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Bené defende Alfabetização ecológica

O renomado historiador e escritor Benedicto Monteiro, autor da tetralogia – Verde Vagomundo, O Minossauro, A Terceira Margem e Aquele Um, além de várias outras obras antológicas, alerta em seu livro mais recente, Alfabetização Ecológica, que a Amazônia já está internacionalizada com a presença de ONGs e através de formas intelectuais sob um véu de aparências e falsos valores econômicos e ecológicos chamados “desenvolvimento sustentável”.

Embora tenha suas raízes na cidade paraense de Alenquer, o renomado historiador e escritor Benedicto Monteiro, 81 anos, faz questão de ser reconhecido como um escritor amazônico, o que aliás está bem definido em sua famosa tetralogia – Verde Vagomundo, O Minossauro, A Terceira Margem e Aquele Um. Além dessa coletânea, escreveu os livros Carro dos Milagres, Cancioneiro de Dalcídio, Como se Faz um Guerrilheiro, Maria de Todos os Rios e A Poesia do Texto, além de Direito Agrário e Processo Fundiário, estes fundamentados em sua experiência como advogado e criador e titular da Defensoria Pública e secretário de Terras do Estado do Pará. Publicou, também, Bandeira Branca, seu primeiro livro, de poemas, em 1945, seqüenciado pelo Discurso sobre a Corda, mais recentemente. Bené é autor do antológico Canto do Lavrador e do hino do Internacional Clube de Alenquer, obras eivadas de apelos ideológicos, clamando pela Reforma Agrária e por igualdade social. Escreveu, também, a história das Mesorregiões do Estado do Pará. Há, ainda, obras de destaque como O Pensar Ecológico, que trata de questões ambientais, Questões Sobre o Desenvolvimento da Amazônia e Idéias sobre a Alfabetização Ecológica. Mais recentemente, realizou importante trabalho que resgata a História do Pará, publicada em 15 fascículos encartados no jornal O Liberal e já tem pronto, “Belém, segundo Miguel dos Santos Prazeres”. Benedicto Monteiro não é apenas mais um escritor da Amazônia, é um pensador de larga experiência e profunda sensibilidade regional, conseguindo traduzir em suas obras o contextual sobre a realidade amazônica. Suas idéias sempre estiveram avançadas no tempo e no espaço, razão pela qual foi caçado, preso e cassado pelo golpe militar de 64, retornando à vida política após a Anistia. Hoje, dedica-se exclusivamente à vida literária. Com essa credencial e talento, Benedicto conseguiu o passaporte para sua reintegração na sociedade paraense e ingresso na Academia Paraense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Academia Paraense de Jornalismo e Academia Brasileira Agrária.

A obra do escritor Benedicto Monteiro é reconhecida e prestigiada não só no Brasil, mas sobretudo no Exterior. Na Europa, em países como Portugal, Holanda, Itália e Alemanha ( Berlim e Colonia), suas obras são traduzidas e servem como objeto de teses de mestrado e doutorado e também de monografias e estudos acadêmicos. Ele é considerado na Alemanha um dos representantes da literatura brasileira no estilo de narrativa, ao lado dos renomados escritores Guimarães Rosa e França Junior. Nos Estados Unidos da América, sua obra literária é objeto de estudo acadêmico na San Diego State University (Califórnia). A seguir, entrevista com o consagrado escritor alenquerense.

Amazon View – O senhor que vem de uma longa estrada de político, de advogado e de escritor, qual a sua atividade atual?

BenedictoLer, escrever e lutar para que a Amazônia seja reconhecida. Não apenas a região, mas o povo que mora nela, os caboclos, os mestiços, como também as atividades aqui desenvolvidas pelo Museu Goeldi, Inpa, Embrapa e Evandro Chagas, que são instituições científicas com um longo trabalho reconhecido pela comunidade científica, mas desconhecido das pessoas que deviam conhecê-lo.  A Embrapa, por exemplo, que tem um manancial imenso de pesquisas, é praticamente desconhecida, como todas as nossas instituições científicas, aliás. O próprio Museu Paraense Emílio Goeldi é desconhecido por parlamentares, governantes, classe política e até por acadêmicos e professores.

Amazon View – E o que está faltando para reverter essa situação?

BenedictoBasicamente conhecimento da Região. Eu acho que está faltando uma alfabetização ecológica. Isto eu falo no livro que acabei de lançar. Falta uma consciência ecológica, mais nas elites do que no próprio povo, pois este tem uma noção geral da ecologia. Nas elites, em todas as elites, o que eles têm é noção de defesa do meio ambiente, mas ninguém pode defender o meio ambiente sem conhecer a ecologia.

Amazon View – Quer dizer que assim não dá para defender a Amazônia...

BenedictoÉ verdade. A Amazônia é ímpar no mundo; não existe coisa parecida com esta região. Além das imensas riquezas que já estão sendo exploradas e as que ainda não foram exploradas, não existe nada parecido no mundo; não é no Brasil nem na América, é no mundo, mesmo. Não existe nada parecido porque a Amazônia é todo um complexo fluvial e as pessoas não têm noção nem quais são os nossos principais rios. O rio Amazonas, por exemplo, não tem estudo sobre ele; o Tapajós e o Tocantins são imensas bacias hidrográficas. No Pará, principalmente, porque já fez estudo, já se sabe que ele é um trançado de rios e igarapés; não tem nada que não seja água. Mas não entenderam isso. Foi o que aconteceu em Belém: em vez de aproveitar os igarapés para o transporte e a própria beleza da cidade, aterraram, transformando em doca; pintaram o sete...

Amazon View – O Governo do Amazonas está com um projeto de igarapés. Estão restaurando rede de igarapés por dentro da cidade de Manaus...

BenedictoIsso é fantástico. Eu preciso falar com esse governador...

Amazon View – O senhor acha que falta consciência ou conhecimento na Amazônia?

BenedictoConhecimento. Há um desconhecimento, uma ignorância total. Se formos perguntar para os líderes, para a elite, sobre ecologia, eles não sabem nada. Isto no Pará e no Amazonas; noutros estados é muito pior, porque as elites de lá já não são mais amazônidas, são de fora da Amazônia.

Amazon View – Então, de acordo com a sua observação, a ecologia deve ser ensinada na escola...

BenedictoDeve. Acho até que deveria ter uma disciplina chamada Amazônia. Até na Geografia, esta Geografia banal que se aprende, ninguém sabe o que é o Tapajós, o Tocantins, o rio Negro, Jari, Madeira. Acho que deveria ter uma Geografia própria aqui da região, patrocinada para os alunos. A História da Amazônia também deve ser disciplina obrigatória, assim como a de cada Estado da Região.

Amazon View – Falar em História do Pará, o senhor não conseguiu publicar essa história, apoiado pelo governo local...

BenedictoCorreto. Eu passei quatro anos estudando a História do Pará, percorrendo arquivos daqui de Belém, do Rio, São Paulo, de Lisboa, para poder escrever. Quando eu pretendi publicar, já tinha um francês escrevendo a História e não me deixaram publicar. Depois eu passei mais quatro anos para publicar e não consegui no governo. Foi preciso que O Liberal, percebendo o interesse editorial, publicasse em fascículos. E agora espero que a História do Pará saia, através da Secretaria de Educação com apoio da professora Rosa Cunha.

Amazon View – Qual a importância de Belém para a Amazônia?

BenedictoBelém é a cidade mais importante da História da Amazônia. Tudo na região começou em Belém; tudo que existe na Amazônia teve início em Belém.

Amazon View – O senhor teve uma vida política atribulada, chegou a ser preso pelo regime de 64...

BenedictoO quase ano que eu passei na cadeia foi uma beleza em comparação com o que sofri depois. Os amigos não queriam nem me ver; saíam da rua por onde eu ia passar. Eu fui completamente marginalizado da sociedade.

Amazon View – Depois, também com muita luta, o senhor voltou à política. Valeram a pena esses sonhos, esses ideais?

Benedicto“Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, já disse o grande poeta português, Fernando Pessoa.

Amazon View – E a vida literária, compensa?

BenedictoCompensa muito. Para dizer uma coisa real, eu voltei para a sociedade por causa do Verde Vagomundo. Se eu não escrevesse estaria morto como tantos outros companheiros. O primeiro lançamento que eu fiz do Verde Vagomundo, foi no Teatro da Paz, o que não seria possível fazer se o livro não tivesse tido um sucesso fantástico no resto do Brasil, principalmente no eixo Rio-São Paulo. Depois do sucesso no Brasil, aí que eu fui lançar aqui. Compareceram mais de mil pessoas no lançamento.

Amazon View – E a sua amada Alenquer?

BenedictoNa época em que eu saí de lá, Alenquer era estatisticamente o quinto Município do Estado do Pará. Na frente dele só existiam Belém, Santarém, Castanhal e Bragança. Hoje não somos nem o qüinqüagésimo. Eu considero que Alenquer nunca mereceu o seu lugar por causa da sua situação política muito contraditória, muito vinculada a pessoas. Quer dizer, o Município padece porque antes de ter um prefeito, tinha um cidadão que julgava que ia pegar um patrimônio para ele e sua família; esta é que era a teoria e por causa disso o prefeito esquecia o resto. Até a encantadora vida ribeirinha de Alenquer foi prejudicada. Ultimamente, as várzeas estão vazias porque houve uma grande migração para a cidade, em função da falta de assistência do Poder Público. Mas Alenquer é tão bonito, tanto que escrevi toda a minha obra em função dos meus conhecimentos sobre o município que sem dúvida é o personagem central dos meus livros. Ainda agora eu estou indo pra lá, reinaugurar o Internacional que eu fundei e implantar a primeira biblioteca pública do Município, quando Óbidos já tem três bibliotecas.

Amazon View – O senhor é favorável à criação do Estado do Tapajós?

BenedictoSou.

Amazon View – Qual a razão que o senhor argumenta?

BenedictoEu argumento primeiro que aquela área é o resto que existe do Pará. O que ainda existe do Pará, está lá. E tem que ser muito reservado, porque se a Santarém-Cuiabá chegar, vai acabar.

Amazon View – Um desmembramento com a implantação do Estado do Tapajós criaria problema para o Pará?

BenedictoCriaria. Mas nenhum grande problema não superável. O problema é só o econômico, a bauxita, alguma coisa que tem; é a perspectiva mineral , porque a perspectiva da agropecuária, que era muito boa, acabou em relação ao pessoal do sul do Pará que tem uma pecuária mais avançada.

Amazon View – O Estado do Tapajós, se for criado, terá condições de sustentabilidade?

BenedictoTerá, demais.

Amazon View – Qual a receita para a Amazônia?

BenedictoÉ a prática da ecologia. Primeiro é o conhecimento, que ninguém sabe; isto eu já provei em reuniões da Academia Paraense de Letras, na Academia Brasileira Agrária. Há falta de conhecimento até espacial. Por exemplo, você vai aqui nas universidades, não encontra nada sobre ecologia; encontra sobre meio ambiente, quando este é um setor mínimo da ecologia.

Amazon View – Qual a diferença entre meio ambiente e ecologia?

BenedictoO meio ambiente extrai, exclui o homem da natureza, e na ecologia o homem faz parte central da natureza, é o elemento inteligente. A defesa do meio ambiente coloca o homem fora, como depredador ou como conservador.

Amazon View – Há uma ameaça de internacionalização da Amazônia?

BenedictoA Amazônia já está internacionalizada, isto com a presença de ONGs e através de formas intelectuais sob um véu que na aparência nos traz valores econômicos e ecológicos, só mesmo na aparência. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 70)

 
Apolonildo Brito

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