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O irresistível charme das orquídeas da Amazônia

A Amazônia, apesar do grande interesse que desperta na humanidade, ainda é uma área desconhecida de quase tudo o que realmente possui e envolta em muitos mistérios que têm despertado o imaginário do mundo inteiro. A rica biodiversidade regional, entre outras coisas, também abriga um gigantesco orquidário ainda por ser conhecido plenamente, cujo poder e fascínio da planta está levando aficionados e pesquisadores a desvendar paulatinamente.

Essa realidade começa a ser percebida agora com a descoberta de gêneros e espécies de orquídeas, planta que produz bonitas flores de cores e formas diversas e que viceja em locais variados, em terra ou como hóspede de muitas árvores. Assim como as rosas, as orquídeas inspiram glamour e romance, mais que qualquer flor. Elas trazem na beleza exótica que contêm, a a sua sutil sedução e o dominio avassalador da sua espécie. Assenhoram magicamente aquele desejo incontido da posse e aquela insaciável busca do harém floral.

As mulheres, por algum motivo indecifrável, têm verdadeira adoração pelas flores, mas a orquídea misteriosamente seduz o homem. João Batista Fernandes da Silva, estudioso da planta, revela que 90% dos orquidófilos do mundo são do sexo masculino.

‘‘A orquídea tem um poder de fascínio tão forte sobre o homem, que este, ao manter contato mais próximo com a planta, não a abandona mais. Isto é inexplicável. Flor é coisa de mulher, mas com a orquídea é diferente’’, extravasa João.

Pois essa multicolorida paixão dos homens tem a Amazônia brasileira como um dos seus berçários, talvez um dos maiores do mundo, tamanho é o número com que orquídeas vêm sendo descobertas, inclusive novos gêneros e espécies, e devidamente catalogadas para reconhecimento da comunidade científico-botânica do mundo. A flor tem tamanho poder de atração sobre o ser humano, que praticamente em todo o mundo existem entidades reunindo orquidófilos, sendo uma das raras plantas a conseguir tal admiração.  

Estigma - Estudiosos ensinam que o ambiente amazônico não é apropriado para a orquídea, cujos habitats comuns são as beiras de rios e alagados e áreas descampadas de clima quente. Coberta em enormes extensões por florestas que formam um clima úmido, a Amazônia não poderia deixar florescer as orquídeas.

Esse estigma intelectualizado era ou ainda é tão intenso que estudos anteriores a 1985 faziam registros de orquídeas brasileiras, sem citar a região de florestas do Norte do país. Mas a partir daquele ano o panorama começou a mudar.

Com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma equipe de pesquisadores saiu a campo e hoje no inventário que criou estão catalogadas 740 orquídeas, enquanto desde meados do século passado até 1985 elas não chegavam a quatrocentas na Amazônia.

No entanto, o número de orquídeas identificadas na Região é muito maior do que o registrado no inventário dos pesquisadores. Só João Batista Fernandes da Silva, em julho passado descobriu em Roraima 14 novas espécies da planta.

João diz que na fronteira do Brasil com a Venezuela existem mais do que as 14 espécies recentemente descobertas. Ele explica que a área é praticamente inexplorada em termos de orquídeas e arrisca que só no território roraimense, mais precisamente no monte Roraima, serras Pacaraima e Parima e ainda no Pico da Neblina existem mais orquídeas do que no resto da Amazônia.

Desmistificando a posição de estudiosos de que as orquídeas na Amazônia são poucas, o pesquisador João Batista Fernandes da Silva informa que descobertas atestam a existência de 120 gêneros da planta na Região, dos 275 de todo o Brasil.

Estados - João informa, ainda, que pesquisadores, entre os quais se inclui, trabalham no momento em identificar a existência de orquídeas na Amazônia, por Estado. Isto vem sendo favorecido pelo desenvolvimento do transporte na Região, agora não só por via fluvial, mas também por estradas e o uso da aviação.

Lançada ao mundo no século passado como artigo de valor  mercadológico, a orquídea chegou a ser uma das motivações de longas viagens de naturalistas à Amazônia, entre eles o famoso alemão Humboldt.

Ainda hoje a planta tem lugar destacado no ramo comercial de especiarias, porém na Amazônia alguns dos seus espécimes estão em vias de extinção, por causa do desmatamento predatório e da ocupação desenfreada de terrenos no entorno de centros urbanos.

O pesquisador João Batista Fernandes da Silva dá uma das muitas receitas que tem para as orquídeas não serem dizimadas: criação de orquidários, a exemplo dos que ajudou a ser erguidos em Barcarena, Urucu, Carajás e rio Trombetas.

Tem sentido. A continuar o desvario do homem de destruir a natureza sem sustentação, as orquídeas amazônicas inevitavelmente no próximo milênio não passarão de lembranças do Brasil, não para brasileiros, mas para estrangeiros, como é hoje a maioria das 377 espécies conhecidas até 1985, que ocupa herbários na Inglaterra, Alemanha, França, Rússia e Holanda.

 

O caçador de orquídeas

            A atração de João Batista Fernandes da Silva pelas orquídeas aconteceu há cerca de 30 anos, através de conhecimentos livrescos que adquiriu na biblioteca do Museu Paraense Emílio Goeldi, quando ali trabalhava como diretor do Departamento de Recursos Humanos. A esposa Manoela, então botânica do Goeldi, deu substancial apoio ao estudioso que surgia, posto que ela era a autora dos projetos de pesquisa de orquídeas.

Mas a gota foi uma ‘‘flor bonita’’, como narra, que encontrou no galho de uma árvore em viagem de férias a Conceição do Araguaia (sul do Pará). Não sabia que era orquídea. Descobriu comparando a ‘‘planta florida’’ com uma foto estampada num dos livros de Botânica do Museu Goeldi.

O encontro com a flor bonita, em Conceição do Araguaia, foi o ponto de partida para o hoje amante das orquídeas. Em 1980 já estava em Manaus, para onde a esposa tivera que ir após fazer mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Na capital amazonense João manteve contato com estudiosos de orquídeas e ajudou a fundar uma sociedade de orquidófilos, iniciativa que o fez se aprofundar com afinco no conhecimento da planta e ainda o fez de vez optar pela atividade de ‘‘mateiro’’ ou ’’caçador de orquídeas’’, segundo suas próprias palavras.

Hoje, João Batista Fernandes da Silva vive só para ‘‘caçar’’ orquídeas e por causa disso é um dos grandes colaboradores da ciência botânica, inclusive fotografando flores em seu habitat natural. Recentemente ele descobriu 14 espécies de orquídea na fronteira do Brasil com a Venezuela e é um dos fervorosos opositores dos que dizem não ser a Amazônia um ambiente apropriado para o vicejamento da orquídea.

‘‘É, sim’’, afirma, quando fala da Amazônia em relação à orquídea ou vice-versa. Acrescenta que só o Estado de Roraima possui mais orquídeas do que a Amazônia por inteiro e diz que a planta não desaparecerá, como vem ocorrendo com algumas espécies, caso a natureza não seja destruída.

João Batista lembra que a orquídea dá comumente em árvores, mas também no chão, compreendendo-se daí que se as árvores forem derrubadas e o solo devastado, a planta desaparecerá.

Prático quando se trata do seu amor, tem ajudado a construir vários orquidários, principalmente em volta de grandes projetos, como o de produção de alumínio em Barcarena (PA), Urucu no Amazonas e extração de bauxita no Município de Oriximiná (PA).

Faz isso, como diz, para não deixar que espécies de orquídeas sejam extintas ou levadas para o exterior, como aconteceu no século passado e ainda acontece neste final de segundo milênio. Ainda em defesa das orquídeas, no ano passado lançou o livro Orquídeas Nativas da Amazônia Brasileira - Gênero Catasetum L. C. Rich.  ex Kunth, onde mais uma vez a esposa Manoela F. F. da Silva está presente, dividindo o mérito de autoria da obra. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 25)

 
Apolonildo Brito

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