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Jornalismo | Reportagens

Jorge Macedo, o poeta fotográfico de Roraima

Dizem que uma fotografia vale mais do que mil palavras. Outras, porém, traduzem mais que palavras: são formas e cores que refletem poesia e vida. Assim são as fotos de Jorge Macedo, cearense de nascimento, mas roraimense de coração. Um geógrafo apaixonado pela natureza desde a infância. Por causa dessa paixão, veio da terra natal com “armas e bagagens” para Boa Vista-RR, há 20 anos, onde fixou residência e ganhou estima e respeito profissional.

Nas constantes viagens que faz pelo interior, Macedo contempla sempre as belas paisagens do Estado, conjugando a profissão de geógrafo com o hobby que herdara do pai, a fotografia. Ele chegou a Roraima quando o Estado começava a crescer; novos municípios estavam surgindo, oportunidades que Macedo teve para registrar as primeiras imagens da terra que o adotara. Isto lhe valeu um banco de imagem fabuloso.

A partir daí, começou a fotografar tudo: natureza, gente, fauna e flora, da qual brotou a paixão irresistível pelas orquídeas. Fotografa a espécie há dez anos, possuindo dela um invejável acervo. Cerca de 90% das matérias promocionais do Estado têm fotos com a sua assinatura, mas se considera um fotógrafo amazônico, embora também tenha fotografado a Venezuela e o Caribe.

Através de seu trabalho fotográfico, tornou Roraima conhecida no mundo inteiro. Fez fotos para capas de duas revistas japonesas e outras nacionais, além de trabalhos específicos para o Governo promover Roraima na Itália e Japão. A vizinha Venezuela também se valeu de seus serviços para divulgação em toda a Europa.

O próprio Macedo faz questão de destacar que sua popularidade fotográfica no Estado se deve, em parte, à campanha que a Secretaria da Fazenda fez com um álbum de figurinhas que fala de Roraima através de dezenas de fotografias dele. Ilustra, ainda, 40 cartões telefônicos da Telebrás e Telemar, além de 20 cartões postais com imagens de Roraima.

Ninguém, portanto, pode falar sobre as belezas naturais e humanas do Estado melhor do que ele. Mas Macedo prefere começar a opinar sobre a Amazônia:

“Vejo a Amazônia como uma coisa frágil, apesar de estar longe do alarde que propalam. Isso de ser destruída, não creio, mas é uma região muito frágil. Aqui, em Roraima, por exemplo, temos vários ecossistemas: o ecossistema de campo, o de mata, o de terra e o de altitudes, que chegam a quase três mil metros do nível do mar. Boa Vista fica, em média, a 180 metros, tem muita umidade, campos abertos com alagados e pantanais, que mostram a riqueza de ecossistemas de Roraima. Tudo isso muito frágil, contudo”.

Explica que cada queimada nos campos, para renovar os pastos, atinge o ecossistema como um todo. No caso das orquídeas, pode extinguir uma espécie rara ainda sem estudos se esta única ali estiver no local da queimada. “E isso vai acontecendo na Amazônia inteira. A grande riqueza da Região é ter a água, o ouro, a biodiversidade, coisas que ainda podem ser preservadas. Por exemplo, fotografei o rio Cotigo, quando a água ainda era limpa e transparente; ele nasce em cima do Monte Roraima e, anos depois, voltei lá pela época do garimpo e o fotografei com a água toda poluída. Então, viajando você começa a acompanhar toda essa devastação”, arremata.

Para ele, a fotografia representa a captura de uma memória que pode não mais existir no futuro; registra o momento que, no próximo mês, ano ou década pode ser alterado ou completamente destruído. Cita que muitas cachoeiras já desapareceram na Amazônia e que vários rios de Roraima estão assoreados, as matas ciliares acabando e o veneno correndo das lavouras para os mananciais de água. “Eu já tomei banho no rio Caranapi, que era uma maravilha de água limpa e que, hoje, está totalmente poluído; o rio Paraná, próximo de Boa Vista, também está poluído. As pessoas estão procurando água boa na parte mais acima do curso d´água, porque o resto dele já poluiu”, enfatiza o fotógrafo.

Perplexo, Macedo vê esse quadro com pessimismo, por causa da população crescente e desordenada das cidades e diz que, como geógrafo, trabalhou na área de planejamento e acompanhou a chegada a Roraima da maior parte dos novos imigrantes, fazendo colônias para eles nas matas, que por falta de um apoio político nelas não ficaram, as abandonando. Venderam seus lotes e “incharam” a capital. Os fazendeiros que restaram foram expulsos por causa do problema indígena (demarcação), acontecendo o pior: buscaram áreas da mata para devastá-las e criar pastagens, agravando, ainda mais, a agressão que o Estado vem sofrendo.

Como fotógrafo, Jorge Macedo se considera romântico. O que mais lhe atrai são as cores, os contrastes e as formas que existem em Roraima. Diz que, enquanto alguns fotógrafos saem catando o feio da Amazônia para mostrar, ele faz o contrário: dedica-se ao bonito, mas não deixa de registrar tudo. Possui, em seu banco de imagens, fotos de garimpo, devastação e outras mazelas.

Ressalta que suas fotos preferidas são dos cavalos selvagens, imagens pitorescas desses animais, únicos na América do Sul, cujos biólogos atribuem origem aos que os primeiros colonizadores abandonaram na região e que, hoje, formaram bandos selvagens no lavrado setentrional. Outra é a Pedra Pintada, um monumento de pedra de granito que aflora da terra e traz pinturas rupestres com tinta vermelha e algumas gravuras em baixo e alto relevos. O Monte Roraima é outro ícone fotográfico do Estado, uma formação de arenito que se credita ser a mais antiga do planeta, além de existir em torno dele toda uma história, como a da lenda do Macunaíma. Considera a temperatura da luz e a umidade do ambiente os principais responsáveis peles belas fotos de Roraima e garante que o seu por-do-sol é um dos mais bonitos do mundo, por causa da luz muito clara e dos contrastes das cores.

Explica que o que difere Roraima do resto da Amazônia é a grande clareira que existe no meio da selva, que são os lavrados, campos naturais, repletos de buritis (árvores símbolo do Estado), e as formações rochosas, claro. Macedo acha que a cultura indígena é tão rica quanto a influência nordestina para o roraimense. Ambas motivam estudos e belas fotos. Apesar do exotismo das nações indígenas da região, lembra que a cultura nordestina é muito forte porque Roraima foi praticamente colonizada por eles. O forró e a paçoca de carne seca, também típicas no Estado, vieram do Nordeste, por exemplo. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 41)

 
Apolonildo Brito

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