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Jornalismo | Reportagens

Lúcio Flávio Pinto - Carajás, uma história atribulada

Lúcio Flávio Pinto um jornalista que dispensa comentários. Ele ja foi premiado quatro vezes e é colunista diário do jornal "O Liberal”. Em 1985 recebeu o diploma Prêmio Esso Regional Norte de Reportagem, conferido por uma comissão de julgamento, e um cheque no valor de um milhão de cruzeiros das mãos do Superintendente da Esso, em Belém. Além de vários trabalhos jornalísticos, inúmeras obras de repercussão foram publicadas por Lúcio Flávio.

Lúcio Flávio Pinto destaca-se pela publicação de matérias jornalísticas em defesa da Região Amazônica, como  "Carajás, o ataque ao coração da Amazônia," “Amazônia anteato da destruição" e Amazônia no rastro do saque” que lhes deram maior credibilidade como jornalista e profundo conhecedor da problemática amazônica. Nesta edição da Nova Amazônia, Lúcio publica "Carajás, uma historia atribulada".

Em 1954, o Departamento Nacional de Produção Mineral contratou uma firma particular brasileira, a Prospec, para realizar entre os rios Araguaia e Xingu, com dinheiro da SPVEA, a primeira aplicação em larga escala da fotogeologia no país. Os resultados desse trabalho porém, foram de certa forma frustrantes: a região tinha principalmente calcário, sem qualquer interesse devido a sua grande distancia dos centros econômicos.

Doze anos depois, porém, uma subsidiaria da norte-americana Union Carbide (a Codim) descobriu manganês nessa area, na serra do Sereno. A -descoberta animou a maior siderúrgica do mundo, também norte-americana, a United States Steel, que decidiu instituir um programa especial de prospecção, o BEP (Brazilian Exploration Program). Sua preocupação era a de acabar com a dependência do suprimento exclusivo do Gabão feito por uma subsidiaria. A África atravessava então um período de grande instabilidade política.

A USS requereu junto ao DNPM 28 areas para pesquisas, usando o nome de funcionários como prepostos, além de sua subsidiaria brasileira, a Companhia Meridional de Mineração. Os requerimentos abrangiam quase toda a Serra dos Carajás e, no primeiro dia de trabalho, o geólogo Breno Augusto dos Santos descobriu o que depois iria se revelar como a maior jazida de ferro de alto teor do planeta, com 18 bilhões de toneladas (medidas, indicadas ou inferidas, mas que pode ser muito mais porque as pesquisas nao abrangeram todo o universo possivel de minério).

 

O comando da United Steel

Começava então uma das mais conturbadas historias de projeto de mineração no país, que desembocaria no mais grandioso e ousado programa de investimentos. De 1967 a 1970 se desenrolaria uma disputa entre a Steel, detentora dos direitos sobre as jazidas de ferro, e a Companhia Vale do Rio Doce, empresa estatal que é a maior vendedora de minério de ferro no mercado interoceânico. Maria Clara Soares, num estudo sobre o Projeto Carajas, diz que o então diretor-geral do DNPM, Francisco Moacyr de Vasconcelos, sustou o processo de concessão de lavra a US Steel, que ficou paralisado desde o final de 1967 até meados de 1969, “quando, então, foi exigida a entrada da CVRD no projeto, na condição de sócio majoritário". A Steel concordou, juntando seus requerimentos (80 mil hectares) aos da CVRD

(também 80 mil) e assinando um acordo para a execução de um programa unificado de pesquisa, ficando a Meridional encarregada da execução dos trabalhos, com a colaboração técnica da Vale. Foi criada logo em seguida uma nova empresa, a Amza (Amazônia Mineração), na qual a CVRD detinha 50,9% do capital e a USS 49,1%.

Apesar de ter apenas três das quatro diretorias, a sócia estrangeira controlava o principal setor, de engenharia, que tinha sob a sua jurisdição a Valuec Serviços Técnicos, empresa de consultoria criada para realizar o estudo de viabilidade técnico-econômica do projeto. A Vale tinha 51% do capital da Valuec, mas a empresa de consultoria estava subordinada ao diretor de engenharia da Amza, nomeado pela US Steel, que pode comandar toda a definição do empreendimento, concluída em 1974. Esse controle provocou uma onda de protestos contra a forma de escoamento escolhida para o minério, através de uma ferrovia indo de Carajás até o litoral do Maranhão. Dizia-se que o objetivo da Steel era o de vender trilhos e por isso ela descartou a solução hidroviária, feita inteiramente dentro de território paraense.

Quando o estudo de viabilidade foi conclufdo, em maio de 1974, o Projeto Carajés custaria 930 milhões de dólares, 45% dos quais aplicados na ferrovia de 900 quilômetros de extensão e 17% no porto, os dois principais itens. O inicio das operações industriais seria em 1978, com a exportação de 12 milhões de toneladas, completando-se em 1985, quando a produção atingiria 45 milhões de toneladas.

 

A fase de desentendimentos

O cronograma de implantação do empreendimento, porém, começou a atrasar: a USS protelava as decisões e não aplicava a sua parte do capital. Aparentemente, seu objetivo era o de retardar ao Maximo o inicio operacional de Carajás: afinal, através de outra subsidiaria, a Orinoco Mining, a Steel estava extraindo minério do Cerro Bolivar, na Guiana venezuelana, considerada a maior jazida de ferro do mundo (embora de teor inferior ao de Carajás). Em 1972, 60% dos 3,5 milhões de toneladas exportadas pela Venezuela destinavam-se ao mercado norte-americano.

A impossibilidade de acordo entre a Steel e a Vale levou ao rompimento da sociedade em julho de 1977- a multinacional retirou-se da Amza, recebendo 55 milhões de dólares de indenização. Até essa época, tinham sido investidos,

Aproximadamente, US$ 35 milhões nas pesquisas e estudos de viabilidade, mas praticamente apenas com dinheiro da Vale. Mesmo saindo, a Steel ainda assinou um contrato, com direito de comprar até metade da produção de ferro. A partir desse momento, a Vale do Rio Doce passou a atuar em duas frentes: conseguir sócios que substituíssem a Steel e arranjar dinheiro para realizar o empreendimento. Na época, o custo do projeto tinha sido calculado em US$ 3,5 bilhões (dois bilhões de dólares só na ferrovia), o que assustou interessados potenciais como a japonesa Nippon British Steel ou a espanhol Hornos de Viscaya.

O mercado siderúrgico internacional também vivia nessa época uma de suas crises, que haviam feito a US Steel reduzir ou dispensar a semana de trabalho de quase dois mil empregados e a programar a dispensa de sete mil. As maiores empresas estavam trabalhando com capacidade ociosa.

 

Novo perfil para Carajá

Por isso, em julho de 1977,o então das Minas e Energia Shigeaki Ueki, anunciou que a execução de Carajés ficaria condicionada à recuperação da economia mundial. O projeto foi redimensionando: a meta de produção passava a ser de 20 e não mais de 50 milhões de toneladas anuais, a ferrovia não seria mais eletrificada e a sinalização perderia a sofisticação. O custo teria que baixar para US$ 2 bilhões. No ano seguinte, a Vale do Rio diagnosticou uma recuperação do mercado à médio prazo e resolveu assumir sozinha os custos de Carajés.

Em fevereiro, o Conselho de Desenvolvimento Econômico autorizou o início das obras secundárias para a ferrovia, sendo posto em licitação o trecho de 82 quilômetros, na baixada maranhense. Em outubro, o CDE aprovou o Projeto Ferro de Carajés, que previa o início da produção de ferro em 1985 (15 milhões de toneladas), a um custo de US$ 2,8 bilhões, dos quais 64% aplicados na ferrovia, 19% na mina, 9,5% no porto e 7,5% na infraestrutura. A CVRD entraria com 41% dos recursos, outros 33% seriam obtidos através de empréstimos dentro do país e 26% seriam empréstimos externos.

Um mês depois, porém, algo mais grandioso também era aprovado pelo CDE: o Programa Grande Carajás, logo depois traduzido em Plano de Desenvolvimento da Amazônia Oriental. Seu objetivo: estimular a instalação de um vasto conjunto de empreendimentos, capaz de duplicar as exportações brasileiras, conseguindo mais dólares para o pagamento da divida externa do país. (Lúcio Flávio Pinto – Revista Nova Amazônia – Edição 1)

 

 

 

 
Apolonildo Brito

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