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Os Cavalos Lavradeiros de Roraima

O fantástico lavrado de Roraima só poderia gerar uma raça igualmente poderosa como o cavalo lavradeiro, espécie eqüina que teve origem no século XVIII, introduzida por Lobo D’Alma, que fez chegar o primeiro rebanho aos “campos gerais” do Vale do Rio Branco, em 1789, dando início à pecuária na região, que cresceu a partir das Fazendas do Rei: São Marco, São Joaquim e São Bento.

Durante dois séculos, pequenos e médios criadores localizaram suas fazendas, sem qualquer cerca que as delimitassem, nas margens de rios e igarapés que circundam o Lavrado do Maruaí, principal refúgio dos cavalos arredios que, aos milhares, formaram rebanhos dos chamados cavalos lavradeiros, hoje reconhecidos como uma raça singular, segundo minucioso trabalho publicado pela Embrapa.

Para Ramayana Menezes Braga, em sua obra Cavalos Lavradeiros em Roraima, que estuda a origem desses eqüinos, chamados poeticamente de cavalos selvagens, a descendência do animal é bem mais remota. Diz que o gênero equus surgiu nas Américas no fim do Plioceno, tendo desaparecido da região na Era Quaternária, quando migrou para Eurásia e ali gerou os cavalos atuais.

Indômito, valente, ágil, arredio e resistente, o lavradeiro ganhou fama como “cavalo selvagem” graças à poética e ao cancioneiro roraimense, nos quais se destaca a obra de Eliakin Rufino:

“Eu sou Cavalo Selvagem / não sei o peso da sela / não tenho freio nos beiços / nem cabresto / nem marca de ferro quente / não tenho crina cortada / não sou bicho de curral.

“Eu sou rebelde alazão, sou personagem de lendas / sou conversa nas fazendas / sou filho livre do chão /; eu sou cavalo selvagem / meu mundo é de imensidão.”

No século XIX havia dezenas de milhares desses belos animais, hoje são menos de duzentos lavradeiros, em pequenos grupos, que continuam majestosos em seus galopes, tão selvagens quando nos idos pioneiros de Roraima. Eles vêm sendo dizimados pela chegada da pecuária extensiva e da agricultura, por caçadores que os capturam para vender ou por homens que os matam pelo simples prazer da caça.

“O que está desaparecendo não são apenas animais de extraordinária beleza, parte de nosso patrimônio natural, mas uma espécie única da raça brasileira, surgida e adaptada, ao longo do tempo, às condições de vida de nosso cerrado, cuja resistência ímpar a parasitas, tanto internos quanto externos, inclusive a doenças sérias como anemia infecciosa, o destaca dentre os demais animais da espécie.

“A resistência ao esforço prolongado é outra característica do lavradeiro que, apesar da fragilidade alimentar do cerrado, tem grande capacidade de trabalho, vencendo fadiga. Sua velocidade é outro asopecto sem paralelo, chegando a correr 80 km por hora sem parar. O mais importante, entretanto, é a riqueza comportamental do animal. O patrimônio ecológico que representa e o relacionamento social da espécie em seu estado natural. É a única população selvagem de cavalos na América Latina, inclusive também a única do mundo, sem proteção”, explica Sérgio Beckman, membro do Instituto Brasileiro de Pesquisas Ambientais (Pró Natura).

Segundo o pesquisador, p Lavrado do Maruai é o habitat natural dessa espécie em extinção. A região fica a nordeste de Roraima, uma área de planície, escassa de vegetação e um dos lugares menos povoados e mais desconhecidos do Brasil. A região é seca no verão e pantanosa no inverno. O lavrado começa no rio Surumu, limite dessa imensa planície e região dos lavradeiros. Eles correm pelo lavrado, que parece não ter fim. Nascem e crescem nas planícies com todos os hábitos de animais selvagens. Mas foram perseguidos em campo aberto e levados para o interior das fazendas, que os impediam de voltar à vida livre do campo. Com o tempo de cativeiro, perdem as características de animais selvagens.

Em apenas cinco anos, de uma manada de 2.000 cavalos, restam menos de 200. Contudo, medidas severas estão sendo tomadas para salvar a espécie, a única raça eqüina que vive em liberdade na América do Sul. (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 35)

 
Apolonildo Brito

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