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Andiroba, a árvore da vida

Foi na floresta que a população da Amazônia encontrou a sua primeira farmácia. Os melhores medicamentos estão no reino vegetal e dentre os “santos remédios” a andiroba figura na linha de frente. Hoje, devido suas propriedades medicinais, esta planta milagrosa e seus subprodutos são obrigatórios nas feiras livres, mercado, farmácias e lojas de cosméticos da Região Norte, principalmente nos lares e fora do país

Na Amazônia, dentre os “santos remédios” de nossos avós, a andiroba figura na linha de frente de todos os demais. Este vegetal milagroso e seus subprodutos são obrigatórios nas feiras livres, mercados municipais, farmácias e lojas de cosméticos da Região Norte, principalmente nos lares. Devido às suas propriedades, hoje, também é comercializado em outras regiões do país, além de ser exportado para indústrias de cosméticos, principalmente da França, Alemanha e dos Estados Unidos.

Várias instituições de pesquisas da região como Inpa e Embrapa desenvolvem estudos sobre as propriedades da andiroba, seu processamento, princípios ativos e aplicações. O Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), implantado no Pólo Industrial de Manaus (PIM), que foi criado para promover o desenvolvimento e a comercialização de produtos naturais com o uso de tecnologias por meio do incentivo à produção industrial, é a mais nova instituição a desenvolver pesquisas sobre os recursos naturais e as espécies vegetais da Amazônia, entre elas a andiroba, com grande potencialidade para servir de matéria-prima na produção de cosméticos e fitoterápicos.

O óleo dessa planta “milagrosa” é ainda considerado bom para tudo: baque, inchaço e até para acalmar o feto na barriga da mãe, sendo utilizado como ungüento. Os indígenas o passam no corpo para repelir insetos, costume observado pelos cientistas que resultou na fabricação de velas repelentes de mosquitos e outros subprodutos feitos com o insumo vegetal.

A andiroba é adstringente e cicatrizante de efeito rápido e serve também contra vermes, protozoários, artrite, reumatismo, inflamações em geral, infecção renal, hepatite, icterícia, e outras infecções do fígado, dispepsias, fadiga muscular, dores nos pés, resfriados, gripes, febre, tosse, psoríase, sarna, micose, lepra, malária, tétano, herpes e úlceras graves. As folhas e a casca são usadas para fazer um chá que tem poderosa ação diurética e para limpar rins e bexiga. O vegetal está sendo testado ainda no tratamento do câncer.

Os índios Mundurukus usavam o óleo de andiroba para mumificar a cabeça dos inimigos, enquanto as etnias Wayãpi e Palikur, do Amapá, entre outras, o utilizam como carrapaticida e parasiticida na remoção de carrapatos e piolhos. O óleo também serve para extrair, como solvente, os corantes vegetais de pintura corporal. Mas foi o uso medicinal da andiroba que se espalhou pela Guatemala, Peru, Colômbia, Panamá, Trinidad, Venezuela e Brasil. O óleo de andiroba bruto tem consistência de banha, tanto que é chamado de azeite na Região Norte. Seu nome vem do tupy-guarani “andi-roba”, que quer dizer gosto amargo, cujo cheiro é acre e perturbador.

A andiroba também conhecida como Andirobinha, Andiroba Branca, Panaiba (Brasil), Robamahogany (Estados Unidos), Karapa (Guiana), Andiroba-carapa (Guiana Francesa), Crabwood (Inglaterra), Cedro-bateo (Panamá), Andiroba (Paraguai e Peru), Krappa (Suriname), apresenta-se atualmente como uma espécie florestal de grande interesse industrial no mundo inteiro. Apesar da diversidade de nomes, existem apenas duas espécies botânicas da andiroba: Carapa procera D.C. e Carapa guianensis Aubl., ambas com o mesmo nome vulgar (andiroba), que é uma das mais populares plantas medicinais da América do Sul. A espécie Carapa guianensis Aubl. é encontrada em toda a bacia amazônica, principalmente em ambientes de várzea, enquanto que a Carapa procera D.C. é mais difícil. No Estado do Amazonas as duas espécies ocorrem principalmente em três municípios: Manacapuru, Anamã e Silves, que ainda hoje adotam a extração tradicional do óleo de Andiroba, que teve origem na cultura indígena e foi transmitida por meio da oralidade às comunidades interioranas em toda região amazônica.

Seu óleo, extraído das sementes, é um dos produtos mais importantes e valorizados do mercado regional, utilizado como anti-séptico, anti-inflamatório, purgativo, para combater dores lombares e reumáticas, além de um eficaz cicatrizante. É usada também como combustível para geração de energia no interior da Amazônia. Um estudo das pesquisadoras do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), doutora Isolde Dorothea Kossmann Ferraz e da bolsista Andreza Pereira Mendonça, registra o processo de extração artesanal, longo e complexo do óleo de andiroba sem utilizar equipamentos sofisticados.

A espécie Carapa guianensis Aubl. tem maior produtividade de óleo em relação a Carapa procera, cujo processo de extração é dividido em três etapas: coleta e seleção de sementes; preparo da “massa do pão” e extração do óleo. Na primeira, as sementes furadas (brocadas), pretas, muito leves ou germinadas são consideradas inadequadas para o processo seguinte. A segunda vem após a seleção das sementes adequadas, que são armazenadas durante algum tempo e cozidas até a amêndoa ficar mole, para serem amassadas com as mãos até obter uma massa homogênea de onde o óleo será facilmente extraído. A última é a do fabrico do óleo, quando as obtidas pela etapa anterior são colocadas sobre um pedaço de alumínio inclinado para que a extração ocorra naturalmente, de forma lenta, durante um período de cerca de um mês. Esse processo pode ser acelerado se a massa ficar exposta ao sol ou com a utilização de tipiti ou de uma prensa mecânica. Ao longo da extração, a massa se torna escura e seca e pode ser esfarelada com as mãos, resíduo este que ainda pode produzir óleo.

Alternativas – As sementes que caem das árvores flutuam nos rios e igarapés e são recolhidas pelos ribeirinhos, fervidas e deixadas de lado até a casca apodrecer, quando são espremidas no tipiti. Cada árvore de andiroba produz cerca de 200 quilos de sementes por ano que, por sua vez, rendem um litro de óleo para cada seis quilos da matéria-prima. Do bagaço são feitas bolas que ficam queimando para afastar os insetos, inspiração cabocla para o início da pesquisa para o fabrico da vela de andiroba, atualmente usada como repelente, cuja queima não produz fumaça tóxica nem fuligem, além de não ter cheiro e ser matéria-prima vegetal com origem certificada pelo Ibama.

Resultado de pesquisas realizadas na Fiocruz dá conta que o dispositivo na forma de vela é capaz de volatilizar substâncias presentes na semente de andiroba (Carapa guianensis Aubl.), durante um período suficiente para afastar insetos hematófagos como, por exemplo, mosquitos dos gêneros Culex, Aedes Anopheles, piuns ou borrachudos (simulídeos).

Aspectos químicos – A casca é adstringente e encerra o alcalóide “carapina” (“Andirobina”), tanino, ácidos voláteis, ácido mirístico, acido palmítico, ácido oléico, ácido linoleico e insaponificáveis.

Características

Árvore: De grande e pequeno porte, árvores de Carapa guianensis podem atingir até 55 metros de altura; comumente atingem de 25 a 35 metros; Carapa procera, de menor porte atinge até 30 metros. Ambas possuem um fuste cilíndrico e reto de 20 a 30 metros (C. guianensis) ou até 15 metros (C. procera), podendo apresentar sapopemas. As duas espécies possuem uma copa de tamanho médio, densa e composta por ramos eretos ou com uma leve curvatura, proporcionando uma sombra intensa. A casca é grossa e amarga e apresenta uma coloração avermelhada, mas pode ser também acinzentada no caso da C. guianen-sis. A casca se desprende facilmente em grandes placas.

Folha – Composta, alternada e paripinada, com um vestígio de um folíolo terminal, tomentoso e glandular. Em média com 30 a 90 centímetros de comprimento, podendo chegar até 110 centímetros (C. procera). Folíolos opostos ou subopostos de 3 a 10 pares, de 10 a 50 centímetros de comprimento e de 4 a 18 centímetros de largura, possuem margens inteiras e apresentam um tom verde-escuro brilhante na superfície superior e glabra na superfície inferior com pêlos simples e esparsos na nervura central. As duas espécies apresentam nectários extrafloral na ponta das folhas, atraindo principalmente formigas.

Flor – Pequena com pétalas de no máximo 8mm de comprimento, uni-sexual, sésseis ou sub-sésseis, glabras, sub-globosas de cor branca a creme, levemente perfumada. Flores de C. guianensis são predominantes 4-meras (com 4 sépalas, 8 pétalas e 16 estames) e C. procera são predominantes 5-meras (com 5 sépalas, 10 pétalas e 20 estames) e raramente apresentam até 6-meras.

Fruto – Cápsula globosa e sub-globosa com 4 a 6 valvas, indescente ou deiscendente que se separam com o impacto da queda do fruto.

Semente – Coloração marrom, possui as laterais anguladas devido à compreensão mútua. As sementes presentes no mesmo fruto podem apresentar uma grande variação de tamanho e as sementes das duas espécies podem ser identificadas através do tamanho e da forma do hilo. Sementes de C. procera apresentam um hilo menor e uma saliência delimitante de coloração mais clara; com formato bem definido: cuneiforme em uma extremidade e arredondada em outra sendo livre de resíduo de outros tecidos. Sementes de C. guianensis apresentam um hilo maior sem saliência delimitante, apresentando resíduos de tecidos da placentação aderidos. Os cotilédones formam uma massa de reserva única, pois são fundidos, impossibilitando a percepção e a separação das duas partes. O eixo embrionário é minúsculo e localiza-se dentro do tecido cotiledonar perto da micrópila. Sementes de C. procera podem apresentar poliembrionia, que nunca foi observado em C. guianensis. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 78)

 
Apolonildo Brito

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