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Jornalismo | Reportagens

Extremo Norte do Brasil esquecido pela geografia

Um erro que durou séculos começa a ser corrigido. A partir do ano 2000, os livros de Geografia trarão a informação de que o Extremo Norte do Brasil é o Monte Caburai, em Roraima, ponto que fica 84,5 km mais ao norte do que o cabo Orange, na foz do rio Oiapoque, no Amapá, tido até agora como o local mais setentrional do País.

A correção começou a ser feita ano passado, quando a Prefeitura de Uiramutã, Município onde está localizado o Monte Caburaí, promoveu expedição ao lugar, encerrada dia seis de setembro, véspera da Independência do Brasil. Os expedicionários cantaram o Hino Nacional e hastearam a bandeira brasileira no topo da montanha, que tem 1.456 metros de altitude, na fronteira com a República Cooperativista da Guiana, onde também, foi rezada Missa campal em ação de graças, com a presença, entre outros, do governador de Roraima, Neudo Campos; do presidente da Assembléia Legislativa, Almir Moraes Sá, e do deputado estadual Berinho Bantim. O coral indígena de Uiramutã foi destacado por ter entoado o Hino brasileiro na língua macuxi.

A expedição, organizada pelo então secretário do Meio Ambiente de Uiramutã, Platão Arantes, teve apoio do Exército, Aeronáutica e de diversos organismos públicos, como IBGE, Incra, Ibama, Funai, Universidade Federal de Roraima, Ministério da Educação, Coordenação Estadual de Turismo e Museu Integrado de Roraima. Participaram, também, profissionais especializados nas áreas de cartografia, engenharia florestal, botânica, jornalismo e antropologia, que fizeram registros e imagens em vídeo e fotografia.

Apesar do Monte Caburaí ser o ponto Extremo do Norte brasileiro, isto ainda é desconhecido da Nação. Até mesmo as Forças Armadas e o Ministério da Educação mantêm a equivocada informação que tornou conhecida a expressão ‘‘do Oiapoque ao Chuí’’, difundida principalmente pelos meios de comunicação falados, em especial a televisão.

No muro do quartel do Exército no município de Oiapoque, ainda está a inscrição “Aqui começa o Brasil”. Igualmente, o Ministério da Educação comete o erro geográfico ao permitir que livros didáticos continuem a sustentar que o Brasil começa ou termina no Amapá. Este erro, contudo, pode ser justificado pelo fato dos primeiros cartográficos terem pertencido a uma civilização marítima, portanto tendo o mar como principal referência. Assim, o cabo Orange, de fato, é o ponto Extremo Norte da costa brasileira.

Reconhecimento – O ministro da Educação, Paulo Renato, ao tomar conhecimento do assunto, durante o desfile de 7 de setembro, na capital federal, revelou o feito dos expedicionários roraimenses pela imprensa e declarou que determinará a modificação didática a respeito do ponto Extremo Norte do Brasil, a partir do próximo ano.

O Monte Caburaí fica na nascente do rio Uailã, que ainda demarca a fronteira entre o Brasil e a República Cooperativista da Guiana, conforme o Tratado de Madri, assinado em meados do Século XVIII, entre as potências coloniais. Nessa região situa-se o lendário Monte Roraima, com 2.875 metros de altitude, cujo platô tem relevo médio de mais de mil metros.

Esse pedaço setentrional do Brasil é uma região ainda a ser explorada turisticamente. Sua beleza natural é praticamente única no mundo: contrafortes do Maciço das Guianas, um dos sítios geológicos mais antigos do planeta. A região mescla florestas de montanha com cerrados limpos, tudo recortado por cursos d’água rápidos, formando inúmeras corredeiras, saltos e cachoeiras. É um paraíso para os turismos de aventura e ecológico!

A Expedição - Graças à iniciativa do prefeito de Uiramutã, Venceslau Brás, e ao empenho do repórter-fotográfico Platão Arantes, que há muito vem tentando corrigir o equívoco geográfico que coloca o cabo Orange, no Amapá, como o Extremo Norte do Brasil, uma expedição foi organizada, em 98, para conferir com modernos equipamentos de precisão as verdadeiras coordenadas do Monte Caburaí. O próprio Platão Arantes, então secretário do Meio Ambiente do Município, foi nomeado coordenador da expedição e fez preparativos para o projeto, buscando as parcerias necessárias para o feito que mudará a Geografia do Brasil.

A expedição teve início no dia três setembro de 1998 e término no dia seis. Nos três dias de acampamento no topo do Monte Caburaí, tudo foi pesquisado. A nascente do rio Uailã foi encontrada praticamente virgem. É uma região de difícil acesso e úmida, no meio de imensa bacia inundada e coberta por herbáceas, com predominância de plantas da família rapateaceae. Talvez tenha sido essa dificuldade natural que impediu a ida do pioneiro Cândido Rondon até ao verdadeiro ponto extremo do Brasil, ao Norte. Pelos novos expedicionários, a área foi utilizada para pousos de helicópteros, feitos em estrados de madeira sobre a vegetação. A outra parte do Monte é coberta de floresta.

A presença de raízes tipo sapopema, resinas e látex é constante na floresta, o que indica que o solo do ecossistema é raso, com muita matéria orgânica na camada superficial e piçarra. Abaixo dessa camada existe uma composição rochosa. Com tantas dificuldades, calcula-se que Marechal Rondon não tenha subido ao topo do Monte e as coordenadas feitas por ele tenham sido calculadas à distância, pelas estrelas e com utilização de sextante, como era comum na época. Prova disso é que no topo do Monte, na nascente do rio Uailã, não foi encontrado o marco que teria sido colocado por Rondon, na década de 30.

 Mas a 1ª Comissão Demarcadora de Limites do Ministério das Relações Exteriores, situada em Belém do Pará, diz que o Marco Internacional B-BG/11A está situado no Monte Caburaí, entre a nascente do rio Uailã, (afluente do rio Maú ou Ireng, na bacia do  rio Amazonas) e o rio Caburaí (afluente do Cucui, bacia do Essequibo), com as coordenadas geográficas N5º 16’19, 60/W60º 12’43, 29”. Esta pequena diferença da verdadeira coordenada é justificada pela preocupação das autoridades brasileiras de não entrarem em solos estrangeiros.

Na realidade, a nascente e o divisor do rio Uailã só puderam ser comprovados agora, através de equipamentos de precisão. A fonte do rio Uailã, a 1.456,10 metros de altitude, no topo do Monte Caburaí, fica situada a 5º 16’ 20” de Latitude e 60º 12’ 37. 3”, de Longitude, o que caracteriza que é o verdadeiro Extremo Norte do Brasil, fazendo fronteira com a República Cooperativista da Guiana.

O 7º Batalhão de Infantaria de Selva (7º BIS), por ordem do comandante, tenente-coronel Fernando Danziato Rego, teve importante participação no sucesso da expedição, tanto na fase preparatória como na execução do projeto. Igual mérito coube à Força Aérea Brasileira (FAB).

O Exército promoveu estágio de adaptação na selva, aos expedicionários, oferecendo noções básicas de orientação e sobrevivência: nós e amarrações, primeiros-socorros, preparação de área de pernoite, treinamentos táticos e concepção básica de selva. Além disso, vacinou os expedicionários contra possíveis doenças; forneceu transporte, material e equipamentos; abriu trilhas e a clareira onde foi colocada a cruz e o pavilhão-mestre Nacional, para serem hasteadas as bandeiras do Brasil, do Estado e do Exército.

A FAB, por sua vez, sob o comando do 1º tenente-aviador Francisco Donizeti da Silva, do esquadrão “ARPHIA” da Aeronáutica de Manaus, colocou dois helicópteros à disposição da expedição. O apoio aéreo foi fundamental no transporte dos expedicionários da vila de Uiramutã ao topo do Monte Caburaí e vice-versa. A Aeronáutica gastou 65 mil litros de querosene na operação. Sem este apoio a expedição se estenderia por mais de 30 dias, pela dificuldade de acesso à região.

O governo do Estado contribuiu com um ônibus, um avião Cessna e mais um helicóptero Esquilo, enquanto a Assembléia Legislativa ocupou-se em apoiar a formalização das parcerias e a obtenção das informações necessárias para o sucesso da missão. (José Ibanez – Revista Amazon View – Edição 27)

 
Apolonildo Brito

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