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Parintins, a ilha da fantasia amazônica

Dividida pelas cores azul e vermelha dos Bumbás Caprichoso e Garantido, Parintins, cidade típica amazonense, se transforma, num passe de mágica, nos últimos dias de junho, em palco da maior manifestação cultural do Norte do Brasil – o Festival Folclórico de Parintins. O show folclórico é o maior espetáculo cultural a céu aberto do Brasil, só comparável ao Carnaval do Rio de Janeiro, porém com características teatrais, cultura e mais arte regional

O espetáculo proporcionado pelos grupos folclóricos da Ilha Tupinambarana compensa qualquer despesa ou sacrifício para assistir ao espetáculo de cerca de seis mil brincantes e mais de 35 mil espectadores que assistem ao vivo o mega-show amazônico das arquibancadas ou dos camarotes do Bumbódromo Amazonino Mendes. Milhões de telespectadores da Amazônia também acompanham pela telinha do SBT o arrebatador evento que conquistou o mundo inteiro.

Se o tradicional bumba-meu-boi se tornou a manifestação folclórica mais difundida no Brasil, Parintins deu-lhe grandiosidade e beleza, transformando-o na maior festa popular do país, depois do Carnaval, é claro. Pode-se dizer, sem medo de errar, que Parintins recriou o Bumbá, incorporando elementos culturais da Amazônia, sem desrespeitar suas raízes tradicionais. Este fato dinâmico pode ser constatado a cada ano que passa no Bumbódromo construído nesta cidade amazonense que recebe milhares de visitantes em todos os fins de junho. Até mesmo o Carnaval do Rio de Janeiro se curvou à pujança cênica do Boi de Parintins e a apresentou como enredo no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, várias vezes, cativando artistas e estilistas internacionais, como Joãozinho Trinta e Hans Donner. Este afirma que Parintins é o lugar do mundo que concentra o maior número de artistas por metro  quadrado.

As origens do Boi de Parintins são imprecisas, mas há quem garanta que ele nasceu no fim do século passado, trazido pelos “Soldados da Borracha” nordestinos, ainda como um folguedo junino, na forma do tradicional Bumba-meu-boi do Maranhão. Mais tarde, em 1913, Lindolfo Monteverde fundou o Boi Garantido à véspera do dia de Santo Antônio. Anos depois surgiu o Boi Caprichoso, criando a rivalidade que hoje dá magnitude ao Festival de Parintins.

No começo era apenas uma “brincadeira” de rua do período junino. Mas, quando ambos se encontravam em alguma parte da cidade, a rivalidade passava às vias de fato, em brigas corporais. Os bois de pano também se enfrentavam, lutando literalmente a chifradas até à destruição total, quando era a vez dos “tripas” (dançarinos sob os Bois) se engalfinharem em plena praça pública. A rivalidade entre Garantido e Caprichoso cresceu ao ponto de polarizar as opiniões em Parintins e anular outros bumbás da Ilha Tupinambarana.

A cidade ficou dividida entre as cores azul e vermelha. Houve tempo em que até os assentos nas igrejas eram divididos entre os simpatizantes dos Bois Garantido e Caprichoso. Hoje vê-se casas com desenhos e cores dos Bumbás, inclusive fundos de piscinas pintados de vermelho. Imagine!

Mas os festivais deram grandeza à disputa no campo da criatividade dos artistas e artesãos de Parintins. O canto virou toada, o boi de pano e tala ganhou movimento com o artesão Jair Mendes e o folguedo tradicional deu lugar a fantasias e grandes alegorias inspiradas na cultura regional. Enfim, Parintins recriou o Bumbá, dando-lhe a dimensão amazônica que o consagra, o que chamou a atenção do então governador do Amazonas, Amazonino Mendes, que construiu, em 1988, anfiteatro que é o Bumbódromo.

História do folclore do Boi de Parintins

O Boi-bumbá é o folguedo brasileiro de maior significação estética e social, apresentando considerável dinâmica de adaptação no país. Várias partes do Brasil “brincam” ou já “brincaram” o Boi sob denominações diferentes, mas pouca gente sabe que o Bumba-meu-boi, como é conhecido no Maranhão, surgiu no meio da escravidão em nosso país, bailando, saltando, espalhando o povo folião, sucutando grito, correria, emulação. O negro, que desejava reviver as folganças que trouxera da terra distante, para distender os músculos e afogar as mágoas do cativeiro nos meneios de danças lascivas, teve participação ativa nesta criação genial, nela aparecendo, dançando, cantando, enfim, vivendo. Os indígenas, que também se sentiam escravizados, logo simpatizaram com a “brincadeira” e passaram a representá-la, incorporando seus valores culturais. O branco entrou de quebra na “brincadeira”, grupo do qual se destacam os padres jesuítas (criadores do teatro religioso no Brasil), que aproveitaram a carona do então incipiente folguedo, para sua missão catequética, incorporando os temas básicos da conversão (batismo) e da ressurreição. Por isto, no decorrer de seu ritual, o boi morre e ressurge depois de uma seqüência de cenas, inclusive do batismo de guerreiros indígenas.

Para Roger Bastide (Sociologia do Teatro Negro Brasileiro), o Bumba-meu-boi, mesmo tendo origens extrabrasileiras, não deixa de ser, como auto teatral, uma criação autêntica da cultura popular brasileira. “Há quem pretenda filiá-lo ao boi Ápis. Conversa, o bumba é nosso! É aqui do Norte. Síntese bonita das três raças tristes: o atabaque do negro, a coreografia do índio e a indumentária do branco”, afirma Carlos de Lima.

O escritor Mário de Andrade define a dança que consagra o Bumbá como um poderoso elemento catalisador de indivíduos, tornando-se metáfora da nacionalidade brasileira. “O notável, no Bumba-meu-boi, é a posição ridícula em que se encontram (na trama) as classes superiores. O folguedo é, em si mesmo, uma reivindicação – a da importância daqueles que lidam com o boi em relação a seus beneficiários”, explica Edison Carneiro, autor do livro “Dinâmica do Folclore”.

A maranhense Maria Michol, autora de “Matracas que desafiam o tempo...”, diz que, enquanto manifestação cultural, a palavra bumba, classificada como interjeição – equivale a zás, dando impressão de choque, batida, pancada. Assim, Bumba-meu-boi significa: Bate, meu boi! Chifra, meu boi! Avante, meu boi! É como um tipo de excitação que conclama ação-reação.

O Bumba-meu-boi ou Boi-bumbá ou simplesmente Bumbá conserva até hoje o seu estilo de sátira, procurando externar sua visão crítica da realidade e apresentar solicitações na defesa de direitos negados ou esquecidos. O ritual expressa a busca de afirmação e de identidade dos grupos marginalizados da sociedade, destacando-se entre esses o negro e o índio. Em Parintins, o tradicional folclore ganhou dimensão amazônica, voltando-se para a realidade regional, como brado da manifestação cultural das reivindicações das populações locais.

O Bumba-meu-boi foi desenvolvido no Brasil na época da colonização, no chamado “Ciclo do Gado” ou da “Civilização do Couro”, do qual o boi era o centro da economia colonial. Mas o primeiro registro que dele se tem notícia data de 1840, em Recife, Pernambuco, no periódico “O Capuceiro”, do padre Miguel do Sacramento Lopes, que classifica a “brincadeira” como tola, estúpida e destituída de graça, pela participação de negros, sobretudo pelas sátiras feitas. O segundo registro deu-se em Belém do Pará, em 1850, através da “Voz Paraense”, que fala do “Boi Caiado” como o “mais terrível folguedo de escravos, compartilhado por mais de trezentos moleques pretos, pardos e brancos, de todos os tamanhos”. O jornal acusava a “brincadeira” de provocar baderna, atentando contra a moral e à segurança pública e pedia a sua proibição pela polícia.

No mesmo ano, o jornal “O Velho Brado do Amazonas” registrava ocorrência do folclore na cidade de Óbidos, localizada na atual micro-região do Médio Amazonas. Ele via o “Bumbá de Óbidos” como “um folguedo de escravos, realizado na época junina por um bando de moleques, contra o qual se voltava a elite local”. O Bumbá era mal visto pela classe dominante e chegou a ser proibido em vários lugares do país. No Maranhão, por exemplo, a medida foi executada de 1861 a 1867.

O Bumaba-meu-boi maranhese

O Maranhão pode não ser o Estado originário do folclore, ou por onde ele entrou no Brasil, mas foi, sem nenhuma dúvida, onde a manifestação cultural mais se desenvolveu. Quando ali começou a “brincadeira”, ninguém sabe ao certo, talvez até mesmo antes do que provam os registros? O fato é que por muito tempo o folguedo junino era reconhecido como “Boi do Maranhão”.

Diferente de outros Estados, cujos bois possuem estilo definido, no Maranhão acham-se divididos em “sotaques”, que quer dizer: a forma e na sua maneira de ser. Esta divisão fundamenta-se em determinadas características específicas, que resultam em afinidades e diferenças no tocante à concepção, organização e maneira de apresentação da “brincadeira”, tais como o ritmo, o bailado, os instrumentos, o guarda-roupa, as toadas e o auto.

Os “sotaques” provêm de diversas regiões do Estado e são identificados como Matraca, Zabumba, Orquestra e Pindaré. O boi Matraca é próprio da Ilha de São Luís, capital do Maranhão. Sua denominação veio do fato de utilizar matracas como seu principal instrumento musical, ao lado dos pandeirões. O “sotaque” Zabumba possui maior influência africana e apoia-se em tantãs, tambores enormes de percussão rústica com ritmo mais lento, socado, lembrando a melancolia do banzo ou a tristeza das senzalas. O Boi de Orquestra é marcado pelo ritmo alegre, mais leve, produzido por conjunto de clarinetes, banjos, saxes e pistons, entre outros. Já o “sotaque” de Pindaré, vindo da Baixada Maranhense, apresenta matracas e pandeiros menores do que os Bois da Ilha (São Luís), resultando num toque mais leve, além de se caracterizar pelo guarda-roupa rico e exuberante, com grandes chapéus ornados de fitas e penas coloridas.

O auto do Bumba-meu-boi gira em torno da trama tradicional da morte e ressurreição do boi, cujos personagens principais são o Senhor Branco, Dona Maria e a filha Sinhazinha, o Amo, Pai Francisco, Catirina, as comadres Cazumbá e Guimá, o Padre e o Pajé, além de vaqueiros e índios.

A estrela azul do Caprichoso

A história do Boi Caprichoso não poderia ser melhor contada do que por Simão Assayag, várias vezes diretor artístico do grupo folclórico e um dos intelectuais dos Bois parintinenses, que já escreveu livros e tratados sobre o assunto. Segundo ele, no início deste século, um nordestino chamado Protásio resolveu “pôr um boi na rua”. Seria o primeiro de Parintins, nas palavras de Tomaz Cid, numa das muitas versões contadas. Depois chegou o boi de Tomaz Velasques, coberto com a sua própria rede de dormir, tamanha era a dificuldade de conseguir um “couro” de pano. Logo, surgiram os bois Galante e Garantido, quase na mesma época – 1922, 1924. Outros também falam num boi Fita Verde e de outros boizinhos que surgiram.

O Galante, que teria sido o primeiro rival do Garantido, era comandado por Emílio Vieira, conhecido por “Tracajá”.  De uma briga interna, contudo, teria surgido uma nova liderança no boi Galante. O grupo permaneceu unido, mas seu Emídio saiu da brincadeira, dando lugar a Pedro Cid, que construiu uma nova armação para o boi e trocou o seu nome para Caprichoso. Assim nasceu o boi Caprichoso, entre 1927 e 1929, ano da inauguração da luz elétrica em Parintins.

Na versão de Lurdita Lago Cecílio, na publicação Isto é Caprichoso, de 1982, o Boi Caprichoso teria vindo de Manaus, oriundo da Praça XV, em 1913, sob a orientação do coronel José Furtado Belém que, chegando a Parintins, reuniu simpatizantes para compor o folguedo, dentre eles Emídio Rodrigues Vieira, mais tarde seu primeiro amo.

São muitas as estórias sobre a criação dos bumbás de Parintins. Há quem diga que o Garantido nasceu de uma dissidência do Caprichoso ou o inverso, que este teria vindo dos descontentes do vermelhão. O fato é que a história de ambos é imprecisa, o que não importa para o belo espetáculo milionário que apresentam.

Centenário de Lindolfo Monteverde

       Se não fosse a veia poética e o espírito boêmio de Lindolfo Monteverde, que o levou prematuramente à morte, ele estaria festejando, este ano, o seu centenário de vida e o 81º aniversário do Boi Garantido. Lindolfo Monteverde ouvia muitas estórias do seu avô, ex-escravo de origem maranhense. Uma delas era a de um boi que dançava para divertir adultos e crianças. O boi era feito da carcaça (caveira) de uma rês morta, coberta com tecido. O corpo do boi terminava numa barra de tecido e a pessoa que fazia o boi dançar era chamada “tripa”. Além disso, havia toda uma história sobre o roubo da língua do boi que incluía o Pai Francisco, Mãe Catirina, o amo do Boi e outras figuras. Era o ritual do boi.

Lindolfo fundou o Boi-bumbá Garantido com a vontade de seguir a brincadeira que seu avô lhe ensinara, em 12 de junho de 1913, véspera do dia de Santo Antônio. O que começou como brinca-deira junina, ficou mais séria quando, ao servir no Exército, Lindolfo ficou muito doente e fez uma promessa a São João Batista. Se ficasse bom, seu boizinho não deixaria de sair na rua enquanto ele vivesse. Ele ficou bom e o Boi-bumbá Garantido é conhecido entre os brincantes mais antigos como o “Boi da Promessa”.

Todos os anos, no Curral do Garantido, acontece a ladainha, que é uma reza oferecida a São João Batista, padroeiro do Boi-bumbá, no dia 24 de junho. Até hoje, o Garantido sai pelas ruas de Parintins nos dias 12 de junho (véspera de Santo Antônio) e 24 de junho (São João) e dança na frente das casas que têm uma fogueira acesa. Antigamente, brincava também nos dias 29 (São Pedro) e 30 (São Marçal). Hoje, nestes dias, se apresenta no Bumbódromo. Os brincantes do Garantido adotam as cores vermelha (do coração) e branca (a cor do boi).

O Garantido já foi criado com o coração na testa, enquanto o Caprichoso adotou uma estrela na testa no ano de 1996. A fundação do Garantido deu-se na antiga estrada Terra Santa, hoje avenida Lindolfo Monteverde, onde se localiza o seu curral. Dizem que a voz de Lindolfo, primeiro levantador de toadas e tirador de versos, era tão possante e metálica que alcançava longa distância, isto sem utilizar qualquer aparelho sonoro. Suas toadas até hoje são conhecidas, aplaudidas e cantadas. Elas transmitem as saudades, os sonhos, as alegrias e os lamentos antigos.

Lindolfo Monteverde chamou o Bumbá de Garantido porque nos confrontos das ruas com os contrários (Campineiro, Galante, Caprichoso, etc.) a cabeça de seu Boi nunca quebrava ou ficava pendente. Ele dizia que o Garantido “sempre saía inteiro, isso era garantido”. E acabou sendo este o nome do Boi de Lindolfo. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 47)

 
Apolonildo Brito

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