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Icoaraci, a “Vila Sorriso” de Belém do Pará

A bucólica – em alguns pontos – Icoaraci, apesar da sua atual condição de ser um dos oito distritos em que se divide o município de Belém, ainda conserva alguns traços de uma vila provinciana que, no passado próximo, se chamava Vila do Pinheiro. "Icoaraci", uma palavra de origem tupi, que significa "sol do rio" destaca-se na Região Metropolitana de Belém pelo seu artesanato, seus restaurantes à beira-rio e sua água de coco.

Muita gente ainda relembra, com uma ponta de saudade, a simplicidade e bucolismo desse pólo industrial que sempre manteve status turístico. Seu crescente núcleo populacional teve origem na fazenda dos frades carmelitas, cujos desdobramentos levaram à condição que hoje detém.

Segundo dados históricos existentes na Biblioteca Pública Municipal “Professor Doutor Avertano Rocha”, no ano de 1807 o tenente–general Fernão de Carrilho, comendador de São Marinho de Lagares, capitão–mor do Estado do Grão-Pará e Maranhão, concedeu a Sebastião Gomes de Souza a Sesmaria de uma légua de terras, que se estendia do Igarapé Paracuri até à ponta do Pinheiro, entrando pelo rio Maguari acima. O sesmeiro construiu, ali, uma fazenda denominada Nossa Senhora do Livramento, que depois foi doada aos religiosos da corporação de Santo Elias, da Ordem dos Carmelitas. Eram aquelas terras chamadas pelos nativos de Ponta do Mel.

Entretanto, a fazenda foi levada à venda e, na presidência do marechal Soares de Andréa, foi adquirida pela importância de oito (8) contos de réis, para ali ser instalado o Hospital dos Lázaros. Na mesma fazenda, em 3 de maio de 1861, na administração do presidente Ângelo Tomaz do Amaral, foi criada a Escola Rural de Pedro II, a primeira escola agrícola do Pará.

Não registram as crônicas quando foi feita a mudança do nome de Ponta do Mel para Pinheiro, mas a Lei Provincial nº 598, de 8 mais tarde, a usar desenhos florais. Mas tudo que se produzia vendia e a cada dia surgiam mais artesãos: aqueles que eram ajudantes, aprendizes de uma olaria, saíam e formavam a sua própria oficina, e a indústria cerâmica do Paracuri não parou de crescer, cada vez mais se aperfeiçoando. Hoje, a Cerâmica Paracuri é uma das mais lindas do Pará com seus grafismos próprios e design de peças.

Cabeludo veio morar no bairro do Livramento (Icoaraci) em 1956, quando se casou com uma jovem da família Croelhas. Era pintor letrista, fazia faixas, murais, etc. Mas, certo dia, folheando um livro que ganhara, viu um lindo vaso de cerâmica o qual resolveu reproduzir. Numa olaria pediu para o artesão fazê-lo no torno, passando, a seguir, para os acabamentos. Era um vaso marajoara. Após queimá-lo, fez as pinturas, reproduzindo as cores marajoaras (vermelho, preto e branco), copiando a gravura do livro. Da curiosidade do pintor letrista surgiu uma nova era para o artesanato de Icoaraci, a chamada Cerâmica Paracuri, que nada mais é do que finas réplicas das artes marajoara, tapajônica e maracá, além de peças decorativas e utensílios domésticos.

O artista interessou-se pelo formato marajoara e começou a ler tudo sobre o assunto, reproduzindo várias peças. Isto aconteceu já no início da década de 60, razão pela qual 1960 é o marco do renascimento da cerâmica marajoara em Icoaraci, com Antônio Farias Vieira, o Cabeludo, que se dedicou, pesquisou e passou a reproduzir peças cerâmicas com sua numerosa família: filhos, noras e netos, até os dias de hoje.

Muitos foram seguidores desse grande mestre: vizinhos, amigos e curiosos. Cabeludo passou a reproduzir, cada vez mais, e vendendo tudo. Os artesãos começaram a copiá-lo; alguns trabalhando com ele, para depois caminhar sozinhos em suas próprias olarias. Os filhos, genros e amigos também passaram a produzir por conta própria a cerâmica marajoara estilizada, que ganhou grandes proporções, o que muito contribuiu para o crescimento e aperfeiçoamento cada vez mais amplo da Cerâmica Paracuri.

Surgiu também outra vertente cerâmica, aperfeiçoando, ainda mais, a reprodução das peças marajoara, tapajônica e maracá, que requereu mais pesquisa e esmero. Nela, o grande Mestre Cardoso é considerado por muitos como o “maior pesquisador”. Cardoso teve a ajuda de Raimundo Ademar Zarança Dias em pesquisas no Museu Emílio Goeldi. Em seguida, apareceriam também as reproduções da equipe do Mestre Cardoso: Ademar, Gaia, Inês Cardoso e Levy Cardoso e de várias pessoas que trabalhavam na olaria do Mestre, que foram aprendendo e desenvolvendo o trabalho e, mais tarde, formando suas próprias olarias. O artesanato cerâmico explodiu, rompeu as barreiras e instalou-se nas mais lindas casas, mansões e museus do mundo.

O processo de produção da arte está localizada a maioria das olarias que produzem cerâmica. São mais de 50 pontos de produção e venda. Na orla do Cruzeiro, praia de água doce que concentra 13 bares em formato de palhoças estilizadas, destaca-se ainda a Feira do Paracuri, onde além da venda de artesanato organizada pela Associação dos Produres de Cerâmica, podem ser encontradas barracas com comidas típicas. A água de coco de Icoaraci é uma outra atração tradicional da orla fluvial, em local que funciona ininterruptamente oferecendo sombra e líquido geladinho. Há, ainda, o chalé Tavares Cardoso, espaço cultural que abriga em seu interior um museu, a Biblioteca Pública Municipal e um pequeno teatro. 

Cerâmica Paracuri  – O belo artesanato que hoje destaca o Distrito de Icoaraci, inspirado na cerâmica marajoara, fruto da quarta fase arqueológica da Ilha de Marajó, nasceu há pouco mais de 40 anos, com o vigiense Antonio Farias de Vieira (o Cabeludo), pois os artesãos de então desconheciam os traçados marajoaras e usavam outros desenhos mais fáceis em suas produções cerâmicas. Por algum tempo a cerâmica marajoara ficou fadada a peças arqueológicas expostas em museus, enquanto os artesãos limitavam-se a produzir peças utilitárias para uso doméstico. Os artistas de Icoaraci apenas geometrizavam formas, passando, cerâmica passa por minuciosos estágios, ou seja: a) Limpeza do barro, etapa em que é trabalhado de modo a serem retiradas as impurezas (em geral, raízes de árvores); b) É no torno que a habilidade do oleiro dá as formas que a peça terá. Depois de “levantada” (já com seu formato final), a peça vai para o sol a fim de secar (este processo de secagem pode levar até mais de 24 horas); c) Com a peça já seca, esta vai ser lixada para deixar a superfície plana, sem imperfeições; d) Chamada de “engobo”, é quando a peça recebe a primeira pintura para definir sua cor básica. Nesta etapa, o desenhista traça os contornos dos desenhos que tanto valorizam as peças; e) Depois de receber os contornos, vem a “nicação”, que é um trabalho feito por outro desenhista que vai inserir os inúmeros traços de preenchimentos nas formas anteriormente definidas. Feito isto a peça vai ao forno para “queimar” (o que dará à peça a firmeza final); f) Após a queima é feito o arremate, que é a pintura final, onde se usa desde tinta à base d’água até cera de carnaúba. As cores variam desde o estilo tradicional marajoara (vermelho, preto e branco) até às estilizadas, onde se pode ver o verde, azul, amarelo e outras variações. Com esse processo, está pronta mais uma obra de arte. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 43)

 
Apolonildo Brito

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