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No mundo encantado da nação Mura

Os índios Mura habitam hoje o centro e o leste do Estado do Amazonas. Possuem ampla participação na história colonial brasileira, por sua personalidade arredia e espírito de resistência frente ao domínio português. Tidos como "incivilizáveis", faziam das canoas suas casas, ação nômade para fugir e rechaçar a invasão dos civilizados, sendo aguerridos, destemidos e usando táticas guerrilhas. Em 1835, voltam à luta aliados a Cabanagem.

Há muitos anos, a Amazônia era um enorme teatro de arena, onde se desenrolavam os mais singelos dramas, cujos atores eram a imensa fauna, os rios gigantescos, os milhares e milhares de ameríndios que habitavam as selvas, tendo como pano de fundo a floresta maravilhosa e encantada, pois só Deus poderia ter feito convergir para um único recanto tudo quanto vivia e palpitava.

Muito antes de o branco colonizador penetrar em suas brenhas, os indígenas viviam dentro da simplicidade ingênua de suas crenças, lendas e mitos, que lhes foram transmitidos pelos seus avoengos. Eles, os índios, eram os donos do vale. Na malha aquática do rio Madeira, que compreende os rios Maici-Mirim, Paca-Nova, Jamari e Arikemes, viviam os índios Parintins, Jauaperis, Paca-Novas, Mura-Pirahã, Tura, Urumi e Urupé.

No Baixo-Amazonas (rios Tapajós, Maués e Andirá) e Baixo-Madeira (rios Abacaxis, Apucuitana, Canumã, Secundari, Autaz, Manicoré, Baetas, Matuará e Jamundá) habitavam os índios Mundurucus, Maués, Mura e Uruá.  Dentre essas tribos escolhemos uma, para mostrar o seu modo de vida, os Muras.

Outrora numerosos, hoje eles são reduzidíssimos. Um trabalho de pesquisa da antropóloga Adélia Engrácia de Oliveira traz a lume o mundo encantado desses índios. Muitos antes de eles andarem a corso, isto é, pilhando os outros índios e as missões religiosas, os muras eram pacíficos. Porém, um dia, aceitaram, de bom grado, assentar-se a fim de plantar, para que no tempo da colheita pudessem trocar o produto de seu trabalho por mais bens do que aqueles que já tinham sido providos pelos missionários católicos. Os religiosos haviam deixado com eles viveres em abundancia, panos e ferramentas, para poderem sobreviver durante o trabalho, até a colheita.

Entretanto, um português, sabedor do ajuste entre os padres e os índios, um dia aportou nas rogas dos Muras e, perfidamente, após deixar com eles alguns presentes, lhes disse que “os jesuítas o haviam encarregado de transportar o número de índios que coubesse em sua igarité e os levasse até a Missão, onde os padres iam realizar uma grande festa".

Com essa patranha, os índios Muras embarcaram e foram vendidos como escravos, na vilas de Santarém, Obidos, Silves, Serpa, Borba, Ega, Moura e Barcelos. Advém desse gesto o ódio exacerbado dos Muras aos brancos e a todos aqueles que não pertencessem a sua tribo.

A partir de então, passaram a viver em grandes canoas, tornando-se nômades, e aquelas vilas foram impiedosamente atacadas por eles.

Seus arcos e flechas eram terríveis. O arco media doze palmos de comprimento e as flechas, bem maiores, atravessavam um boi, tal a força com que elas eram impulsionadas. Atacavam com rapidez e sumiam como por encanto. Mas, nem só de vingança viviam os Muras. Fora à luta pela subsistência da tribo, cultuavam os seus deu deuses, mitos e lendas.

Resguardavam as cunhãs contra a audácia do Boto. O cheiro do sangue da menstruação era inebriante para o Boto, que passava daí em diante a perseguir a mulher menstruada. Se porventura ela ficasse grávida dele, só o curandeiro e o pajé tinham poderes para livrá-la da gravidez incomoda, O primeiro rezava e o segundo chupava o feto pela vagina, tirando-o do ventre materno. Se isso não acontecesse, ela era levada para as profundezas do rio e mantida encantada. Os Muras reconheciam o Boto transformado em homem, verificando se ele tinha um buraco no topo da cabeça.

Acreditavam no Curupira, que, com o seu cajado, guardava a mata e a caça. O Curupira punia todo aquele que ma1tratasse as arvores e quem matasse pelo simples prazer de matar.

Respeitavam o Mapinguari pelo seu descomunal tamanho, com o corpo todo coberto de pelos, iguais ao do porco-espinho. O Mapinguari, diziam os Muras, tinha três bocas. Uma no sovaco direito, outra no esquerdo e a terceira bem no peito, a altura do coração. Só conseguiam mata-lo se ele abrisse a boca do peito e uma flecha por ela penetrasse, atingindo o coração, Segundo os Muras, o Mapinguari comia carne humana. Encontrar-se com ele era ficar possuído de espírito mau.

Tinham receio do Matintapereira, pois os Muras acreditavam ser gente que se transformava em pássaro e, para descobrir quem era o Matintapereira, usavam de uma artimanha. Deixavam no tronco de um miritizeiro um maço de fumo, e aquele o pegasse era o Matinta.

Para eles, o Jurapari era o gênio do mal. Dele tinham verdadeiro terror. O Jurupari habitava o centro da mata. O seu urro era aterrador. O seu órgão fonador era no umbigo e  todo aquele que ouvisse seu urro tinha de ficar parado, pois, se movesse, ficaria rengo.

Mas era em Tupã que o povo Mura via sinais benfazejos de um campo de caça, de bons pesqueiros, boas madeiras para a construção de seus barcos, boas colheitas, enfim, em tudo o que pudessem tirar da terra-mãe.

E essa grande nação, senhora das águas e da terra, que habitava todo o vale do rio Madeira, Purus e grande parte do Amazonas, ontem numerosa, hoje é diminuta, não pelas armas, mas sim pela civilização implacável. De todos os quadrantes do mundo vieram gentes. Vinte e dois mil. Hordas e mais hordas de nordestinos, invadindo o seu habitat natural. E os invasores trouxeram novas formas de vida e de cultura. A religião veio firme. E os Muras foram-se desintegrando e se integrando nas novas formas de vida.

Dessa miscigenação os Muras perderam a identidade. Suas ingênuas histórias tomaram feições de outras terras. O Boto confundiu-se coma Iara; O Caapora nordestino foi introduzido na mata amazônica; o Curupira, fora as funções de defender a floresta e caça, ganhou varias formas: usa roupa de padre; tem a bunda de fogo; tem um escroto enorme; tem um pênis descomunal, um só olho na testa; tem mulher e filhos; é pai do uirapuru, xincuam e do matintapereira. E mais de uma dezena de formas, os pelos do Mapinguari ao invés de cerdas de catetos, seriam de aço.

Os restantes, já pacificados, vivem nos lagos Autazes, no rio Solimões, no rio Manicoré, no rio Madeira e no rio Purus. São católicos e comemoram as festas de Nossa Senhora do Livramento e Santo Antônio.

Somente os Muras-Pirahã guardam alguma identidade de sua antiga cultura, mas, mesmo assim, quando contam alguma de suas lendas, saltam aos olhos as formas estereotipadas dos contos de Grimm. Andersenn e Perrault. (José Valente – Revista Enfoque Amazônico – Edição 4)

 
Apolonildo Brito

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