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Tradição e beleza na Festa do Sairé em Santarém

Reunindo em shows de beleza o sagrado e o profano, entre os dias 13 e 17 de setembro, sempre no meado do mês, a Festa do Çairé apresenta em Alter do Chão, Santarém, eventos que consagram o ritual religioso da conversão dos índios Boraris à fé cristã e o folclore dos Botos Tucuxi e Cor-de-Rosa. O evento também consagra a celebração do Çairé tradicional, com romaria fluvial, procissão, ladainhas e arraial.

A tradicional Festa do Çairé deste ano traz, pela quinta vez consecutiva, a inovação da apresentação dos Botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, com o objetivo de dar mais grandeza ao folclore realizado em Alter do Chão há mais de trezentos anos. Outra mudança foi a data do evento, antes realizado no fim de junho, para meado de setembro, a fim de oferecer aos visitantes a opção das belas praias da localidade. A construção da praça do Çairé e do Çairódromo com recursos do governo federal também deu mais força ao evento, atraindo atualmente cerca de cem mil visitantes ao paradisíaco balneário santareno, durante o período.

Desde que assumiu a Prefeitura de Santarém, em 1997, o prefeito Joaquim de Lira Maia não apenas decidiu resgatar a rica cultura santarena como ainda valorizá-la e dar-lhe dimensão no cenário nacional, aproveitando o grande potencial paisagístico, artístico e cultural do Município. A conjugação desses três elementos tornou-se trunfo básico do planejamento dos eventos municipais, responsável pelo atual sucesso nas áreas culturais e turísticas.

A Festa do Çairé, obviamente, como principal evento folclórico do Município, não poderia ficar de fora dessa gestão. Mas a tradição do seu ritual catequético, entretanto, criou a primeira barreira, até mesmo porque a população de Alter do Chão o considera exclusivo e intocável. Foi possível conciliar a mudança de grafia de “S” para “Ç” e até a data de sua realização, mas alterar o folclore, mesmo que para dar-lhe mais colorido e grandiosidade, jamais, razão pela qual a Prefeitura de Santarém e a comunidade local, os organizadores da festividade, têm primado pelo cuidado de manter à risca o tradicional ritual religioso que herdaram dos índios Boraris, primitivos habitantes da vila, separando as duas festas no mesmo período.

Outra preocupação dos promotores do Çairé é dar identidade própria aos Botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, no estilo e conteúdo diferentes do Boi de Parintins, embora a influência deste seja ainda forte nesta fase inicial, principalmente porque os mocorongos são assíduos freqüentadores do Festival Folclórico da Ilha Tupinambarana.

O resultado das mudanças deu mais brilho ao evento e promete transformá-lo num curto espaço de tempo, na maior festa cultural do Norte e Nordeste brasileiros, quiçá de todo o país, tendo em vista que Santarém ainda oferece um colar de brancas praias de dezenas de quilômetros ao longo do lindo azul-cristalino rio Tapajós, boa infra-estrutura hoteleira e outros atrativos, além de exímios artesãos e da musicalidade inerente ao município, que garantem criatividade, beleza e belas toadas caboclas.

O folclore – A fauna paraense sempre foi festejada pela arte popular da região e inspirou os folguedos juninos. “Cordões” de pássaros e bichos alegraram e ainda alegram gerações nas quadras do mês das fogueiras. Dentre os bichos, o folguedo do Boto se destaca pelo fascínio que suas lendas eróticas encarnam, quando ele vira homem e emprenha as cunhantãs ou tem suas genitálias transformadas em puçangas para atrair o ser amado. São muitas, aliás, as lendas do Boto, que certamente serão contadas nos enredos deste e dos próximos Çairés.

Cada Boto leva um enredo por ano, desempenhando uma trama (auto teatral), com rituais trazendo lendas e personagem do folclore regional, inseridos no próprio contexto da “brincadeira”. A trama tem ideologia ecológica e celebra, como no Boi-bumbá, a morte e ressurreição do principal personagem, herança da catequese jesuíta. No caso do Boto, na terceira parte do ritual ele é arpoado e morto pelo pescador porque emprenhou Cunhantã-iborari, filha da poderosa Principaleza, a senhora do Lago Verde. Mas logo é ressuscitado pelos pajés da tribo, depois do cerimonial da Mufama (clareira aberta na floresta). A apoteose acontece com a ressurreição do Boto.

Os enredos são divididos em três partes: a chegada do branco na região, com troca de prendas entre ele e indígenas e o ritual do símbolo do Çairé, que encena a conversão dos Boraris pelos jesuítas; desfile de lendas regionais, inclusive a história do Boto; cenas ribeirinhas e aquáticas, com destaque à presença cabocla.

Personagens – O critério de julgamento do folclore baseia-se em pontuações em 22 itens obrigatórios, dentre eles destaca-se o Boto, a Principaleza do Lago Verde (mulher de maior poder na tribo no sistema matriarcal instituído pelos jesuítas logo que chegaram à região), a mulher do tuxaua. Maria Moaçara foi no passado uma famosa Principaleza de Santarém. Rainha do Çairé; Cunhantã-iborari, bela  filha da Principaleza (que equivale à Sinhazinha da Fazenda do Bumbá); a Porta-Estandarte; os Pescadores; as Tribos Indígenas; o Pajé. Além desses itens, contam ponto os destaques de Tuxauas e Indígenas; as Alegorias de Lendas; a Coreografia; a Cronometragem; o Apresentador do Boto e o Puxador de Toadas, dentre outros. (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 39)

 
Apolonildo Brito

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