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Arte joalheira brilha no Pará Expojóia

A III Pará Expojóia – Amazônia Design, realizada em Belém do Pará, chamou a atenção para a beleza das joias produzidas com minérios e gemas da região, mostrando a criatividade da joalheira regional. Mais de 30 expositores participaram do evento, cuja tendência foi biojóias feitas de sementes e fibras vegetais, compondo lindos colares, brincos, pulseiras, anéis, etc.. A semente de jarina, conhecida como o marfim-vegetal, teve destaque especial.

A III Pará Expojóia – Amazônia Design, realizada na Casa do Artesão, Espaço São José Liberto, em Belém do Pará, chamou a atenção para a beleza das joias produzidas com minérios e gemas da região amazônica, mostrando a marca da criatividade da cadeia produtiva joalheira regional. O evento foi promovido pela Associação São José Liberto, com patrocínio do Sebrae Pará, Governo do Estado, Federação das Indústrias do Pará/Centro internacional de Negócios e Ministério do Turismo, por meio do Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM).

Mais de 30 expositores do setor participaram da III Expojóia, inclusive dos municípios atendidos pelo Programa de Desenvolvimento do Setor de Gemas e Jóias, além de designers, ourives, lapidários, artesãos e demais produtores do Estado, em especial de Belém, Itaituba, Parauapebas e Floresta do Araguaia. Durante sete dias, 25 designers participaram de workshops, interagindo-se com as tendências do mercado joalheiro e com a inspiração dos temas e produtos regionais.

O desfile da coleção “Jóias do Pará 2006/2007”, assinado pela coreógrafa Ana Unger, apresentou belíssimas jóias feitas no Pólo Joalheiro do Pará, destacando o Teatro da Paz como fonte de inspiração. Seus lustres, fachada, escadaria, detalhes do rico e requintado interior do teatro (verdadeira jóia do acervo arquitetônico do Estado) inspiraram pingentes, colares, anéis, braceletes e brincos, que foram mostrados no desfile de abertura e encerramento da feira.

Arte Joalheira – A III Pará Expojóia – Amazônia Design trouxe à baila não apenas o valor material e artístico das jóias, mas, sobretudo, o poder que este tipo de artefato exerce sobre a civilização, sabendo-se que ele nasceu junto com a vaidade humana, conforme registro histórico datado há mais de cinco mil anos antes de Cristo, quando as peças eram produzidas com pedras, dentes, conchas e ossos. Depois vieram as primeiras jóias de ouro e prata, em lâminas finas, ornamentadas com pedras e figuras decorativas.

De todos os metais, apenas o ouro reúne beleza, brilho, e maleabilidade, podendo ser transformado em adornos preciosos e ter aplicações diversas, como na indústria eletrônica e aeroespacial, na medicina e na odontologia. O ouro é nobre em todos os sentidos, mas é mole e necessita de outros componentes para poder ser transformado em jóia. A liga é responsável pela coloração do ouro, podendo variar (amarelo, vermelho e branco) dependendo da quantidade de cada um dos elementos que a compõem. O ouro amarelo é formado pela mistura de ouro puro, prata e cobre; o branco é conseguido com a mistura de ouro puro, zinco e cobre, ou ainda por ouro puro, níquel ou paládio; enquanto o vermelho se forma pela mistura de ouro puro, cobre, prata e zinco.

Foi na Mesopotâmia, há três mil anos antes de Cristo, que esse metal nobre ganhou maior importância e novos componentes que foram incorporados à arte joalheira e que evoluiu ainda mais na Idade do Ferro (1.500 a.C.), período em que teria nascido a metalurgia e, conseqüentemente, a fundição. A manufatura dos objetos foi transmitida a todas as civilizações do Mediterrâneo Ocidental, com realce para a egípcia, cuja arte utilizou-se magistralmente do ouro, da prata e das pedras preciosas. As jóias ali produzidas eram utilizadas pela corte e possuíam a função de talismãs. Os templos e túmulos também eram decorados com pedras preciosas e objetos de ouro.

Os gregos, na civilização helenística (séculos III, II e I a.C.), foram hábeis em modelar figuras em metais preciosos, compondo brincos, colares e braceletes. Os romanos utilizavam esmeraldas, safiras e pérolas para decorar jóias de ouro ou de outros metais. As civilizações dos Astecas e Maias conheciam, trabalhavam e valorizavam o ouro do continente americano. Na Idade Média, este metal tinha um papel muito importante na política e na cultura como mostra a frenética procura dos alquimistas pela “Pedra Filosofal” que transformaria qualquer metal em ouro, e que muito contribuiu, para o desenvolvimento da Química, Medicina e da Metalurgia. Nesse período, a profissão de joalheiro se desenvolveu nos grandes centros europeus, como em Paris, Colônia e Veneza, onde o esmalte era a principal técnica de decoração e as gemas ganharam garras engastadas em metais preciosos.

A escola neoclássica buscou inspiração nos estilos grego e romano, dando simplicidade à forma das jóias, bem em consonância ao período que atravessava a humanidade com o iluminismo e com a eclosão da Revolução Francesa. Os joalheiros encontraram temas da Antigüidade clássica e da Idade Média para sua criação. A arte joalheira do século XIX inicia-se com as grandiosas jóias criadas para a corte do Imperador Napoleão I, que serviram de padrão para toda a Europa e Américas, até 1815. As jóias chamados parures, compostas de tiaras, brincos, gargantilhas ou colares, e braceletes fantasticamente adornados com gemas (diamante, esmeralda, safira, rubi e pérola), cujo esplendor sobressaía mais do que o próprio design das peças, foram marcas históricas desse período que chegou ao Brasil com a Corte portuguesa (1808), trazendo a reboque vários artistas, incluindo renomados ourives.

A cidade do Rio de Janeiro, há tempos sede da Colônia, logo absorveu os costumes da Corte e os serviços dos ourives, que adaptaram o design francês que continuava em moda, ao design mais rebuscado do estilo Barroco português, posteriormente modificado pelo movimento de emancipação do País, adquirindo características do Romantismo e ressaltando temas nacionais como a flora, a fauna e indígena, esta distinta de todas as outras. A coroa de D.Pedro I foi confeccionada pelo ourives fluminense Manuel Inácio de Loiola e as jóias da moda eram decoradas com gemas que lembram as cores escolhidas para a nova bandeira brasileira.

Com a descoberta das minas de diamantes na África do Sul (1860), as joalherias se dedicaram ao brilho desta gema preciosa, em detrimento do seu design, tendência quebrada, décadas depois, pelas grifes Cartier e Boucheron, que passaram a produzir jóias delicadas, em contraponto às cobertas de diamantes. A Belle Époque (1900) trouxe a Art Nouveau e designs inspirados na natureza para a joalheria, executados em marfins e chifres de animais, além das primeiras incursões em sementes vegetais. A arquiteta Julieta Pedrosa afirma que a paz de 1918 impôs à joalheria o estilo Art Decó, associado ao design cubista, abstracionista e à arquitetura da Bauhaus, minimizado na década de 30 pelos temas figurativos e florais reintroduzidos por Cartier. A partir da 2ª Guerra Mundial, a arte joalheira assumiu uma clientela que não comprava as jóias apenas para o uso, mas para investimento, com ênfase maior na qualidade das gemas, facetadas e montadas com design de acordo com a moda. A partir da segunda metade do século XX, novas idéias, conceitos e materiais passaram a ser utilizados pelos designers, como titânio, nióbio e diferentes tipos de plásticos e papéis. Segundo Julieta, a joalheria, hoje, está atualmente voltada para o design, criativa e identificada com o mercado consumidor.

A premiada designer Virginia Moraes é de opinião que as joias contemporâneas surgiram no final dos anos 60 com a proposta de rompimento com a joalheria moderna que vigorava desde a década de 20. A nova proposta ia de encontro à joia industrialmente projetada, que priorizava a beleza das gemas e o brilho dos metais preciosos. Outros materiais também foram incorporados à jóia, como o aço, o alumínio, o plástico, a borracha etc.. Para a designer, o Brasil dos anos 70 teve poucos e bons artistas joalheiros que aderiram à nova tendência e ousaram em suas criações, fazendo com que suas jóias fossem usadas por artistas e pessoas formadores de opinião.

Por outro lado, o pós-guerra e a guerra-fria também trouxeram novos materiais e conceitos que foram incorporados aos designs das jóias. O Brasil, que há muito sofria influência hollywoodiana, mesclada pela babel cultural arabesca-oriental e européia, buscou matérias-primas e inspiração nos produtos e na cultura nacional a fim de criar sua própria joalheria, com características tipicamente brasileiras. Em 1945, Hans Stern, aos 25 anos, fundou uma empresa que hoje leva seu nome e inovou o ramo da joalheria no Brasil, como o primeiro a explorar pedras de cor originárias do País, como água-marinha, topázio, ametista e turmalina, riquezas minerais pouco conhecidas até então, quando ganharam status de pedra preciosa.

Atualmente, a tendência são as biojóias feitas de sementes e fibras vegetais que deixaram a floresta para compor colares, brincos, pulseiras, anéis, entre outras peças, que são vendidas em todo o País e no exterior. A beleza delas justifica o crescimento da demanda, a ponto de gerar preocupação com a extinção de espécies da floresta amazônica. Não se sabe ao certo, por exemplo, quantas toneladas por ano de sementes são coletadas. A semente de jarina, por exemplo, conhecida como o marfim-vegetal, é a preferida do mercado, demora quatro anos para germinar e só existe no Estado do Amazonas.

Integrantes do grupo de trabalho composto pelo Sebrae (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins), da Embrapa, do Museu Goeldi, do Museu São José Liberto, da Secretaria Executiva de Trabalho e Promoção Social do Pará (Seteps), IBGE e do Centro de Educação Tecnológico e de Negócios de Rondônia (Cetene), procura elaborar a implementação de políticas públicas e certificação de sementes e produtos florestais nãomadeireiros em todo o País.

O Museu Goeldi, a propósito, estuda 486 qualidades de sementes na região amazônica, onde deve ter cerca de 170 mil variedades de plantas. Nos últimos 10 anos, a produção joalheira no Brasil deu um salto significativo, movimentando US$ 15 bilhões em venda de jóias para o exterior, principalmente para a Índia, Estados Unidos, China, Turquia e Arábia Saudita. O grande desafio do País é exportar menos gemas e metais preciosos e passar a exportar mais jóias. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 89)

 
Apolonildo Brito

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