Amazon View!

Matérias Temáticas | Cultura

Fibras, o fino toque do artesanato regional

O artesanato brasileiro é um dos mais ricos e exótico do mundo, com características marcantes pela sua beleza e criatividade. Fruto da diversidade cultural de seu povo, decorrente da influência do índio, negro e europeu, a produção artesanal também impressiona também abundância de matérias-primas utilizadas. Os chamados “produtos da floresta” têm mercado garantido, embora com produção ainda incipiente por falta de políticas que a promovam.

A história do artesanato se confunde com a própria história do homem, pois a necessidade de produzir bens de uso utilitário, ou até mesmo decorativo, o fez expressar sua capacidade criativa e produtiva de trabalho. Há quem diga, também, que depois que descobriu o uso do dedo polegar, o ser humano começou a criar obras de arte em argila, madeiras e fibras, utilizando as próprias mãos ou com instrumentos rudimentares.

Para sociólogo, etnólogo e folclorista Alceu Maynard Araújo (1964), o artesanato “é coisa que o homem cria, sem ensino formal, levado pela necessidade. São técnicas tradicionais e elementares de que o homem se serve para melhor subsistência no primitivismo imposto pelo meio”. E dentre todos os artesanatos, o brasileiro é um dos mais ricos em cores e formas, apresentando características marcantes pela sua beleza e criatividade.

Fruto da diversidade cultural de seu povo, decorrente da influência do índio, negro e europeu, o Brasil impressiona também pela grande abundância de matérias-primas. Sua história contribui para valorizar e aprimorar cada vez mais o trabalho de integração do brasileiro ao meio ambiente e matéria-prima, transformando-a na mais pura e primorosa forma de artesanato do Planeta.

Segundo fontes do Projeto Design Tropical (Fucapi), a diversidade formal do artesanato do Amazonas, em especial o feito de palha trançada, cipós e sementes, tem como traços comuns as matrizes culturais indígenas e caboclas – tramas geométricas e fortes contrastes de cores. O Projeto Design Tropical da Amazônia pretende ajudar os artesãos a superar as dificuldades, sobretudo da comunicação entre as comunidades produtoras e Manaus, centro urbano de distribuição dos trabalhos, atuando ainda na criação, aprimoramento, reprodução, divulgação e comercialização das peças produzidas.

Os chamados “produtos da floresta”, que hoje agregam valores da agrobiodiversidade, têm mercado internacional garantido, embora com produção regional ainda incipiente por falta de políticas que promovam a capacitação da mão-de-obra e a qualificação da matéria-prima. A grande demanda mundial pelos “produtos da floresta” se justifica pela consciência de que contribui para a preservação ambiental e para o desenvolvimento sustentável das populações tradicionais, pois o mercado estrangeiro não apenas aprecia nosso artesanato, como o compra para ajudar a região produtora e assim promover melhor qualidade de vida de sua população.

Fibras e cipós – A elaboração de peças artesanais a partir de fibras vegetais é uma atividade que atualmente tem promovido o desenvolvimento econômico de artesãos e comunidades do Amazonas, encantando pela criatividade e funcionalidade presente nos objetos, heranças significativas dos povos primitivos da região. A variedade e riqueza do artesanato em fibras vegetais do Estado revelam a formação étnica, social e econômica do homem da região e, ao mesmo tempo, mostram a criatividade e o talento de nossos índios e caboclos. Não importa a tribo ou a nação, a herança indígena está presente no artesanato, como referência fundamental da identidade do amazônida.

Os artesãos localizados às margens da bacia do rio Negro lideram a produção e a qualidade das peças feitas com fibras e cipós vegetais, com destaque para os municípios de Novo Airão, Barcelos e São Gabriel da Cachoeira, onde vivem as etnias Tucano, Tikuna, Baniwa, Macu, Dessana, Tariano, Wanana e Tuyuca, inclusive várias associações que trabalham no setor.

Arumã Membeca, Arumã Canela, Arumã de Terra Firme, Cipó Ambé, Tucumã, Cipó Timbó-Açu, Cipó titica, Braço de Buriti, Piaçava e Jacitara são usados para tecelagem; enquanto a Goiaba-de-Anta, Urucu, Ingá Xixica, Crajiru, Pacuá-Catinga, Macucuí, Cumati, Jacitara, Açafrão e casca de Castanheira servem para matizar a peça. Já o Cipó Ambé, Paxiúba, Curauá, Turi ou Ripeira e Cipó Apuí fazem arremates maiores em artefatos construídos com esses materiais, tais como tupé (esteira), peneira, chapéu, paneiro e abano, entre outros. O Arumã Membeca, o Cipó Ambé, o Arumã Canela, o Arumã de Terra Firme e o Tucumã são as matérias-primas mais utilizadas pelos profissionais amazonenses do artesanato em fibras. Para tingi-las, as sementes do Urucu e a resina da Goiaba-de-Anta são as mais indicadas.

O despontar do incremento ao comércio de objetos artesanais em fibras, cipós e palhas trouxe mais estímulo aos produtores, com aprimoramento na criação e produção de peças utilitárias e ornamentais. Aliando-se a isso, o manejo da extração das matérias-primas vegetais, que gerem o mínimo de impacto ao meio ambiente, com base na sustentabilidade, ganhou cuidados especiais devido a novas técnicas extrativistas e plantio seletivo.

O Arumã Membeca, por exemplo, é uma erva de grande porte, que nasce em touceiras nos igarapés de água preta, como o rio Negro. O Arumã é conhecido por vários nomes e serve para o fabrico de tupé (esteiras), jogos de mesa, luminárias e outros tipos de móveis pequenos. Da guia do Tucumãzeiro (Branco e Tucumãí), palmeira que produz um fruto muito apreciado pelos amazonenses, fabricam-se chapéus, abanos, leques e balaios; enquanto que do Cipó Ambé, planta que vive grudada em galhos de árvores altas, de cuja raiz madura se produz bolsas de mercado, chapéus, luminárias, cestas, fruteiras, porta-lápis, abanos e jamaxins. A fibra de Cipó Ambé também é usada para suporte no arremate da esteira (tupé).

O Arumã Canela também nasce em touceiras e é encontrado nos igapós (mata alagada). Em Barcelos tem o nome de Jacamim Canela, de cujas fibras se fazem peneiras, balaios, luminárias, urutus, tipitis, pega-moças, cestos de roupa e porta-garrafa, entre outros objetos. O Urucum ou Urucu, que é uma planta comum em quintais e jardins da região, tem muitas utilidades na comida e na medicina caseira, inclusive para tingir fibras de Arumãs, de Tucumã e de Cipó Ambé. A Goiaba-de-Anta é outro corante do artesanato e sua resina é usada para fixar outras tinturas.

Atualmente, os artesãos da região possuem maior autonomia e liberdade para criar e desenvolver suas habilidades, conforme a criatividade individual e as tendências do mercado crescente. No Amazonas, os objetos produzidos com as fibras vegetais ganham foros específicos em feiras e espaços construídos para abrigar as belas obras dos artesãos locais, como é o caso da Central de Artesanato Branco e Silva, espaço mantido pelo Governo do Estado, vinculado à Secretaria de Estado do Trabalho e Assistência Social - Setrab, que reúne 23 lojas de produtos, além de um salão para exposições e atividades culturais, além de restaurante e oficinas distribuídos em um agradável e espaçoso ambiente. Nele está exposto uma grande variedade de produtos amazônicos nas áreas da cestaria, tecelagem, escultura, entalhe, pintura e outros.

Numa das oficinas da Central de Artesanato, o artesão Veríssimo Ribeiro da Silva, 47, natural do Pará, trabalha há 15 anos com fibras vegetais confeccionando móveis como cadeiras, estantes, cestos, objetos para as mais diversas utilidades e decoração. A artesã indígena (Tukano) Maria das Dores Romão, 39, natural de São Gabriel da Cachoeira, ocupa a loja 24 há mais de um ano e afirma que o artesanato é aprendido nas comunidades Tukano, desde muito cedo. Maria das Dores faz questão de dizer que tem muitos clientes e belas peças produzidas por ela e seu irmão Sílvio Tukano, que lhe renderam reconhecimento profissional, uma homenagem da Assembléia Legislativa do Amazonas no Dia da Mulher e participações em feiras de artesanato.

Os ribeirinhos das comunidades Pedreira, Laranjal e Caxiuanã, no Pará, revelaram dons artísticos naturais no uso de elementos como talas de arumã, caroços de inajá e tucumã, varas de envira-preta, fibras de cipó-fogo e cipó-titica, fibras do buriti e argila. Longe dos aglomerados urbanos, eles não concebiam a produção artesanal para outros fins senão a utilização doméstica, por isso, com certo ceticismo, começaram a  participar do programa Floresta Modelo de Caxiuanã, da Estação Científica Ferreira Penna, do Museu Goeldi, cujo objetivo é produzir artesanato diversificado de melhor qualidade e também em série, como alternativa de ocupação e renda.

A Associação dos Artesãos de Novo Airão (Aana), no Estado do Amazonas, que participa do Projeto Fibrarte, produz artigos com fibras vegetais como vassouras de cipó, peneiras, tupés, chapéus, entre outros, buscando originalidade e acabamento, o que é um diferencial, apesar da baixa produção local. Outro fato marcante são os temas indígenas utilizados na produção artesanal da entidade, herança comum das comunidades do rio Negro.

Eduardo Figueira Filho, dono da Magia Amazônica, loja de artesanato localizada no Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, a maior da ramo no Brasil, é um profundo conhecedor e promotor do setor na Região Norte. Ele é também criador e mantenedor de uma entidade homônima que promove a produção de artesanato amazonense, possuindo uma espécie de albergue, escola e ateliê que abriga em Manaus vários artistas e artesãos, em especial do interior do Estado. A Magia Amazônica é a responsável, hoje, pelo artesanato mais representativo da região, despontando pelo bom gosto, identidade cultural e participação nos maiores eventos realizados dentro e fora do Amazonas, detre eles o Festival Folclórico de Parintins, considerado pelo marchand e promoter coma a maior vitrine da Amazônia.

Entusiasta da cultura e entrosado com os artesãos regionais, Eduardo Figueira tem se empenhado na busca de novas matrizes para o artesanato amazônico, organizando exposições e oficinas há cinco anos no Salão Paroquial da Catedral de Parintins, durante  o festival. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 78)

 
Apolonildo Brito

OUTRAS

Parceiros