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Carimbó, o poder da música folclórica paraense

Pesquisa do escritor e jornalista Joaquim Amoras mostra que o ritmo, a dança e o folclore do Carimbó nasceram em Marapanim. Leia o trabalho do autor. Ele diz que o Carimbó que se pratica hoje na região do Salgado é definido como Carimbó Praiano, diferente na parte coreográfica do Carimbó Rural e do Pastoril, muito popular na Ilha de Marajó, onde o homem dança fazendo inflexão no corpo reverenciando a dama. Suas raízes rítmicas vêm do Lundu.

Estudos revelam que o Carimbó Praiano é dançado de forma ereta, onde o cavalheiro é o centro das atenções porque lhe cabe a primazia “de tirar a dama para dançar”; já no Carimbó Rural e Pastoril, o cavalheiro dança agachado, bem chegado ao Lundu que se dança no Arquipélago do Marajó.

O Município de Marapanim defende o direito de ser o criador desse ritmo alucinante que marca o folclore paraense. Naturalmente que os tambores vieram do batuque, pois as informações de Vicente Chermont diziam que “o Carimbó (nome do instrumento de percussão do ritmo) era feito de um tronco escavado de um metro de comprimento por trinta centímetros de diâmetro, em cuja extremidade era esticado um couro de veado que produzia um som”.

O renomado escritor José Veríssimo afirmou que na Dança do Gambá ou Tambores de Gambá, em Óbidos, se usavam os mesmos tipos de tambor. Na região canavieira do Estado (Igarapé-Miri) predominava o bangué, que também usava o mesmo tipo de tambor, Conclui-se, portanto, que o Curimbó ou Carimbó surgiu da necessidade que os negros escravos sentiam de se divertir e a música adaptada das rodas de samba favorecia o distanciamento do estado nostálgico dos escravos que viviam nos sítios e fazendas da região. Porém o Município de Marapanim, ao que tudo indica, foi de fato o criador da Dança do Carimbó, criado no lugar chamado Santo Antônio, hoje Maranhãozinho, em Marapanim.

Os registros da irmandade de São João Batista dão conta de que as cantorias deram feitas com os atabaques. Depois foram introduzidos o xereré (pandeiro sem couro), milheiro (lata com caroços de milho), xeque-xeque, reco-reco, viola ou banjo e flauta feita de braço de imbaúba e pauzinhos. Estava criado o folclore, pois houve participação do povo. A partir daí foi aproveitado o nome do tambor para a dança e tornou-se a Dança do Carimbó, que passou a incorporar uma das riquezas culturais do município de Marapanim e logicamente do Estado do Pará.

No fim do século XIX a polícia não admitia a dança pois afirmava ser dança de desocupados, dança de negros, dança de escravos e isto criava problemas seríssimos, pois os brancos não aceitavam esta manifestação. Mais tarde o Carimbó se tornou uma festa de temporada e as autoridades reservaram o mês de dezembro para que fossem levantados os barracões, onde se dançava a noite toda. A aceitação veio em função do espírito religioso, pois os negros também queriam homenagear São Benedito, que se celebra dia 26 de dezembro. Nesta data era levantado o mastro votivo e o juízes, do mastro e da bandeira, eram os promoventes das noitadas de carimbó que se estendiam até o dia 6 de janeiro, quando era festejado os Dia dos Santos Reis.

O Carimbó teve inúmeros mestres nessa arte, porém o destaque maior fica para Lucindo Costa, conhecido como Mestre Lucindo, que foi quem de fato deu asas ao gostoso ritmo. Mas devemos reconhecer a contribuição de inúmeros cantores como Eliana Pitman, que talvez tenha sido a primeira artista a reconhecer o carimbó como música; Roberto Leal, que internacionalizou o ritmo; Nazaré Pereira e o velho Pinduca, que ganhou até mesmo o título de Rei do Carimbó.

Em Marapanim  ninguém contesta o valor de Pinduca, apenas reclama da maneira como foi desvirtuado o ritmo, pois o povo se acostumou a ver o Carimbó sendo tocado no estilo pau-de-corda  e, de uma hora para outra, se via diante de guitarras e baixos, baterias, teclados etc. Era a era do vanguardismo que chegava para mudar. Logicamente que as gravadoras queriam faturar com a música e o estilo caboclo, o original dos nossos antepassados, não servia, não era viável.  Felizmente o Carimbó-vanguarda não enterrou o Carimbó-folclore. O Carimbó de raiz de Marapanim continua a produzir mestres de altíssima qualidade, como o Mestre Pelé, Mestre Luís Goiaba e tantos outros.

O Carimbó ainda é o melhor meio de fuga  e a lúdica para o povo sofrido, porque nas letras das músicas está a sua manifestação e o seu romantismo e as vezes as suas desilusões. O velho Lucindo Costa possui uma música, cuja letra é antológica para o Carimbó, que mostra o valor poético desse mestre:

“Se eu soubesse que tu vinha

Eu fazia o dia maior,

Dava um nó na fita verde,

Pra prender o raio de sol”

Lucindo foi feliz e ao ver a mulher amada e não queria um dia de 24 horas, desejava um dia interminável, daria um nó na fita da esperança, pra prender o raio de sol, com a luz permanente. Os versos do carimbó são quartetos de muita originalidade, pois contam uma história de poucas linhas. Este é o Carimbó Praiano, ritmo de Marapanim.

Carimbó, Zimba, Curimbó: uma evolução acadêmica – O Carimbó não se resume apenas nas variações ou nos movimentos dos dançarinos, visto que possui coreografia variada e bem definida e que obedece a um certo ritual que os mais antigos, obrigatoriamente, seguiam como determinado para dançar, pois o ritmo com a cantiga e o balanço do corpo serviam para exprimir as vibrações da dança e que chegavam à encenação de imitação dos bichos, daí ter a dança do peru, da formiga, pássaros, pessoa do povo ou fatos bem comuns, assim que temos poesia em ritmo de Carimbó homenageando a periquitambóia (cobra), jacaré, o tubarão, a lavadeira, o peru da Atalaia (posto de observação), o roda pião, o maçarico etc.

Na verdade, é bom que se diga, que o Carimbó também é expressão viva do lamento caboclo, de sua desilusão com os dirigentes ou para alertar ou dar recados importantes, demonstrar a ilusão do amor, como maneira expressiva da crônica diária que vivem os poetas, pescadores, lavadores ou pagodeiros. Alguns historiadores, inclusive o antropólogo Vicente Salles, dizem que o carimbó surgiu da necessidade que o negro sentia para compensar as horas de trabalho, daí ter criado o canto do trabalho, onde levantava tipos naturais de seu dia-a-dia. Era o melhor meio de fuga, segundo Vicente Salles, e a lúdica para o povo era a suprema vontade de se divertir e transformar as músicas em ritmo de dança.

No Baixo Amazonas, a dança era possivelmente as rodas de samba, depois transformada em Carimbó Rural; em Macapá e grande parte do Estado do Amapá continuou a valer o batuque e o Marabaixo; em Bragança prevaleceu o retumbão; Bange na região canavieira (Igarapé- Miri, Abaetetuba e Cametá); Gambá restrita à divisa entre Pará e Amazonas e o Carimbó, ou Curimbó (como simples fonética) na região do Salgado e Ilha do Marajó, com pequenas variações no Carimbó Praiano de Marapanim, Vigia, São Caetano e Curuçá etc.

A forma da dança parece a dança-de-roda, onde homem e mulher dançam soltos, acompanhando o ritmo da música, sua poesia e o solo. Aos homens não é proibido fazer requebros, fazer misturas ou qualquer tipo de galanteio à dama, podendo levantar o braço, colocá-la nos quadris, estalar os dedos no estilo castanhola ou dar gritinhos tipo “oi, oi, oi”. Mas o destaque maior é dado para momentos especiais, como a Dança do Peru, onde o cavalheiro, no centro de uma grande roda de dançarinos, ao ritmo da música do peru, agacha-se até apanhar o lenço com a boca. Ao apanhar o lenço (troféu) ganha uma prenda da parceira como troféu de campeão.

Na cidade de Vigia, o Carimbó é conhecido como Zimba e o ato de se dizer “vamos zimbar” quer seja em Vigia, ou em qualquer outra localidade do Salgado, significa convidar o outro para dançar o Carimbó. Portanto, tanto o Zimba, como Carimbó, são danças idênticas, com os mesmos elementos, inclusive a técnica do batimento do tambor na sua linha melódica e no som agudo.

 

Pinduca, o artista do Carimbó

Aurino Quirino Gonçalves, o conhecidíssimo Pinduca, carinhosamente chamado Rei do Carimbó, é o responsável pela difusão do ritmo pelo mundo a fora. Não fosse ele, talvez somente parte do Pará conheceria este segmento alegre e alucinante da música. A exemplo do Boi de Parintins, que teve de se valer de instrumentos eletrônicos e artifícios cênicos para ganhar o público mundial, Pinduca popularizou o ritmo com os mesmos ingredientes e ainda motivou ao Carimbó artistas como Eliana Pitman e Roberto Leal.

Ele conta que Eliana Pitman teve contato com o Carimbó, pela primeira vez, em Fortaleza (CE), assistindo à dança em uma barraca de praia ao som de um dos seus discos. A artista achou aquilo tudo “muito estranho” e, interessando-se pela música, entrou em contato com Pinduca. Daí foi um passo para gravar o Carimbó.

Pinduca tem 28 discos gravados em 30 anos de carreira, levando o ritmo, juntamente com o Sirimbó, Siriá e Lambada, para Bolívia, Peru, Colômbia, Angola e Guiana Francesa, onde faz sucesso. Apresen-tou o Carimbó em centenas de shows e em programas de TV como Chacrinha, Raul Gil, Gugu Liberato, Sílvio Santos e outros, sempre como representante da música paraense. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 29)

 
Apolonildo Brito

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