Amazon View!

Matérias Temáticas | Cultura

Menino ou menina? O caboclo tem a resposta certa

Saber ou adivinhar o sexo de uma criança que está para nascer é muito normal entre casais e familiares envolvidos com a gravidez, até mesmo preocupante. O pesquisador paraense Ararê Marrocos afirma que o caboclo amazônico tem a resposta antecipada e não questiona isso a ninguém, nem a médico, parteira ou pajé. Ele recorre a capins, animais silvestres e a outras crendices populares passadas pela hereditariedade de pais para filhos.

A preocupação de saber (ou melhor, adivinhar) o sexo de uma criança que está para nascer é fato muito normal e, as vezes, até mesmo preocupante por parte dos pais ou parentes mais próximos ou não. Sempre vem a indagação: será homem ou mulher? Geralmente o marido torce para que seja um homem, enquanto a mulher é claro que seja uma mulher, chegando a formar uma torcida entre parentes e amigos mais entusiasmados. Para outros casais é o de menos, eles costumam dizer; homem ou mulher será aceito com

a mesma satisfação. Importante mesmo é que o próximo filho seja normal, tenha boa saúde e seja bonito.

Como o homem vive em permanente desatino com a natureza, os cientistas de todo o mundo já tentam experiências no sentido, de que, quando uma mulher grávida fizer a indagação “qual será o sexo de meu filho?”, o médico saiba responder com certeza, se menino ou menina.

Mas a gente humilde do interior, o caboclo da Amazônia, não faz a pergunta a ninguém, nem a médico ou pajé ou à parteira. Ele sabe como agir, já mãe ensina a filha o que aprendeu com os pais, uma vai passando a outra, as informações acumuladas por hereditariedade, tornando-se assim uma tarefa fácil de saber se o filho que está para nascer vai ser homem ou mulher.

Em quase toda a Amazônia os “testes” são quase sempre os mesmos, utilizando os interessados no assunto desde pequenos animais até insetos e plantas, os quais se encarregam de satisfazer a curiosidade, identificando o sexo de uma criança por antecipação.

 

Do capim navalha ao coração de um animal

São inúmeros os testes presenciados por esse interior amazônico, como exemplo: um talo de capim navalha ou pacuá. Quando o futuro pai ou a futura mãe o segurar com a ajuda de uma pessoa amiga e ele se abrir ao meio; se o filho for mulher será separado totalmente; entretanto, se o talo ficar ligado por uma pequena fibra, podem ticar certos os pais que virá um homem.

Mas os animais também não ficam atrás em matéria de adivinhar sexo de criança: quando um calango (lagarto verde, muito encontrado no interior)

andar despreocupado pelas cercanias de uma casa do interior, onde há uma mulher grávida, e não fugir a aproximação dela, é menina, mas se fugir em desabalada carreira, ao pressentir a mulher grávida, pode contar que o filho será homem.

Em Curuçá, nas Pedras Grandes, a Põe-Mesa, é muito procurada e utilizada para o teste; qualquer pessoa pega o pequeno inseto e com o pensamento voltado para a mulher grávida e lhe pergunta: o filho de (fulana) é homem ou mulher? O ferrão é quem dá a certeza, pois se abrir o filho será mulher e conservar fechado, homem, é também indiscutível a eficácia da caba, não só no interior como também na sede do Município e até mesmo na cidade (capital); e a prova até se divide em três espécies; se a casa de barro para a desova tiver o formato de uma pequenina igaçaba, é menino; se a forma é oval, porém com uma abertura na extremidade mais pontiaguda e numero de duas coladas entre si, também é menino, entretanto se as pequenas casas de barro formadas pela saliva dos pequenos insetos, misturadas com barro, tiverem uma forma cilíndrica e, não há dúvida, a criança será mulher.

Mas não só o formato, como também a cor tem as suas influencias; brancas (casa de caba feita nos caibros das casas), marrom, identificam como menino; cinza (muito encontradas em fios, arames, nos livros em estantes, malas, canto das casas, roupas, etc.), identifica uma criança de sexo feminino, e geralmente são vistas em madeirames das construções de casa de barro batido, todas consideradas como teste eficaz, pela semelhança que apresentam com os órgãos sexuais, assim como é comum verificar se é homem o filho, quando as casinhas estiverem em número de duas (brancas), três (cinza ou marrom escuro) isoladas ou apenas uma (marrom escuro); também cinza, mas de forma cilíndrica e com três furos. Se houver apenas um furo, será mulher.

Há ainda aquela crendice do “cigarro de morcego”, que se for aberto pela mulher grávida, ou qualquer pessoa de casa ou ainda amigos íntimos, e no interior estiver depositado um ovo unido a folha, é homem; se não tiver nada dentro do casulo, é mulher.

O cigarro de morcego ou charuto do morcego como também é conhecido, é uma casa de lagarta, onde esta, enrolando-se em uma folha de arvore deixa apenas uma pequena passagem por onde ela introduz parte do corpo locomovendo-se pelo chão ou subindo em alguma arvore carregando sua casa presa ao corpo, abandonando-a somente quando transforma-se em borboleta.

Mais um teste para os curiosos: um coração de qualquer ave abatida em casa ou em caçada, é muito frequente; basta extrair o coração e dar-lhe um pequeno corta, colocando-o para cozinhar. Depois de cozido, se o corte feito na extremidade do órgão estiver fechado, é menino, mas se abrir, vira com toda certeza uma mulher. Algumas pessoas também usam o rim pelo mesmo processo.

Além destes existem outros processos usado por ai, na cidade e no interior, como o da mão, em que uma pessoa qualquer indaga da mulher que está grávida “que tens na mão?”. Se a mulher, ao impulso da verificação, apresentar a mão com a palma voltada para cima, vai ter uma menina, se ao contrário, é menino. Outro teste é o da roupa que muitas vezes é confeccionada com o intuito de servir para uma menina, entretanto, aparece com traços de um vestuário masculino, o que não passa despercebido da futura mãe. Se com três meses de gravidez a criança se mexer é homem, porque mulher só entre o quarto a quinto mês é que começa a fazer movimentos no ventre materno. Quem tiver mais de um filho e estiver grávida novamente, e vir o filho começar a andar com a camisa ou qualquer outro pedaço de fazenda sobre o ombro, o próximo filho será homem; se colocar o pano na cabeça será mulher.

Todos esses testes de identificação do sexo do filho que está para nascer são presenciados e divulgados pelos caboclos interioranos, que vão transmitindo aos citadinos, confirmando a sua eficácia, e por isso sem a preocupação de estar indagando se o filho será homem ou mulher, principalmente aos médicos e gastando fortunas em exames médicos. Mas em que pese a certeza das experiências louvadas em crendices ou supertições, há muita gente que dispensa tudo isso e espera a hora em que o médico ou a parteira dão a noticia exata; seu filho é homem ou seu filho é uma mulher, conforme o caso, terminando assim as preocupações e as indagações e os testes ficarão para a próxima oportunidade. (Ararê Marrocos – Publicado na Revista Enfoque Amazônico – Edição 1)

 
Apolonildo Brito

OUTRAS

Parceiros