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Jornalismo | Reportagens

Acre, a voz e a vez da Floresta Amazônica

Engenheiro florestal, Jorge Viana é o 13º governador da história do Acre, um Estado que está comemorando cem anos em que foi incorporado ao território brasileiro, depois de uma sangrenta luta com soldados bolivianos. O governador afirma que a grande meta de seu governo está se concretizando, que é colocar o Brasil às portas do Oceano Pacífico. Ele quer que o comércio brasileiro ficará cerca de nove mil milhas mais perto dos Estados Unidos e Ásia

Prefeito de Rio Branco, capital do Estado, de 92 a 96, o atual governador foi eleito em 98 por uma coligação encabeçada pelo PT e obteve a maior vitória eleitoral já registrada no Estado: além de eleger-se no primeiro turno com o dobro dos votos dos seus concorrentes, ainda ajudou a eleger o irmão Tião Viana senador e aliados com maioria de votos para a Câmara Federal e Assembléia Legislativa.

Virtual candidato à reeleição, o governador descarta o epíteto de fenômeno eleitoral e diz que a aceitação de seu nome junto ao eleitorado é fruto do trabalho feito na Prefeitura de Rio Branco e, agora, à frente do Governo do Estado. Mesmo sob intenso combate das forças de oposição, o governador está convicto de uma nova vitória da Frente Popular do Acre, como é chamada sua coligação. 

O governador comemora, por esses dias, a contratação, junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) de pelo menos R$ 350 milhões com os quais o governo vai dotar o Acre da infra-estrutura necessária para atrair o setor industrial. “Temos energia e teremos estradas – sem contar que estamos às portas do Pacífico, de frente para pelo menos 30 milhões de consumidores do Peru. Não temos dúvida de que a indústria brasileira, principalmente da área de alimentos, vai se interessar pelo Acre e queremos estar prontos para isso”, diz. Veja a seguir a íntegra da entrevista do governador, concedida com exclusividade à Amazon View, em Rio Branco.

Amazon ViewGovernador, como é que o Acre pretende se preparar para receber a indústria brasileira interessada em se instalar no seu Estado?

Jorge Viana – Quando chegamos no Governo encontramos um Estado sem perspectiva, no fundo do poço. Os salários dos servidores públicos estavam atrasados e os serviços essenciais emperrados porque o Estado estava inadimplente com vários órgãos e instituições financiadoras. Depois de levantarmos todos os dados dessa situação de calamidade, passamos a trabalhar para sanear o Estado. Pagamos o que era possível pagar e negociamos dívidas. Pagamos uma média de R$ 9 milhões por mês de dívidas de outros governos junto a organismos federais. Só em relação à extinção do Banacre, o banco estatal, a dívida é de R$ 130 milhões e que deve ser paga em 30 anos. Mas o mais importante: pagamos os salários atrasados, aumentamos a folha em mais de 50% com os mesmos servidores – o que significa aumento real de salário e colocamos os pagamentos em dias...

Amazon View – E como isso foi possível num Estado pobre como o Acre, que depende, basicamente, de repasses do governo federal?

Jorge Viana – Não foi nenhum milagre. Tudo isso é o coroamento do trabalho de uma equipe técnica que tenho a honra de coordenar. Tenho orgulho disso porque dos 27 Estados brasileiros, o Acre é um dos que melhor tem suas contas saneadas e isso foi reconhecido por organismos como o BNDES e o BID. Assinamos contrato com esses dois bancos para empréstimos na ordem de R$ 350 milhões, que serão investidos em todo o Estado na área de estradas, de agricultura, extrativismo, energia e outros setores importantes para a criação da infra-estrutura necessária para um Estado que está pronto para se desenvolver. Agora mesmo estamos asfaltando a BR-317, que liga os Municípios de Brasiléia e Assis Brasil, numa faixa de 111 quilômetros na fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru. Estamos colocando, em parceria com o governo federal, o Brasil às portas do Oceano Pacífico. Com essa estrada e os investimentos que o governo peruano deve fazer em complementação ao que estamos fazendo no Brasil, significa dizer que a indústria brasileira, inclusive a que produz eletroeletrônicos na Zona Franca de Manaus, terá diminuída em pelo menos nove mil milhas náuticas a distância para os Estados Unidos e a Ásia. Os produtos amazônicos não mais precisarão viajar o país todo para atingir os portos de Paranaguá, no Paraná, ou o Porto de Santos, em São Paulo, para chegar finalmente aos mercados dos Estados Unidos e da Ásia. O caminho natural será o Acre, através da Estrada do Pacífico. Depois de abrir esse caminho, nossa luta agora é para que o Acre não seja apenas um corredor de exportação.

Amazon ViewComo isso será possível?

Jorge Viana – No ano passado, fiz palestras no Clube Monte Líbano, em São Paulo, para comerciantes, industriais e outros empresários. Lá estavam do presidente da Varig, o ex-ministro Ozires Silva, a executivos da Pirelli e de bancos internacionais. E eu não estava ali porque seja importante ou coisa parecida. Estava ali porque sou governador do Acre, um Estado amazônico e que, como toda a Amazônia, está atingindo um grau de importância muito grande para a economia mundial. Nós compreendemos isso cedo e nos preparamos para fazer do Acre um pólo de matérias- primas que só a Amazônia tem e que todo o mundo está interessado, que são os produtos fármacos e agroflorestais. Nosso lema é “governo da floresta”. Isso não é por acaso. Queremos dizer ao mundo o quanto a floresta é importante economicamente – desde que utilizada com sabedoria e respeito ao meio ambiente e aos povos tradicionais. É esse tipo de indústria que queremos atrair. É claro que não descuidamos da pecuária, que também está contemplada neste projeto do BID, e de setores importantes, como a agricultura.

Amazon ViewEsse seria o sonho de Chico Mendes?

Jorge Viana – Eu penso que, esteja onde estiver, o Chico está muito contente com o nosso governo, com tudo aquilo que estamos fazendo. Tenho a impressão de que o nosso governo está realizando o sonho de Chico Mendes e de tantos outros companheiros que literalmente deram suas vidas em nome das causas que nosso governo defende através da implantação de políticas públicas que levam em conta os povos tradicionais e os mais humildes. Não tenho dúvida de que nosso governo fez uma opção pelos pobres. Não temos nada contra o rico, aqueles que já têm tudo – mas é que também temos tudo a favor daqueles que não têm nada. A concepção das reservas extrativistas foi elaborada por Chico Mendes e este é um modelo de desenvolvimento que estamos perseguindo. Isso tem dado resultado porque, na capital e no interior, famílias inteiras que viviam nas periferias, algumas com muitas dificuldades, estão voltando para as florestas para fazer aquilo que elas mais sabem, que é explorar a floresta com sabedoria.

Amazon View Até recentemente o Acre era constantemente citado em manchetes escandalosas. Como foi possível mudar isso?

Jorge Viana – O Acre é uma terra de um povo generoso e trabalhador. Os escândalos nos quais o nome do Acre era envolvido nada tinha a ver com o seu povo. Os escândalos eram produto de uma elite política cujo comportamento não levava em conta as reais aspirações do nosso povo. No governo, fizemos ao contrário: chamamos o povo, através de suas lideranças, sindicatos, associações, ONGs e todos quanto quisessem discutir o futuro do Acre. As elites que patrocinavam os escândalos foram isoladas. Os assassinatos a soldos acabaram e o esquadrão da morte foi desarmado através de um movimento que envolveu várias instituições, o Ministério Público, a Polícia Federal, a Câmara dos Deputados. É claro que essas instituições encontraram no nosso governo um aliado confiável e juntos trabalhamos para tirar o Acre das páginas policiais. Hoje o Acre freqüenta as páginas de economia e de política da imprensa nacional. A gente abre uma “Folha de São Paulo”, um “Jornal do Brasil”, um “Valor Econômico”, o “Estadão” ou mesmo liga a TV nos mais destacados noticiários do país e, de vez em quando, lá está o Acre sendo citado como um lugar onde há um exemplo de respeito ao dinheiro público e de uma nova forma de fazer política. Esses mesmos jornais citam, com freqüência, o nome da senadora Marina Silva (PT-AC) sendo cogitada como possível candidata a vice do Lula. Só isso já é motivo para orgulhar o Acre e toda a Amazônia. Quando foi que um político da Amazônia foi cogitado para governar o Brasil? Pois é. Para mim, mesmo que a Marina não seja a vice do Lula, só o fato de seu nome ter sido lembrado já me enche de orgulho porque ela é a cara da mulher acreana, a cara de um Acre lutador, determinado e ético.

Amazon ViewO senhor acha que o Lula ganha às eleições presidenciais?

Jorge Viana – Sou suspeito porque o Lula, além de um grande amigo, é um homem admirável. Sonho com ele presidente porque não tenho dúvida de que se trata, atualmente, do brasileiro mais preparado para exercer a presidência e o que mais conhece a Amazônia. Dos candidatos que estão aí, o Lula é o que mais vezes esteve na Amazônia e o que realmente conhece as necessidades do nosso povo. Torço para que ele chegue à Presidência porque acho que um governo petista e popular concretiza o maior sonho dos acreanos que é a ligação rodoviária do Acre de ponta a ponta. Aos poucos, estamos lutando para concretizar esse sonho, inclusive com a ajuda do presidente Fernando Henrique Cardoso – eu tenho que reconhecer. Mas se tivermos a oportunidade de termos o Lula na presidência, com certeza o Acre terá um aliado no Palácio do Planato.

Amazon ViewO senhor é candidato à reeleição?

Jorge Viana – Eu não tenho medo de desafios. Ainda não discutimos isso dentro do PT e dos partidos que apóiam o nosso Governo. Mas acho que o caminho natural é que a Frente Popular apresente o meu nome para buscar um segundo mandato. Da minha parte, posso dizer que estou pronto. Acho até que, depois de tudo o que fizemos, depois de sanearmos o Estado, de conseguirmos recursos para investimentos e para estabelecermos o Acre na geografia e no lugar do respeito que o nosso povo merece, seria uma irresponsabilidade não lutar para que esse projeto vá adiante. Estou confiante e sonho que, comigo no Governo e o Lula na Presidência, a gente coloque o Acre no devido lugar que merece, um Estado cujo povo optou em ser brasileiro e que há cem anos pegou em armas para definir seu destino. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 47)

 
Apolonildo Brito

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