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Matérias Temáticas | Lendas

Lendas indígenas abordam temáticas universais

Quase sempre há um traço comum entre as lendas indígenas: a lembrança do dilúvio precedida de um tempo de bonança e felicidade na terra, quando os homens gozavam da graça divina, vivendo sem conhecer a dor e a morte e quando os animais eram dóceis e inofensivos. O Éden de nossos ancestrais indígenas em muito parecia ao descrito por Moisés na Gênesis bíblica.

O cataclismo a que foi submetido o homem também era fruto do descontentamento dos deuses, provocado pelo ser humano, como se a memória da humanidade tivesse a mesma raiz. Porém, a gênesis do índio apresenta versões diferenciadas conforme a cultura de cada etnia, mas basicamente com o mesmo conteúdo trágico que relembra o fim de uma era. Algumas tribos brasileiras falam da exterminação da humanidade pela água e pelo fogo ao mesmo tempo, a exemplo dos Waiãpi, índios do Amapá, que tiveram as terras queimadas pelo fogo e inundadas pelas águas, sob as ordens do seu criador Ianejar.

Outro traço interessante, são as versões da Arca de Noé que emergem com variadas interpretações nas lendas de certas tribos. Os mesmos Waiãpi contam que receberam de seu deus a tarefa de construir uma casa de argila chamada Mairi, para abrigar seus familiares, seus pertences culturais e as espécies animais da floresta, a fim de sobreviverem à sanha do fogo destruidor, que precedeu o dilúvio.

O fruto proibido do Éden bíblico também não foi esquecido pela mitologia indígena, em especial pelas etnias que habitam o platô das Guianas, na fronteira entre Roraima e a Venezuela. A lenda de Macunaíma lembra a existência da Wazaká, a árvore da vida, criada para saciar a fome de seus irmãos humanos. A árvore produzia todos os frutos da floresta e o deus-herói, depois de constatar que havia egoísmo em seus irmãos, convidou os animais, inclusive os pássaros, para uma festa sob a frondosa Wazaká. Todos comeram e estragaram muitas frutas. E sempre voltavam para comer e estragar as frutas, o que aborreceu Macunaíma. Zangado com a ingratidão, cortou a árvore pelo tronco, dando origem ao Monte Roraima. A seiva do tronco da Wazaká começou a virar água e a escorrer, formando os rios que correm pela Venezuela, Guiana e Brasil.

As lendas sempre revelam que a destruição e a morte não são o fim, mas o início do recomeço, manifestando a misericórdia dos deuses e a importância do homem como objeto de sua criação. A humanidade dos Araweté não deixou por menos e revela em suas lendas os traços comuns da memória humana...

(Apolonildo Brito)

No começo os humanos (bïde) e os deuses (maï) moravam todos juntos. Este era um mundo sem morte e sem trabalho, mas também sem fogo e sem plantas cultivadas. Um dia, insultado por sua esposa humana, o deus Aranãmi decidiu abandonar a terra. Acompanhado por seu sobrinho Hedede’a, ele tomou seu chocalho de pajé a começou a cantar e fumar. Cantando, fez com que o solo de pedra onde estavam subisse às alturas. Assim se formou o firmamento: o céu que se vê hoje, é o lado de baixo desta imensa placa de pedra. Junto com Aranãmi e seu sobrinho subiram dezenas de outras raças divinas: os Maï hete, os Awerikã, Marairã, Ñã-Maï, Tiwawï, Awï Peye, Moropïnã. Os Iwã Pïd~i Pa subiram ainda mais alto, formando um segundo céu, o “céu vermelho”.

 A separação do céu e da terra causou uma catástrofe. Privada de suas fundações de pedra, a terra se dissolveu sob as águas de um dilúvio: o jacaré e a piranha monstruosos devoraram os humanos. Apenas dois homens e uma mulher conseguiram se salvar, subindo num pé de bacaba. Eles são os temas Ipi, a “origem da rama”: os ancestrais da humanidade atual. Na confusão provocada pelo dilúvio, alguns Maï procuraram escapar dos monstros afundando na água e criando o mundo inferior, onde habitam hoje, em ilhas de um grande rio subterrâneo.

“Estamos no meio”, dizem os Araweté da humanidade. Habitamos a terra, este patamar intermediário entre os dois céus e o mundo subterrâneo, povoados pelos deuses que se exilaram no começo dos tempos. As marcas da divisão dos cosmos estão em toda parte: os morrotes de pedra que pontuam o território araweté são fragmentos do céu que se ergueram; as pedras do igarapé Ipixuna ainda guardam as pegadas dos Maï; as moitas de banana-brava espalhadas na mata são as antigas roças dos deuses, que comiam desta planta antes de conhecerem o milho. As plantas cultivadas e a arte de cozinhar os alimentos foram reveladas aos humanos e aos deuses por um pequeno pássaro vermelho da floresta. Bïde, os humanos, são chamados pelos Araweté de “os abandonados”, os que foram deixados para trás pelos deuses. Tudo que há em nosso mundo do meio é o que foi abandonado; para os céus foram os maiores animais, as melhores plantas, a mais bela gente – pois os Maï são como a gente, porém mais altos, mais fortes e imponentes. Tudo no céu é feito de pedra, imperecível e perfeito: as casas, as panelas, os arcos, os machados. A pedra é, para os deuses, maleável como o barro para nós. Lá ninguém trabalha, pois o milho se planta sozinho, as ferramentas agrícolas operam por si mesmas. O mundo celeste é um mundo de caçadas, danças, festas constantes de cauim de milho; seus habitantes estão sempre esplendidamente pintados de jenipapo, adornados com pena de cotinga e arara, perfumados com a resina da árvore (Trattinickia rhoifolia).

Mas os Maï são, acima de tudo, imunes à doença e à morte: eles levaram consigo a ciência da eterna juventude. O exílio dos deuses criou a condição de tudo que é terrestre: a submissão ao tempo, isto é, o envelhecimento e a morte. Mas, se partilharmos desta comum condição mortal, distinguimo-nos dos demais habitantes da terra por termos um futuro. Os humanos são “aqueles que irão”, que reencontrarão os Maï no céu, após a morte. A divisão entre o céu e a terra não é intransponível: os deuses falam com os homens e os homens estarão um dia á altura dos deuses. (Eduardo Viveiros de Castro – “Araweté, o povo de Ipixuna” - Revista Amazon View – Edição 45)

 
Apolonildo Brito

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