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Jornalismo | Reportagens

Cientista Emílio Goeldi e o Contestado do Amapá

Sílvio Meira, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Pará, tem muitas obras de real interesse para a região. Entre eles pode ser incluída uma que fala sobre "Emilio Goeldi e o Contestado do Amapá”. Nessa abordagem, identifica a época (1889) em que o sábio suíço era diretor do Museu Paraense de História Natural e Etnografia, quando também desempenhou papel relevante para os amapaenses.

Conhecedor da região, cientista de renome internacional, Goeldi estava em condições de desvendar, para os seus conterrâneos, muitas dificuldades geográficas, histórias e até linguísticas, quanto à denominação de acidentes da região. Sua cooperação esta comprovada através de farta correspondência manuscrita. Assim é que, a nove de dezembro de 1898, escrevia de Berna, ao Barão do Rio Branco, estando este na França, Goeldi, embora de nacionalidade chega, escrevia a Rio Branco em português. E o fazia com muita simplicidade e franqueza. Solicitava instruções, ordens, determinações e diretrizes. Em virtude de problemas de saúde com sua esposa, Goeldi deixou de comparecer a Paris, conforme fora solicitado por Rio Branco. Ao se justificar, Goeldi ressaltou na carta, no entanto, que as instruções recebidas seriam rigorosamente observadas: “não perdi de vista a recomendação de procurar uma tipografia capaz; estes dias estarei de posse de umas informações reservadas que pedi a pessoas de minha confiança".

Em 20 de fevereiro de 1899, Goeldi, doente com pneumonia, se vale de sua esposa para manda ruma carta ao barão, na qual informa que “acerca dos tipos portugueses e espanhóis vou tomar providencias imediatas no sentido da recomendação. Lancei as minhas vistas sobre o mapa de Brosseau. A tal colônia certamente não é outra coisa se não o ensaio colonisatório feito com uma dúzia de famílias do Rio Grande do Norte, no ultimo período da administração Lauro Sodré. Bem orientado sobre este ensaio que malogrou conforme me consta, está o Sr. Egydio Salles, da Secretaria do Pará, pelas mãos do qual correrão todos os fios da empresa. Da “Traillourde” do Sr. Brosseau, facilmente se vê que também não é outra coisa se não o nome estropiado de Tralhote. Quanto à população do Contestado, sinto ter que dizer que os materiais que in loco colecionei são rebeldes para uma rápida orientação, “Estrangeiros" não tem senão no Calçoene. Se o Sr. Brosseau orça o seu número em sete mil, certamente nada menos de três quartas partes cabe à imigração nômade dos mineiros franceses nas cabeceiras do dito rio. Entretanto, ouvi a bordo do vapor Ré Umberto, que nos trouxe do Pará, pela boca de um certo monsieur Sursin, engenheiro naquela região, que a população de Calçoene ultimamente não tinha sido maior que talvez umas três mil pessoas”.

Na oportunidade, Goeldi enviou um dos exemplares do boletim do Museu Paraense, chamando a atenção para um mapa inserido na pagina 416, no qual já se notava um “sensível progresso quanto à hidrografia de dois rios antes nunca bem levantados do lado guianês: Rios Maracá e Anauerapucú”. Mesmo enfermo, na Suíça, Gueldi se dedicava aos estudos de mapas que lhe enviava o Barão e oferecia sugestões e ensinamentos de toda ordem. Descia a minúcias, orientando o Ministro quanto a topônimos da região contestada ou enviando dados estatísticos demográficos, colhidos em mapas, livros ou mesmo em depoimentos pessoais.

A sexta carta enviada, datada de Belém, mês de fevereiro de 1900, é uma das mais longas. Goeldi regressara ao Brasil e já se encontrava à frente das pesquisas do Museu Paraense. Nela desce a minúcias em tomo de sua atividade na Suíça e demonstra como foi inteligente e sutil o seu trabalho verdadeiramente diplomático. O Governo suíço necessitava, sem dúvida, de esclarecimentos que só um sábio conhecedor da região poderia fornecer.   Nada melhor – enfatiza - do que a reprodução de seu texto integral, para que se tenha ideia do quanto fez o signatário em defesa dos direitos brasileiros. Eis alguns trechos da missiva: “dos peritos descobri dois em Zurich (se há mais ainda, não sei, os de Zurich mesmo não o sabem) em Basilea, onde muito boas relações tenho. Indaguei com muita prudência, sem encontrar vestígio algum: os que ensinam qualquer disciplina geográfica são todos os meus conhecidos, em parte até amigos dedicados; desconfio antes que seu eventual terceiro perito talvez em qualquer universidade da Suíça francesa”.

Em sua pesquisa, diz Sílvio Meira, “o cientista demonstra muito zelo, dedicação, com o desejo de colaborar honestamente, oferecendo subsídios geográficos, históricos e linguísticos a seu alcance. Os peritos suíços, par sua vez, eram homens de alta competência, incapazes de um deslize, desejosos de investigar cuidadosamente, mas precisavam de assistência, principalmente no que dizia respeito a certas/expressões de origem indígena, aplicadas a acidentes geográficos. Na verdade, conforme já vimos em outros passos deste livro, a denominação do rio Oyapock gerava enganos e confusões. Alguns tentavam distingui-los do Yanez Pinzon, denominação referida por alguns geólogos e historiadores. A 19 de julho de 1900, já de St. Gallen. “Escrevo estas quatro linhas de uma excursão a Suíça oriental. Tive diversas prolongadas conferências com o homem em Zurich e consegui derrocar as dúvidas, tanto que tenho a convicção, que ele se acha hoje inteiramente do nosso lado. Ele tomou porém de impor-se a mais completa reserva deixando-me ver categóricas ordens recebidas de Berna, enviadas poucos dias antes. Soube que a primeira reunião dos peritos estava para ser convocada para os próximos dias - julgo que ela ja se realizou durante esta semana. Não ousei escrever de Zurich; hoje toda prudência é pouca. E, convicto como estou, que as coisas estão em muito bom pé, de maneira a fazer bastante provável uma completa vitória, vale a pena de guardar a posição reservada, tanto mais que espero ter dentro de pouco ocasião de orientar oralmente V. Exia. sobre pontos essenciais”.

Goeldi escrevia sempre apressado, queixando-se de enfermidades e de problemas pessoais, numa linguagem muito singela, reflexo de sua alma simples. Não era um diplomata de carreira, mas um cientista, habituado às verdades cientificas, ao exame da natureza, investigador da fauna e da flora amazônicas. Sou mundo era outro, não o dos salões palacianos nem das antecâmaras oficiais. Devia fazer um grande esforço para servir ao Brasil, a uma causa justa, tendo como arma exclusivamente os elementos colhidos no estudo da história, da etnografia e geografia, assim como da linguística. Nota-as a sua preocupação no sentido do tudo esclarecer: de bem informar. Rio Branco, por sua vsz, estudioso profundo das questões a cargo do seu Ministério, usava os argumentos da verdade histórica, pesquisava, procurava onde encontrar colaboradores aquela altura da tarefa. Paes de Carvalho, governador do Estado do Pará, fora o intermediário entre o sábio e o diplomata. Aproximara-os; Aliara ao gênio político de Rio Branco a cultura e o savoir faire de Goeldi.

O tempo passava. Goeldi demonstrava ter pressa. Sabia que a decisão final teria que ser proferida até dezembro de 1900. Corria o mês de agosto. Os julgadores eram homens cultos, honestos, imparciais, que deveriam ser convencidos com argumentos baseados em dados científicos, nunca por motivos emocionais.

O acesso a alguns círculos governamentais lhe permitia dar, para aqueles homens de formação europeia, aspectos típicos da região. A colaboração do cientista tomava-se assim inestimável e uma garantia de que a verdade histérica haveria de prevalecer. O trabalho de Emilio Goeldi tomou-se de grande importância, mas nada valeria se Rio Branco não operasse em frente mais força e preparasse memórias admiráveis. Tudo indica que, com Goeldi ou sem Goeldi, o nosso direito haveria de prevalecer, diante das exaustivas razões constantes das Memórias de Rio Branco. Mas, sem ele, a vitória poderia tomar-se mais difícil. Os peritos necessitaram de esclarecimentos, completos. A matéria foi estudada com profundidade e probidade, com o desejo de acertar. Além do mais, cooperou na parte relativa a confecção de material.

Fato pouco conhecido e jamais divulgado está registrado em trabalho de Goeldi, redigido em alemão e publicado na Suíça, om que faz referencia à viagem cientifica que realizou, em outubro e novembro de 1895, a região da Guina. Visitou o Amapá, a vila devastada pelos militares de Caiena, e dá o seu testemunho doloroso da devastação empreendida pelos soldados de Audibort, Desmoup e Lunier. Reproduzimos esse depoimento que revela sua sensibilidade ante a desgraça que caiu como um tufão sobre aquela rica e malsinada zona do território pátrio. À página 159, Gueldi faz um hiato na exposição da matéria científica a fim de dar testemunho do que presenciou na Vila do Amapá. Corria o mês de outubro. Ainda haviam vestígios bem vivos da chacina realizada pelas tropas francesas. O cientista não esconde o seu estupor e a sua revolta. Na verdade um simples paralelo entre as perdas humanas de lado a lado põe um aspecto terrível: os franceses perderam soldados armados, em luta por eles atiçados; as vítimas brasileiras eram, em grande parte, mulheres, crianças, velhos e enfermos. Uma brutalidade inqualificável.

            Vertemos para o português as palavras de Gueldi: “contemplamos mais longe dos frescos monturos de destroços e resto de incêndios de 15 habitações, produto daquele horrível massacre de 15 de maio de 1895, contra a razão e o direito e sob a flagrante quebra de compromisso, através do então governador de Caiena – Charvein, chama-se ignóbil o diplomata de ignóbil lembrança – realizado pelos soldados da marinha francesa, que tudo reduziram a cinzas. Por toda parte ainda se acham vestígios daquela feia chaga da mais jovem história colonial francesa, estampada em madeiras carbonizadas, tetos queimados, portais arrombados, assim como inúmeros orifícios de balas nas paredes das casas do porto e da igrejinha. Creio com firmeza que em cada Frances honrado e sensato, tanto quanto a mim, que não pertenço a nenhuma das nações em conflito, diante dos túmulos, que guardam no cemitério do Amapá numerosas mulheres, crianças, anciões e enfermos assassinados, a involuntária pergunta explode – Quem carrega exatamente a responsabilidade neste escândalo sem remédio, que é um murro no rosto da civilização de nosso século. Gueldi tremeu de emoção ao avaliar mentalmente toda a extensão da tragédia que se abatera sobre aquela população distante do mundo civilizado, (Sílvio Meira – Revista Nova Amazônia – Edição 1)   

 
Apolonildo Brito

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