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Angelim, o líder de um sonho que não findou

Projeto de lei no Congresso Nacional propõe a inserção de Eduardo Angelim, líder da Revolta da Cabanagem (1835-1840), no Livro dos Heróis da Pátria. O jovem líder da insurreição contra o Império e estrangeiro sobre a Amazônia destacou-se como um grito dos excluídos contra a estrutura econômica então reinante, na qual as condições de marginalização, pobreza e semiescravidão na Amazônia causticavam índios, mestiços e escravos libertos da região.

Tramitou no Congresso Nacional um projeto de lei propondo a inserção do nome de Eduardo Angelim, líder da Revolta da Cabanagem (1835-1840), no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. A Cabanagem, como os demais levantes ocorridos no período regencial brasileiro, foi uma insurreição contra o poder centralizador do Império e manifestava a oposição ao domínio estrangeiro sobre a Amazônia.

A deputada Socorro Gomes (PCdoB-PA), autora da proposta, destaca que o movimento foi um dos mais importantes levantes de reconhecido caráter popular da história do País, sendo o único em que o povo excluído ocupou o poder efetivamente. Ela caracteriza a Cabanagem como um grito dos excluídos contra a estrutura econômica na qual índios, mestiços e escravos libertos viviam em condições de marginalização, pobreza e semi-escravidão na Amazônia.

Entre os líderes populares que derrubaram as autoridades provinciais e formaram um governo revolucionário destacou-se Eduardo Angelim, que foi o terceiro presidente cabano, depois de Félix Clemente Malcher e Francisco Vinagre. “Eduardo Angelim resistiu até o fim, sendo preso e julgado na capital, ficando gravada na memória dos paraenses a marca de sua coragem e intransigente defesa dos mais humildes”, ressaltou a deputada.

Segundo a parlamentar, Angelim também merece ser lembrado como símbolo da defesa da integridade do território amazônico e da soberania nacional, razão pela qual propôs inseri-lo no Livro dos Heróis da Pátria ao lado de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Plácido de Castro e tantos outros que serão lembrados por combaterem e morrerem para que todos os brasileiros fossem livres em sua pátria soberana.

Eduardo Francisco Nogueira (1814-1882) nasceu em Aracati, Estado do Ceará. Aos 13 anos, fugindo de uma seca que assolou o Nordeste na década de 1820, mudou-se com a família para Belém do Pará, onde aderiu aos ideais cabanos por intermédio do cônego Batista Campos, seu amigo pessoal e principal líder do movimento. Seu apelido Angelim, uma madeira resistente, vale por sua atuação firme na luta revolucionaria que engajou. Com 19 anos, participava ativamente da política reinante, lutando pela autonomia da Província do Grão-Pará, atual Estado do Pará, para que esta se mantivesse separada do Império do Brasil, cujas estruturas políticas monarquistas e planos de governo nada tinham de vantajosos em relação aos dos portugueses recém afastados do poder, prosseguindo no isolamento e marginalização da Amazônia, aliás, visíveis ainda hoje, comparando-se aos grandes centros urbanos do Brasil.

Preso no Acará em 20 de outubro de 1836 em meio ao labirinto aquático da Amazônia, foi conduzido à capital, Belém, pelas tropas do marechal Francisco José Soares Andréa, que o enviou a julgamento no Rio de Janeiro. Angelim seguiu para a ilha de Fernando de Noronha, onde ficou exilado até 1851, quando retornou ao Pará, fixando residência na cidade de Barcarena, onde morreu em 20 de julho de 1882. O cabano foi enterrado na capela do Engenho Madre de Deus, na ilha de Trambioca, em Barcarena, local onde descansam também os restos mortais do famoso cônego Batista Campos, o mais importabte autor intelectual do movimento da Cabanagem.

Revolucionário radical, o terceiro presidente cabano declarou a autonomia política e administrativa da província do Grão-Pará quando retomou o poder e foi aclamado em 28 de agosto de 1835, aos 21 anos. O jovem líder iniciou um governo de bases populares e fiéis ao acordo político que o levou à vitória, quando os rebeldes enfrentavam a sua mais grave crise interna, convergindo todo o poder revolucionário para o jovem líder. Ciente da reação imediata da regência, Angelim tentou alcançar a auto-suficiência do Pará. Criou padarias e açougues, aumentou a produção de borracha e montou uma fábrica de pólvora, além de criar outros empreendimentos públicos. O bloqueio imperial, contudo, impediu que seus produtos fossem comercializados, começando a minar seu governo, agravado pela guerra e por um surto de varíola que castigou violentamente Belém. Acossado pela frota imperial, foi obrigado a fugir em 13 de maio de 1836, sendo preso em outubro do mesmo ano.

Ao fim da Cabanagem, foi beneficiado pela lei de anistia com a condição de residir no Rio de Janeiro por dez anos. Na capital do império, após aplaudir discurso contra o governo na Assembléia Nacional, foi novamente preso e transferido para o presídio de Fernando de Noronha, de onde foi liberto somente em 1851.

A Cabanagem foi uma revolta na qual a população pobre se insurgiu contra a elite política e tomou o poder entre 1835 a 1840, tendo como causa a extrema pobreza em que se encontravam os ribeirinhos e a irrelevância política à qual a província foi relegada após a independência do Brasil. De cunho popular, a revolução também contou com a participação de elementos das camadas média e alta da região, entre os quais se destacam os nomes do padre João Batista Gonçalves Campos e do jornalista Vicente Ferreira Lavor Papagaio. A denominação Cabanagem remete ao tipo de habitação (cabana) da população ribeirinha, constituída por mestiços, escravos libertos e indígenas.

Após a Independência do Brasil, a Província do Grão-Pará mobilizou-se para expulsar as forças reacionárias que pretendiam manter a região como colônia de Portugal. Nessa luta, que se arrastou por vários anos, destacaram-se ainda as figuras dos irmãos Vinagre e do fazendeiro Félix Clemente Malcher.

Em julho de 1831 estourou uma rebelião na guarnição militar de Belém do Pará, tendo Batista Campos sido preso como uma das lideranças. A indignação do povo cresceu e em 1833 já se falava em criar uma federação autônoma. O presidente da província, Bernardo Lobo de Souza, desencadeou uma política repressora, na tentativa de conter os inconformados. O clímax foi atingido em 1834, quando Batista Campos publicou uma carta do bispo do Pará, Romualdo de Sousa Coelho, criticando alguns políticos da província. O cônego foi perseguido e refugiou-se na fazenda de seu amigo Félix Clemente Malcher, onde se uniu aos irmãos Vinagre (Manuel, Francisco Pedro e Antônio) e ao seringueiro e jornalista  Eduardo Angelim, que ali reuniu um contingente de rebeldes para iniciar a reação.

No dia 3 de outubro, contudo, as tropas mataram Manuel Vinagre e prenderam Malcher e outros rebeldes. Batista Campos morreu no último dia daquele ano de causa presumidamente natural. No ano seguinte, em 6 de janeiro de 1835, os cabanos tomaram de assalto o quartel e o palácio do governo de Belém, nomeando Félix Malcher presidente do Grão-Pará.

Em menos de um dia, os cabanos atacaram e conquistaram a cidade de Belém, executando o presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas da Província,  apoderando-se de uma grande quantidade de material bélico. O governo revolucionário não durou por muito tempo, pois o novo presidente, Félix Malcher, tenente-coronel, latifundiário, dono de engenhos de açúcar, era mais identificado com os interesses do grupo dominante derrotado pelos cabanos, sendo por eles deposto em 19 de fevereiro de 1835, porque pretendia manter a província unida ao Império do Brasil.

Félix Malcher também foi executado, tendo seu cadáver arrastado pelas ruas de Belém. Na presidência ficou Francisco Vinagre, que não se manteve fiel aos cabanos e foi responsável pela derrota do movimento, que fez retirada para o interior, onde reorganizaram suas forças e retomaram Belém, após nove dias de batalha.

Com a morte de Antônio Vinagre, Eduardo Angelim assumiu a presidência cabana. Quatro navios de guerra se aproximavam de Belém, prontos para atacar uma cidade tomada pela desordem, fome e varíola. No dia 13 de maio de 1836, o brigadeiro D’Andrea estacionou sua esquadra em frente a cidade e a bombardeou impiedosamente. Os cabanos fugiram pelos igarapés em pequenas canoas, enquanto D’Andrea, julgando que Angelim, mesmo foragido, seria uma ameaça, determinou que seus homens fossem ao seu encalço. Em outubro de 1836, numa tapera, ao lado de sua mulher Maria Luiza, Angelim foi capturado, ficando prisioneiro na fortaleza da Barra até seguir para o Rio de Janeiro. A Cabanagem, porém, não acabou com a prisão de Eduardo Angelim, os cabanos lutaram até 1840 quando foram literalmente chacinados, estimados em 100 mil mortos em toda a Amazônia, inclusive etnias inteiras.

Calcula-se que cerca de 40% de uma população paraense, estimada em 120 mil habitantes, morreram no conflito, além de amazonenses e etnias inteiras, estas praticamente dizimadas pelas tropas imperiais, entre eles, os indios muras, boraris, karipunas e os maués, que foram, quase extintos pelas implacáveis tropas legalistas. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 88)

 
Apolonildo Brito

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