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Jornalismo | Opinião

Musicalidade mocoronga, um sortilégio regional

Muito se tem falado, em prosa e verso, sobre a musicalidade de que são dotados os habitantes da região em que se encontram os rios Amazonas e Tapajós, sobretudo os nativos de Santarém, cujas composições e músicos são reconhecidos no Brasil, alguns internacionalmente. Há quem diga que o privilégio de Santarém possuir música própria, peculiares, são sortilégios de suas belezas naturais, responsáveis pela inspiração de seus poetas e compositores.

Outrora, a cidade de Santarém assumia o glamour da famosa Veneza italiana, onde as gôndolas singram as águas de seus canais entoando poemas e cânticos de amor. Na Pérola do Tapajós, os estreitos canais venezianos tornavam-se caudalosos rios em noite de luar, nos quais, típicas canoas santarenas mesclavam o som do ronco dos remos nas águas com belas melodias cantadas e tocadas por seresteiros entoando acordes ao violão a “Canção de Minha Saudade”, “Santarém Terra Querida” e tantas outras do repertório local.

Assim era Santarém até o inicio da década de 50, quando mal a lua-cheia brotava na outra margem do lendário rio, além do encontro das águas do Tapajós-Amazonas. As pessoas acorriam às praias da frente da cidade, principalmente no trecho que acompanha a Avenida Adriano Pimentel, entre o velho trapiche municipal e a antiga sede da Maçonaria. As famílias estendiam lençóis na branca areia, sentava-se sobre eles, para fazer piracaia, saborear melancia e ananás, beber palmari e esperar o séquito seresteiro. Vez por outra passava uma canoa a remo com excelentes intérpretes da musicalidade mocoronga na proa da embarcação, elenco que destacava o vozeirão do tenor Machadinho, acompanhado pelo violão de João Fona. Assim era Santarém em sua romântica versão cabocla de dos gondoleiros venezianos, com a vantagem da paisagem prateada do da foz do belo rio Tapajós em seu encontro romântico com as águas do majestoso Amazonas.

São inúmeras as referências de historiadores e pesquisas sobre a musicalidade dos tapajônicos. O padre João Filipe Bettendorf, o primeiro “civilizador” de Santarém, relata que, no ensino religioso-musical que ali ministrou, a existência em terras mocorongas de “belas e mui gabadas vozes da gente destra no canto”. Mais tarde, em 1860, o naturalista inglês Henry Walter Bates, afirma em sua pesquisa científica feita in loco que a população de Santarém tem vocação à civilização e que “gostava muito de música”, diferente dos costumes dos demais habitantes da região amazônica.

A obra “Baú Mocorongo”, do maestro Wilson Fonseca, assegura que Santarém deve ser uma das poucas cidades interioranos do Brasil que pode se orgulhar de possuir música própria, com características peculiares e definidas.  Ele não precisa até que ponto o sortilégio das belezas que cercam a velha Aldeia dos Tapajós são responsáveis pela inspiração de seus poetas e compositores. Mas assegura, que é inegável, que o “ambiente exuberante com paisagens privilegiadas em que entrechocam, num combate eterno, dois portentosos rios, vem exercendo muita influência sobre o espírito dos musicistas locais”. Cita, como exemplo, numerosas canções que enaltecem Santarém, seus atrativos e singularidades que já foram transportadas para os “acordes dos pianos, dos violões, dos ponteios dos cavaquinhos e para a maviosidade do som das flautas”.

O “Baú Mocorongo” também afirma que, dos encantos com que Deus brindou Santarém, “desde praias alvinitentes, cuias pintadas e ventarolas plumadas, até os mitos e crendices tradicionais da Amazônia, há o fascínio irresistível do canto do uirapuru, as perfídias da Iara ou Mãe D´água e as maroteiras do boto namorador, essa deliciosa lenda que tantos ribeirinhos ainda hoje acreditam piamente, pois muitos são capazes de jurar que viram quando o boto virou gente”.

Nas palavras do maestro Wilson Fonseca, o escritor e historiador Augusto Meira Filho, que tinha nas veias o sangue dos Tapaius, dizia que era preciso conhecer, viver e participar da vida do Tapajós para sentir a beleza e encantos da música santarena, porque ela exige, em primeiro plano, uma vivencia local, o contato com as águas claras e verdes do Tapajós e um conhecimento do savoir-vivre do povo hábil e artista por natureza que nasce, vive e sonha pela sua cidade encantadora...

A musicalidade mocoromga é pegajosa, contamina, marca a alma dos que nasceram, viveram ou simplesmente visitaram a “Pérola do Tapajós”, sentindo o poder que emana da sua bela paisagem colorida, da sensualidade das mulheres, do sabor dos peixes e do perfume do patchuli. Ninguém escapa ao fascínio de Alter do Chão, nem aos encantos do luar santareno. Nem mesmo eu, o mais ferrenho dos ximangos, que aos 10 anos de idade, ingressei no mundo da poesia, com uma singela ode: “Eu só vivo a relembrar, /como as ondas que vão e vêm, /da beleza do luar /nas praias de Santarém”...

Quando retornei adulto, novamente me enfeiticei por Santarém, com mais fervor ainda, porque pude também sentir o calor humano de seu povo gentil, simples e hospitaleiro, digno da dádiva divina da exuberante natureza que lhe serviu de berço. Mais ainda, Santarém foi mais do que generosa comigo ao me adotar e me oferecer uma das suas belas filhas em casamento, que foi a Estrela da minha vida e a dona do meu coração, a musa inspiradora da minha primeira composição musical. Como as águas de um grotão, que de repente se transforma em rio, assim compôs outras canções, como “Saudade de Caboclo”, “No bairro da Prainha”, “Garota da pracinha”, “Ai, seu Interventor!” e demais que compõem minha modesta antologia musical, maioria inspirada pela paisagem que se descortinava da janela da casa onde morava, tendo o calçadão da Avenida Adriano Pimentel em primeiro plano e o majestoso encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas como pano de fundo. Quem não comporia assim?

Ao pretexto de fazer música de protesto contra o golpe militar e contra a intervenção arbitrária que o município de Santarém sofrera a ser transformada em Área de Segurança Nacional, sempre que a minha profissão de piloto permitia, reuni-me com vários jovens ligados à musica e à poesia na aprazível varanda à beira-rio da residência do Dr. Ubirajara Bentes, cujo filho Edwaldo Campos era um dos mais entusiastas. Paulo Roberto Rebelo, José Machado, Renato Siqueira, Djalma Pereira e Luís de Assis também participaram assiduamente dos saraus de gestação da ideia do que seria mais tarde o 1º Festival da Música do Baixo-Amazonas.

Nesses inesquecíveis e criativos encontros, quase sempre sob a luz prateada do luar santareno, com a brisa amena vinda além do encontro das águas dos dois grandes rios que margeiam a cidade, recitávamos poesias e cantávamos nossas próprias composições ao som de um violão disponível na ocasião, tal como do saudoso Luís de Assis, com o ponteio de Djalma no cavaquinho, que davam o tom nessas noitadas recheadas de músicas, poesias e política. Outros violões, compositores e poetas que eventualmente participavam dos saraus muito contribuíram para que consolidasse a ideia da criação do Festival, que teve de início, o imprescindível apoio moral de Laudelino Silva, Edenmar Machado (Machadinho), Laurimar Leal e Haroldo Sena, que abriu as ondas sonoras da Rádio Rural para a promoção do evento.

O Mestre Laudelino (conhecido pelo seu bandolim) logo disparou com uma bela composição sua que dizia: “Santarém, Santarém do coração, do primeiro Festival da Canção”. A música ganhou hit parade nas rádios locais e deu maior apelo para o Festival. Machadinho, por sua vez, usou tida sua experiência e conceito musical para aconselhar nosso grupo a ter bom senso e buscar a participação dos ícones da cultura santarena, pois a ideia original era mostrar que Santarém tinha outros valores artísticos além dos tradicionais, capaz de uma produção musical independente e diferenciada. A sábia ponderação talvez tenha salvo o Festival de um fracasso. Muitos de nós ainda guardava resquícios de preconceito ideológico contra aquilo que considerávamos elite, mas venceu o bom senso.

Convidamos então o jovem Vicente Fonseca, que passava a férias de julho em Santarém e era filho do maior ícone musical local, para participar do grupo, discutir e presidir o que seria o 1º Festival da Música Popular do Baixo-Amazonas. Vicente trouxe novas ideias e excelente relacionamento com a elite musical belenense, o que muito favoreceu o sucesso do Festival, com 245 músicas inscritas e a participação dos maestros Waldemar Henrique e Adelermo Matos (folclorista decano) e Avelino Vale na Comissão Julgadora. Ele também abriu outros canais para a realização do evento, dentro e fora de Santarém, que viabilizaram socialmente o Festival. Enfim, mais uma prova que podemos apostar no talento mocorongo, cuja musicalidade emana do seu ambiente exuberante, com paisagens privilegiadas em que dois portentosos rios se entrechocam num embate de eternos namorados, exercendo influência mágica e criadora sobre o espírito dos musicistas locais. O exemplo está nas numerosas canções que enaltecem Santarém, seus atrativos e singularidades que já foram transportadas para acordes e poemas que brotam da criação dos que nasceram, viveram ou simplesmente foram adotados pela “Pérola do Tapajós”. (Apolonildo Britto - Matéria inédita publicada no site www.enfoqueamazonico.com.br)

 
Apolonildo Brito

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