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Rodovia acreana abre as portas do Oceano Pacífico

Planejada para ser irmã gêmea da Belém-Brasília e abrir a Amazônia aos sem-terra do Sul e Sudeste do país, ainda no governo Kubitschek, a BR-364 só foi entregue três décadas depois na efervescência da emancipação do Estado de Rondônia (1984), quando foi concluída a pavimentação do trecho entre Cuiabá a Porto Velho, seguindo os 1.500 km abertos pelos postes telegráficos plantados pelo Marechal Rondon, no começo do século XX

A rodovia BR-364 foi o grid-de-largada do último grande ciclo de migração da história brasileira, que mobilizou nada menos que mais de um milhão de pessoas na corrida ao Oeste. Essa rota poente, rascunho do caminho que inicia no cerrado e termina no oceano Pacífico, já existe, mas ainda apresenta desafios para quem ousar desbravá-la, em especial na parte que separa a cidade acreana de Assis Brasil de Porto Ilo. Essa última intersessão, tendo em meio uma densa floresta tropical úmida, um majestoso maciço de rochas adornado de gelo andino, planícies tórridas e um roteiro de aventura que poderá ampliar a fronteira da produção agrícola e aproximar o Brasil do rico mercado do Oriente, principalmente o japonês, que consome cerca de 20% da safra brasileira de soja. A saída pelo porto peruano é capaz de atalhar aproximadamente 9.000 quilômetros e reduzir em 19 dias de navio a chegada dos produtos nacionais do Norte e Centro-Oeste aos mercados asiáticos.

Estrada do Pacífico – O Acre quer a estrada pelo oeste, para integrar seu território até há pouco isolado do resto do mundo, enquanto os produtores dos cerrados de Mato Grosso e Rondônia buscam um caminho para escoar sua colheita através do Pacífico e avançar no mercado oriental, visto que os caminhões de soja poderiam voltar carregados de fósforo e potássio, abundantes no Peru e caros no Brasil, fertilizantes essenciais ao plantio de grãos.

O Peru deseja estreitar os laços econômicos com o Brasil por meio de uma rodovia que tire a região de Madre de Dios, ao sul, de seu isolamento e permita integrar turisticamente o país com os vizinhos orientais. Brasília também admite ser a estrada imprescindível, principalmente agora que o governo não pode mais subsidiar o frete das colheitas distantes até os mercados do Sul e os portos de Santos ou Paranaguá.

Já a Secretaria Nacional do Meio Ambiente encara essa rota com certa temeridade e vê risco de mais destruição étnica e ecológica no seu caminho, preocupação que os seringueiros dizem que Chico Mendes não temia: só queria garantias de que o asfalto viesse precedido de zoneamento ecológico e da delimitação de reservas indígenas e extrativistas. A Secretaria de Assuntos Estratégicos deseja a rodovia e estuda detalhadamente duas opções: a escolha das rotas e a conclusão do zoneamento e a delimitação de reservas para evitar os erros acontecidos na recente colonização de Rondônia.

A grande polêmica, contudo, está na saída para o Pacífico, a partir do Acre, um projeto da ordem de US$ 2 bilhões, cujos interesses estratégicos, econômicos, geopolíticos dos grandes blocos (que sucederam a divisão do mundo feita na guerra fria) estão em jogo. De um lado, ecologistas (americanos, europeus, brasileiros) acusam o Japão de querer financiar a nova rodovia para pôr as mãos na madeira da Amazônia. De outro, agricultores brasileiros acusam boicote dos Estados Unidos, que temem perder a liderança no comércio para o Japão (quase 10.000 km mais perto do Brasil com a Estrada do Pacífico).

Inauguração – Não foi à toa que o presidente Fernando Henrique Cardoso destacou o ministro interino Alderico Lima para representá-lo junto ao governador Jorge Viana na solenidade de inauguração do primeiro trecho da BR-317, parte de um total de 111 quilômetros da Estrada do Pacífico no território acreano, considerada uma das mais estratégicas do país, pois, quando estiver pronta, no primeiro semestre do ano que vem, servirá para inserir o governador Jorge Viana na lista dos estadistas que aliaram a prática ao discurso da integração latino-americana.

No lado peruano, a rodovia deixa Assis Brasil sobre o rio Acre, cruza a cidade fronteiriça peruana de Iñampari e ruma 230 km de boa estrada pavimentada, toda piçarrada, até Puerto Maldonado, situado à margem do rio Madre de Dios, que no Brasil se chama rio Madeira. Dali ganha-se os Andes, encontrando Arequipa a pouco mais de 370 km, cidade de 1,2 milhão habitantes, situada a 2.800 metros acima do nível do mar, no sul do Peru. Arequipa também é berço da grande civilização Inca, sendo cercada de altas montanhas cobertas de neve e três vulcões.

A Estrada do Pacífico não apenas promoverá a integração da Amazônia no contexto internacional, pelo Oeste, como ainda fortalecerá a união entre o Brasil, Peru, Bolívia, Equador e Venezuela, que pretendem criar uma entidade comercial consistente entre eles, uma espécie de Merconorte, com eliminação de barreiras alfandegárias para acelerar o entrelaçamento entre estes países vizinhos e os Estados amazônicos brasileiros. (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 45)

 
Apolonildo Brito

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