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Curiaú mantém tradições africanas

Olhar manso e desconfiado, os moradores da Área de Preservação Ambiental do Curiaú lutam para preservar as belezas naturais da região e a memória dos antigos escravos trazidos no século XVIII, para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Formaram pequenos núcleos familiares, que originaram a vila do Curiaú e demais comunidades existentes na área, encontrando na comemoração de datas religiosas uma maneira de preservar a herança africana.

Festeiras e esculpidas pelo sincretismo religioso, essas comunidades reúnem em suas comemorações elementos profanos – como o Batuque e o Marabaixo – e religiosos, como as Ladainhas em Latim e a Folia. Uma mostra desse sincretismo pode ser vista na tradicional Festa de São Joaquim, escolhido pelos antigos escravos como padroeiro do Curiaú. Durante quase dez dias – de 9 a 19 de agosto – as comuniudades reúnem-se para cantar sob a benção católica, as Ladainhas, caindo, pouco depois, no ritmo quente dos macacos – tambores feitos do tronco do macacaueiro e couro de animais silvestres. A manutenção dessa festa, bem como de outros elementos que fazem a história e as tradições de sua gente, é hoje a preocupação  dos moradores mais velhos das comunidades da APA do rio Curiaú.

A Área de Proteção Ambiental (APA) do rio Curiaú tem como principal objetivo a proteção e conservação dos recursos naturais e ambientais da região. Para isso investe na idéia de uma convivência pacífica e inteligente entre a comunidade local e as belezas naturais que a cercam. Criada através de Decreto Estadual em 1992 a APA tem uma área geográfica de 23 mil hectares, abrangendo importantes ecossistemas da região como: florestas, campos de várzeas e cerrado.

Residem atualmente na Área de Proteção Ambiental do rio Curiaú cerca de 1.500 pessoas, divididas em quatro comunidades – Curiaú de Dentro, Curiaú de Fora, Casa Grande e Curralinho. Para essas pessoas a preservação da beleza local é uma questão também de sobrevivência. É preciso manter os peixes, as garças e a beleza do lugar.

O negro está presente na história do Amapá desde o começo da ocupação, em meados do século XVIII. Os primeiros chegaram a região em 1751, trazidos como escravos por famílias do Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Maranhão, que vieram à povoar Macapá. Em seguida começaram a ser importados da Guiné Portuguesa, principalmente para a cultura do arroz. O maior contingente veio a partir de 1765 para a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Em abril daquele ano, o governo do então Grão-Pará, mantinha 177 negros escravos trabalhando no forte. Alguns morreram de doenças como o sarampo e a malária, e por acidente de trabalho.

Outros conseguiram fugir, aventurando-se pelo lago do Curiaú. Nesta região, o português Manoel Antônio Miranda, mantinha sua propriedade na chamada Lagoa de Fora, e não se importou de acolher escravos. Também os franceses que procuravam fixar-se à margem direita do rio Araguary estimularam a formação de agregados negros. Em 1862, quando a população de Macapá era de 2.780 habitantes, os negros escravos somavam 722, cerca de 25% da população local. A comunidade negra sempre contribuiu para a formação cultural, econômica, social e política do Amapá. O Curiaú é um exemplo dessa contribuição.

Essa é uma novidade que promete mudanças significativas na vida das comunidades da APA do Rio Curiaú. Habituadas a uma economia de subsistência – baseada na pesca e na agricultura – e na invasão de banhistas despreocupados com a preservação da beleza local, os moradores esperam encontrar nos projetos de ecoturismo uma saída inteligente para a geração de maior receita, e ao mesmo tempo, a preservação de suas riquezas paisagísticas.

O potencial turístico da área é promissor e representa uma alternativa econômica para as comunidades ali existentes. Está prevista a implantação de um plano piloto com a exploração de trilhas ecológicas, passeios de barco e visitação à lugares como o Poço Tapera – caminho feito pelos antigos escravos em sua fuga.

O Curiaú se beneficiará também do PPG7 ( Programa Piloto para Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras) , que prevê para o lugar a recuperação das áreas de capoeira – abandonadas após o uso e esgotamento da terra – para a fruticultura, em especial da região. A pedido da própria comunidade, o Curiaú deverá receber também um criatório de peixes.  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 22)

 
Apolonildo Brito

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