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Madeira-Mamoré: a epopeia de integração regional

A construção da estrada-de-Ferro Madeira-Mamoré constituiu secular aspiração dos povos do Brasil e da Bolívia como meio de ligar os dois países ao Oceano Atlântico e, por consequência, ao comércio internacional e à civilização o extremo altiplano e as bacias navegáveis dos rios Guaporé, Mamoré e Beni, estas separadas da calha fluvial de navegação franca do Madeira e Amazonas.

Transpor as 19 cachoeiras que iniciam em Guajará-Mirim e terminam em Santo Antônio, sempre foi aspiração dos dois países irmãos, aliás, uma verdadeira imposição histórica e geográfica, que teve impulso decisivo com a campanha desencadeada pelo oficial da Armada americana, Maury, em meados de século passado, tendente a abrir o Amazonas e seus tributários ao comércio de todas as nações. No caso particular do rio Madeira, para aqui foi mandada a missão do tenente Gibbon, também da Marinha estadunidense, que percorreu o trecho encachoeirado de Guajará-Mirim e Santo Antônio, concluindo pela viabilidade da construção da ferrovia e enfatizando os imensos benefícios econômicos, o que era lícito esperar da empreitada, tendo em vista especialmente as riquezas minerais e florestais da região.

Após as tentativas fracassadas levadas a efeito pelo coronel Churchill, de 1872 a 1878, a estrada foi finalmente construída no período 1907-1912, sob os auspícios do governo brasileiro, que a isto se obrigara pelas cláusulas do Tratado de Petrópolis, em 1903, pactuado com a Bolívia e constituindo uma das reparações oferecidas àquele país pela perda do Território do Acre.

O grande executor da obra foi o empresário Percifal Farquhar, mediante concessões que lhe foram feitas pelo governo brasileiro, para isto tendo fundado a Madeira-Mamoré Railway, sendo encarregada da construção propriamente dita a empresa May, Jeckyll & Randolph.

O empreendimento comoveu o Brasil e o mundo, tendo em vista os lances épicos de que se revestiu, não só pelas dificuldades técnicas da construção em terreno difícil, mas especialmente pelas condições sanitárias da região, de que resultou a morte de milhares de operários e de técnicos, daí advindo a denominação ‘‘Ferrovia do Diabo’’, que contagiou gerações de brasileiros e produziu inúmeras obras escritas sobre o assunto, tanto no terreno técnico quanto no da ficção.

Mais tarde, em 1931, a ferrovia foi nacionalizada sob a inspiração de Aluízio Pinheiro Ferreira, militar que já se encontrava na região, a serviço da Comissão Rondon, cujos trabalhos tinham alcançado, a este tempo, tal projeção econômica e social que transformaram a região em verdadeiro enclave entre os Estados do Amazonas e do Mato Grosso, numa região com vida própria. Isto não escapou à visão de estadista de Aluízio Pinheiro Ferreira, que não teve dificuldades em convencer o presidente Getúlio Vargas a criar o então Território Federal do Guaporé, depois Território Federal de Rondônia e atual Estado do mesmo nome.

A estrada-de-Ferro Madeira-Mamoré foi, verdadeiramente, a célula-mãe de que resultou, em última instância, a criação do Estado de Rondônia, sendo espécie de espinha dorsal em torno da qual foi moldada a extensão geográfica de Rondônia.

A história da ferrovia constituiu a história do próprio Estado de Rondônia, havendo consenso entre os historiadores de que tudo que se passou nela constituiu a nossa própria proto-história e somente após a construção é que ingressamos na era da civilização, inclusive com povoamento e a criação do município de Porto Velho, sua futura capital e centro irradiador político, comercial e cultural.

Atualmente, é utilizado um trecho de sete quilômetros da Madeira-Mamoré, entre Porto Velho e Cachoeira de Santo Antônio, marco da fundação da cidade de Porto Velho. A velha ‘‘Maria Fumaça’’, como carinhosamente é conhecida por todos, sai aos sábados, domingos e feriados, levando centenas de passageiros a uma verdadeira viagem de volta ao passado. O passeio turístico dura aproximadamente uma hora. O trecho foi restaurado e inaugurado no dia 5 de maio de 1981, por iniciativa do governador Jorge Teixeira de Oliveira. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 21)

 
Apolonildo Brito

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