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Matérias Temáticas | Cultura

Botos reservaram surpresa na Festa do Çairé/98

A tradicional Festa do Çairé deste ano traz grandes novidades, principalmente na apresentação da disputa entre os Botos Tucuxi e Cor de Rosa. Em 1997, o conhecido folclore de Alter do Chão mudou de data e grafia, ganhando ainda um espaço de eventos destinado a shows artísticos e culturais, além do resgate do folguedo do Boto, que agora ganha corpo, beleza, toadas e galera, para disputar o título maior do Çairé/98.

Com o apoio que o Çairé está recebendo e o desenvolvimento do folclore do Boto, sem mutilar o principal folclore da vila balneária que, paralelamente, mantém à risca o ritual que herdaram dos índios Boraris, a festividade promete se transformar, em breve, no maior evento do Norte e Nordeste brasileiros, quiçá de todo o país, pois Santarém ainda oferece praias paradisíacas, o lindo azul-cristalino das águas do rio Tapajós, boa infra-estrutura hoteleira e outros atrativos, além de exímios artesãos e da musicalidade mocoronga, que garantem, no futuro,  a grandiosidade do espetáculo e a beleza das toadas.

O Çairé – Todos os anos milhares de pessoas chegam à paradisíaca Alter do Chão, a cerca de 30km da cidade de Santarém, para participar da festa do Çairé. São três dias de muita música, dança e rituais resultantes do entrelaçamento social e cultural entre os colonizadores portugueses e índios da região do Tapajós, manifestação que mistura elementos religiosos e profanos, que começa com o hasteamento de dois mastros enfeitados, seguido de ritual religioso e danças folclóricas comandadas pelos moradores da vila. No terceiro e último dia ocorrem  a “varrição da festa”, a derrubada dos mastros, do marabaixo, quebra da macaxeira da “cecuiara” (almoço de confraternização).

A programação termina à noite com a festa dos barraqueiros.

O Çairé é a festividade mais antiga do folclore religioso do Oeste paraense, com mais de trezentos anos de tradição. Antes, celebrada na segunda semana de junho, seus organizadores decidiram transferi-la para setembro, período mais favorável ao desfrute das famosas praias de Alter do Chão, quando estão bem expostas e bonitas.

O símbolo do Çairé é “um semicírculo de madeira (revestido em algodão) que contém o relato bíblico do dilúvio: o grande arco representa a Arca de Noé. Os espelhos, a luz do dia; os doces e as frutas, a abundância de alimentos existentes na arca; o algodão e o tamborim, a espuma e o ruído das ondas durante os 40 dias de dilúvio. Os três semicírculos representam a Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), e as três cruzes do Calvário, com Jesus crucificado entre os ladrões”, descreve Hélcio Amaral, coordenador municipal de Cultura de Santarém.

 

Novos Rumos

Desde que assumiu a prefeitura, em 1997, o prefeito Joaquim de Lira Maia não apenas decidiu resgatar a rica cultura santarena como ainda valorizá-la e dar-lhe dimensão no cenário nacional, aproveitando o grande potencial paisagístico, artístico e cultural do Município. A conjugação desses três elementos logo tornou-se o trunfo básico do planejamento de eventos  municipais, responsável pelo atual sucesso nas áreas culturais e turísticas. O Çairé, obviamente, não poderia ficar de fora como principal evento folclórico de Santarém.

A simplicidade do seu ritual catequético, entretanto, criou a primeira barreira, até mesmo porque a população de Alter do Chão o considera exclusivo e intocável. Foi possível conciliar a mudança de grafia e data, mas alterar o folclore, mesmo que para dar-lhe mais colorido e grandiosidade,  jamais.

 

Onda do Boto

A solução veio em realizar dois eventos num só período: o tradicional Çairé executado pelos próprios moradores da vila balneária e, paralelamente, como complementação, resgatar o “cordão” junino do Boto, enriquecido com coreografias, alegorias, fantasias e toadas, criadas pelos artistas e artesãos da região. O elo de ligação exigido, para dar unidade à festividade, é o ritual obrigatório no qual o colonizador português entrega o símbolo do Çairé às tribos indígenas do Boto.

A organização é conjunta entre a Prefeitura de Santarém, através de suas  Coordenadorias, e a comunidade de Alter do Chão.

O Boto já nasceu com a pretensão de ser grande e disputar a primazia dentre os maiores eventos culturais brasileiros. O primeiro passo foi dar início à construção de um anfiteatro para realizar eventos em Alter do Chão, no qual o Boto possa atuar e shows artísticos e culturais aconteçam. O ano passado inaugurou a primeira etapa do anfiteatro (também conhecido por Çairódromo) e os Botos foram apresentados sem disputa.

Supervisionado pelas coordenadorias de Cultura (Hélcio Amaral) e Turismo (Emanuel Júlio), o evento deste ano  já conta com o lançamento de um CD, de Luís Alberto e Grupo Borari, apresentando belas toadas que prometem animar a galera, enquanto que os artistas plásticos Laurimar Leal e Renato Sussuarana dão suporte cultural ao folclore, apoiando a comunidade local na organização dos dois grupos.

O folclore – A fauna paraense sempre foi festejada pela arte popular da região e inspirou os folguedos  juninos. “Cordões” de pássaros e bichos alegraram e ainda alegram gerações nas quadras do mês das fogueiras. Dentre os bichos, o folguedo do Boto se destaca pelo fascínio que suas lendas encarnam, muitas delas eróticas, quando ele vira homem e emprenha as cunhantãs, ou tem suas genitálias transformadas em puçanga para atrair o seu amado. São muitas, aliás, as lendas do Boto, que certamente serão contadas nos enredos deste e dos próximos Çairés.

Cada Boto leva um enredo por ano, desempenhando uma trama (teatral), com rituais trazendo lendas e personagem do folclore regional, inseridas no próprio contexto da “brincadeira”. A trama tem ideologia ecológica e celebra, como no Boi-bumbá, a morte e  ressurreição do principal personagem, herança da catequese jesuíta. No caso do Boto, na terceira parte do ritual ele é arpoado e morto pelo pescador porque emprenhou Cunhantã-borari, filha da poderosa Principaleza, a senhora do Lago Verde. Mas logo é ressuscitado pelos pajés da tribo, depois do cerimonial da Mufama (clareira aberta na floresta). A apoteose acontece com a ressurreição do Boto. É o final da festa.

Os enredos são divididos em três partes. O Tucuxi apresenta este ano a chegada do branco na região, com troca de prendas entre eles e indígenas e a entrega do símbolo do Çairé pelos jesuítas; desfile de lendas regionais, inclusive a história do Boto; e apoteose final, que é comum aos dois “cordões”.

O Boto Cor de Rosa narra a chegada do primeiro homem à Amazônia, antes de Cabral descobrir o Brasil. O navegador espanhol Pedro Pacheco e seu primeiro contato com o Boto na foz do rio Amazonas.

Personagens do Boto – O critério de julgamento do folclore baseia-se em pontuações em 22 itens obrigatórios, dentre eles destaca-se o Boto; a Principaleza do Lago Verde,  mulher de maior poder na tribo (sistema matriarcal instituído pelos jesuítas logo que chegaram à região), é a mulher do tuxaua. Maria Maçara foi no passado uma famosa Principaleza de Santarém;

a Rainha do Çairé; a Cunhantã-borari, bela  filha da Principaleza (que equivale à Sinhazinha da fazenda do Boi-bumbá); a Porta-Estandarte; os Pescadores; as Tribos Índígenas; o Pajé. Além desses itens contam ponto os destaques de tuxauas e índígenas; as alegorias de lendas;  a coreografia; a cronometragem; o apresentador do Boto; e o puxador de toadas, dentre outros.

Participação – Diferente do tradicional ritual do Çairé, no qual só a comunidade de Alter do Chão participa, no Boto qualquer pessoa pode brincar. Basta escolher um dos “cordões”, comprar a  fantasia e se divertir a valer, mergulhando em nossas lendas ao som das toadas caboclas da Festa do Çairé. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 17)

 
Apolonildo Brito

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