botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, capazes de atrair turistas e gerar emprego e renda para a paradisíaca vila balneária.

Como Parintins, que recriou o folguedo do Bumba-meu-boi para dar grandeza ao folclore, Santarém introduziu na tradicional Festa do Çairé, paralelamente, o ritual dos Botos Tucuxi e Cor-de-rosa, visando também resgatar a lenda do golfinho da Amazônia e outras que a memória popular vem perdendo ao longo dos anos, oferecendo ainda espaço destinado a grandes shows artísticos e culturais. Tudo sem mutilar o principal folclore da vila balneária, que mantém à risca o que herdaram dos índios Boraris, resultado de rituais nativos com práticas missionárias dos jesuítas.

Ao reboque das discussões, mudou-se o local onde era tradicionalmente realizado o belo e singelo folclore borari (pracinha da matriz, em frente à vila) para a atual Praça do Çairé, mais ampla e ideal para grandes concentrações humanas. A grafia do nome da festa também sofreu alteração – de Sairé para Çairé, em observação a antigos trabalhos de historiadores, sociólogos e folcloristas.

A troca da data do início de julho para meado de setembro (quando as praias estão expostas e bonitas) e a encenação da lenda do Boto caíram como uma luva, em virtude do romantismo que a localidade provoca neste período. O cenário não poderia ser melhor para reviver o ser encantado.

A fauna amazônica, aliás, é uma fonte inesgotável da cultura popular e inspira os folguedos que abundam em toda a Região, que é tradicionalmente festeira. Os “cordões” de pássaros e bichos alegraram e ainda alegram gerações nas quadras do mês das fogueiras, dentre eles os do Boto se destacam pelo fascínio que suas lendas inspiram, cercadas de mistérios e erotismo.

Artistas, historiadores, folcloristas e coreógrafos santarenos foram então convocados para sistematizar a trama do espetáculo e criar sua ideologia, seus rituais e músicas baseados na tradição regional e no lendário amazônico. Nascia o grande filão que daria origem ao folclore que mais promete crescer na Amazônia.

Mas os três primeiros anos do festival dos Botos foram difíceis e ambíguos, sob o ponto de vista do folclore. A falta de base folclórica e a influência de Parintins criaram dificuldades na busca da identidade do Çairé moderno, problemas somente superados este ano, com a mudança cênica, musical e temática dos Botos Tucuxi e Cor-de-rosa, que alternaram o tribal ao cotidiano ribeirinho, mote da grande opereta regional que passou a ser o festival. O Tucuxi (bicampeão do Çairé) primou pela renovação, apresentando cenas caboclas (castanheiros, seringueiros, juteiros, pescadores e agricultores) e até diálogos entre matutos para dar mais autenticidade ao conteúdo do evento. Já o Cor-de-rosa não foi tão fundo, porque manteve a tônica tribal do espetáculo, mas ofereceu belas fantasias e danças paraenses, além de homenagear Pinduca com coreografias variadas de carimbó.

Com isso, o festival de Alter do Chão pode se transformar, num curto período de tempo, na maior festa folclórica da Amazônia, pois conta com vantagem adicional de possuir belas praias à margem do azul-cristalino rio Tapajós, considerado um dos mais bonitos do mundo e uma boa rede hoteleira em Santarém, que dista 32 km  do local do evento, por estrada asfaltada, e acesso por vias rodoviária (Santarém-Cuiabá e Transamazônica), fluvial e aérea.

A festa religiosa

Com mais de 300 anos de  tradição, a festividade do Çairé lembra a conversão dos índios boraris ao cristianismo, representando uma das mais importantes expressões do acervo cultural paraense. O símbolo do evento (foto acima) traduz o sincretismo religioso, com o arco de boas-vindas aos colonizadores e as três Pessoas da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

O auto do Boto

O festival dos Botos encontra o mote do espetáculo de Alter do Chão: conjugar a realidade cabocla ao seu lendário, numa autêntica opereta regional, na qual a coreografia, o canto e a fala resgatam a memória cultural da região. (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 33)

 
Apolonildo Brito

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