Amazon View!

Matérias Temáticas | Cultura

Guaxenduba: a batalha brasileira decisiva

Não fosse o atrevimento do holandês, do francês e do inglês, a conquista da Amazônia não se daria no século XVII, pois o Tratado de Tordesilhas não foi aceito por estes países, que alegavam “que Adão não deixara testamento, portanto o mundo não poderia ser dividido em duas partes: uma, da Espanha, e, outra, de Portugal”. Assim os franceses aventuraram-se no Maranhão, os ingleses no Amapá e os helvéticos no interior paraense.

O Tratado de Alcaçovas, celebrado entre lusos e espanhóis, em 1479, já predispunha essa divisão. Corrobora com essa assertiva a prisão do comandante holandês Estache Delafosse e de sua tripulação, em 1480, cujo único crime foi ter se aproximado da Costa da Mina, África, sem a devida permissão de Portugal.

Detidos por uma caravela portuguesa e lavados para Setúbal, foram enforcados sem o direito de defesa em meados do mesmo ano.

No século XVI, dois produtos enriqueceram Portugal, por deter o seu monopólio. No primeiro instante, o comércio do pau-brasil, que vicejava desde Cabo Frio, no atual Estado do Rio de Janeiro, até o Rio Grande do Norte, e, no segundo, a produção de açúcar, no mesmo perímetro da costa do Brasil.

Vai daí que a colônia terminava no rio Apodi (do Tupi: altiplano, chapada e planície), hoje Mossoró (do Tupi: vento que rasga).

Foram os holandeses, no alvorecer do século XVII, os primeiros a se estabelecerem na calha do rio Amazonas, instalando-se no rio Xingu, com feitorias, onde plantaram cana-de-açúcar e começaram a produzir essa especiaria em grande escala, pois a cana ali produzida era sumarenta e rendia muito mais que em outras regiões. Para a proteção de suas feitorias, construíram dois fortes – o Orange e o Nassau –, ambos na margem direita do rio Xingu.

Esse fato fez com que a Inglaterra – sócia da Holanda na Companhia das Índias Ocidentais – voltasse seus olhos para a região e o rei Jaime I, em 1613, concedeu cartas-patentes a três de seus súditos: Robert Harcourt, sir Thomas Challoner e John Rovenson, para colonizar e dar prosseguimento ao trabalho de seus antecessores, que já haviam construído em terras guianesas os fortes de Tucujus, entre os rios Jari e Macapá e o Mariocay, mais tarde denominado Gurupá.

Os três ingleses meteram as mãos à obra na colonização com açodamento, visto que o colonizador holandês Jan de Moor, burgomestre de Flessingue, com operosidade os havia precedido na faina de colonizar.

Assim sendo, muito antes dos brasileiros e portuguases pensarem em conquistar o Vale Amazônico, a Inglaterra e a Holanda começaram sua conquista, com uma vantagem: trataram os índios com humanidade, respeitando-os como seres humanos.

Já o francês foi mais ousado. Estimulados por Francisco I, rei da França, que dizia desconhecer a cláusula testamentária de Adão, que excluía dos descobrimentos os demais príncipes cristãos, os marinheiros e piratas de Dieppe lançaram-se aos mares em busca de riquezas e de terras estranhas. Assim é que Villegaignom fundou, nas terras de Araribóia (Rio de Janeiro), a França Antártica. Esse mesmo marinheiro esteve no Canadá, Flórida e Antilhas.

França Equinocial – O regresso de Dieppe e de Charles Des Vaux (o segundo no comando) do caravelão pirata de Jacques Riffault, contando maravilhas da rica feitoria criada pelo bucaneiro, na ilha de Upaon-Açu (do Tupi, grande abastança), ajudado por mais dois flibusteiros, Jean Mocquet e Gerard du Manoir, a regente de França, a rainha Maria de Médicis – durante a minoridade de Luís XIII – resolveu criar ali a França Equinocial.

Para essa empreitada, convocou o mais famoso e atrevido corsário francês da época: Daniel De La Touche. Fê-lo cavalheiro, como Senhor De La Ravardière, designando para acompanhá-lo Nícolas de Harlay, Senhor de Sancy e Barão de Molle Gros-Bois e conselheiro da regente e o Grande Almirante da França, François de Rasilly, o Senhor de Rasilly e Aunelles.

Os mais notáveis nomes apresentaram-se como voluntários pela glória da França: Brichantcau, Hardivilliers, mestre Issac De Rasilly, Claude de Rasilly, Antoine de Charon, Pierre de Auber, La Barre, Deschamps, Cornier, Mothaye, François de Modion e Bernard, portando os brasões de armas e o galhardete de família.

Só partiram após a chegada dos missionários católicos do Convento de Saint’Honoré de Paris. Eram eles: Ives d’Evereux, como superior; Claud d’Abbeville; Arsene de Paris e Ambroise d’Amiens.

No dia 19 de março de 1612, partiram do porto de Cancale, em três barcos: a nau Regente, com 60 canhões, sob o comando do almirante De Rasilly, barco em que viajava Daniel de la Touche; a nau Charlote, com 40 canhões, comandada pelo mestre Issac de Rasilly e o patacho Sainte’Anne, com canhões, pilotada por Claude Rasilly.

Depois de tormentosa travessia, que durou 116 dias, chegaram em Upaon-Açu, dia 26 de julho de 1612, quando saltaram e plantaram uma cruz e deram o nome à ilha, chamando-a de Saint’Anne. Somente no dia 12 de agosto, rezaram a primeira missa e logo em seguida começaram a construir o forte que denominaram São Luís e no dia 8 de setembro de 1612 foi solenemente instalada a França Equinocial e a cidade de São Luís, hoje capital do Estado Maranhão (do Tupi: mbará + nhão – mar que corre rápido).

Reação – O governador geral do Brasil, D. Diogo de Botelho (1602-1608), sabedor dos sucessos ingleses e holandeses e da instalação de piratas franceses no Maranhão, enviou para a Espanha o sargento-mor Diogo de Campos Moreo, em busca de socorro, tendo em vista a ocupação daquelas terras e ainda a ameaça da esquadra holandesa comandada por Paullus Van Carden.

Recebido na Corte de Madri, com reservas, Diogo de Campos viu o rei da Espanha nomear um novo governador para o Brasil, cabendo essa tarefa a D. Diogo de Menezes (1608-1612), com reco-mendação de “investigar e proceder a colonização do Mara-nhão, sem ônus para o Real Erário”.

Mandou Diogo de Campos Moreno, para que da fortaleza do Rio Grande do Norte procurasse melhores informações do que acontecia no Norte da colônia. Dessa tarefa, incumbiu o seu sobrinho Martin Soares Moreno, no posto de capitão-mor do Ceará.

Martin saiu da terra potiguar em maio de 1616 e na passagem pelas terras do Ceará, ajudado pelo índio Jacaúna, fundou o forte Nossa Senhora do Amparo – que deu origem à cidade de Fortaleza; dali, seguiu para o Maranhão onde travou escaramuças com os franceses, incendiando alguns barracões.

Confirmada a instalação dos franceses no Maranhão, começaram os apetrechos da expedição punitiva e, a 22 de julho de 1614, reuniram-se no Rio Grande do Norte cinco caravelões ao comando do brasileiro capitão Jerônimo Albuquerque e mais duzentos homens; Diogo de Campos Moreno, como subcomandante, com cem homens e 274 guerreiros índios, comandados pelo legendário Poti, partindo dali dia 25 de julho; na passagem pelo Ceará, somaram-se à expedição de Martins Soares Moreno mais 50 homens.

Dia 13 de outubro de 1614, lançaram ferros na baía de São José, em águas Timbiras. Nesse mesmo dia, saltou para a História do Pará o alferes Pedro da Mota Teixeira.

Jerônimo de Albuquerque encarregou o capitão Belchior Rangel para com alguns homens sondar o terreno e ver sem ser visto pelos franceses. Rangel escolheu o piloto Sebastião Martins, o alferes Pedro Teixeira e mais dez remeiros. Dois dias depois regressaram.

A ilha de Upaon-Açu (depois Saint’Anne, ou ainda Trindade e hoje São Luís) situa-se em uma baía. Este acidente geográfico tem dois nomes: do lado esquerdo chama-se São Marcos e o do lado direito São José, pois foi na baía de São José, onde existe uma enseada chamada Guaxenduba (do Tupi: sítio das vassouras), que pelos argumentos de Pedro Teixeira foi escolhida para a acantonamento da tropa.

Guaxenduba tem o formato de uma pera. Entrada estreita, rasa e guarnecida de praias, tendo ao fundo um enorme descampado. Naquele tempo cercada de mata fechada por todos os lados. No dia 26 de outubro, a tropa de Jerônimo desembarca no local escolhido. O engenheiro da expedição Francisco de Frias começou a construção do forte quase no meio da mata, no fim do descampado e no dia 28 foi realizada uma missa pelos freis São Cosme d’Anunciação e André Natividade, ocasião em que se batizou o forte Santa Maria. Passando um par de dias, sondagens entre os naturais descobriram.

que os franceses iriam atacar.

Diogo de Campos foi à presença de Jerônimo de Albuquerque que lhe pediu: – Comandante! Peço-lhe permissão para guarnecer os cinco barcos e dar combate aos franceses nas águas.

Jerônimo respondeu:

– Não vim até aqui defender cinco tábuas podres portuguesas e sim as terras brasileiras.

Aí então, o senhor de Ravardière, orgulhoso de seu poderoso efetivo, cometeu o erro que lhe foi fatal. Enviou a Jerônimo de Albuquerque um ultimato, dando-lhe quatro horas para se defender.

Jerônimo resolveu enfrentá-lo. Dividiu suas forças em três facções. Uma sob seu comando, outra sob as ordens de Diogo de Campos, 15 homens com Pedro Teixeira e Pedro da Costa Favella e os 60 doentes ao comando de Martin Soares Moreno guarneceriam o forte e teriam a honra de disparar o primeiro tiro.

Plano simples e desesperado. Ele, o comandante, atacaria de dentro do mato pelo lado esquerdo. Diogo, atacaria pelo flanco direito. Pedro Teixeira e Pedro da Costa Favella destroçariam com tiros de bombadas as canoas que trouxeram os franceses para a terra e Martin Soares Moreno, às 12 horas, enquadraria a tropa inimiga. O prazo do ultimato terminaria às 12 horas. E em ponto, os canhões de Santa Maria desabaram chumbo sobre o inimigo e os homens de Jerônimo e Diogo, dentro do mato, como se caçassem pato ao meio-dia, matavam os atacantes aos mangotes. Enquanto isso, Teixeira e Favella com tiros certeiros destroçavam as canoas francesas.

Da ponte de comando da Regente, Daniel De La Touche assistia impotente ao massacre de seus homens, até que às 16 horas, comandou a retirada. Os remanescentes de sua tropa só poderiam alcançar a nado a esquerda francesa. Foi o que fizeram. Aí, o holocausto foi dantesco. Guaxenduba, por muito tempo foi viveiro natural de tubarões e os que se salvaram das balas morreram estraçalhados pelos peixes.

O senhor De La Ravardière assistiu a tudo completamente arrasado. A derrota francesa fora completa.

Estava aberto o portal para a fundação da cidade de Santa Maria da Graça de Belém do Grão Pará e a conquista do rio Amazonas.

Mas, isso é outra história... (José Valente – Matéria publicada na revista Amazon View – Edição 28)

 
Apolonildo Brito

OUTRAS

Parceiros