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Santarém, laços de beleza entre o céu e a terra

A tradicional Festa do Çairé, realizada anualmente na comunidade de Alter do Chão, localizada a 32 quilômetros do centro de Santarém, ganhou nova dimensão a partir de 1997, no governo do prefeito Joaquim de Lira Maia, quando aconteceram alterações no evento para dar mais dimensão regional à festa e introduzir o folclore do Boto no calendário de eventos da Amazônia. Eis as principais mudanças que ocorreram:

A primeira foi a mudança da data – de julho para setembro; a segunda veio na construção, ainda em caráter provisório, da Praça do Çairé, com a introdução do folclore do Boto, que será ampliado para comportar um público maior, digno dessa maior manifestação folclórica do Estado do Pará; a última, ocorreu justamente com a mudança da grafia da palavra, que deixou de ser iniciada com a letra S para ser escrita com Ç, respaldada pelo folclorista Câmara Cascudo e por diversos historiadores do folclore brasileiro, entre eles o paraense Carlos Roque.

A história dos 300 anos de Çairé é um tanto quanto acidentada. Sofreu uma paralisação de 40 anos (de 1943 a 1973), voltando a ser realizada por iniciativa de moradores da vila de Alter do Chão, numa tentativa de reviver a antiga tradição local. O belo e singelo folclore, até meados do presente século, tinha significação puramente religiosa, celebrando a Santíssima Trindade, com um semicírculo (o Çairé) de cipó torcido, envolvido por algodão e enfeitado com fitas e flores coloridas. O símbolo possui três cruzes dentro do semicírculo e outra na extremidade, representando as três pessoas da Santíssima Trindade e um só Deus – é uma criação indígena com base nos escudos portugueses.  Este estandarte segue à frente da procissão, conduzido por uma mulher, que recebe o nome de Saraipora.

Há registros de que o Çairé era canto e dança de certos índios da Amazônia. Em Alter do Chão, o que se conhece por Çairé é o seu símbolo, cuja versão corrente representa “o respeito dos índios, usado para homenagear os portugueses quando esses aportaram em suas terras”.  Somente com o passar dos anos é que outros valores folclóricos foram acrescentados, incluindo aí as danças do curimbó, puxirum, lundu, desfeiteira e quadrilhas. As outras danças foram incluídas aos poucos, obedecendo à iniciativa de moradores de Alter do Chão, descendentes dos índios Boraris.

São  cinco  dias de muita música, dança e rituais resultantes do entrelaçamento social e cultural entre os  colonizadores portugueses e índios da região do Tapajós, manifestação que mistura elementos religiosos e profanos, começando com o hasteamento de dois mastros enfeitados, seguido de ritual religioso e danças folclóricas desempenhadas pelos moradores da vila. No último dia, na segunda-feira, ocorrem  a “varrição da festa”, a derrubada dos mastros, o marabaixo e a quebra da macaxeira da “cecuiara” (almoço de confraternização). A programação termina à noite com a festa dos barraqueiros. Mas é a apresentação do folclore do Boto e shows que atraem multidões ao famoso balneário santareno, no período do Çairé.

O Çairé 99 acontece do dia 9 a 13 de setembro, envolvendo o tradicional ritual religioso, manifestações folclóricas variadas, shows artísticos e

apresentação dos Botos Tucuxi e Cor de Rosa no Çairódromo, além de arraial e do delicioso banho no paradisíaco Lago Verde, em frente à vila de Alter do Chão.

 

Sedução, morte e ressurreição na trama ecológica do Boto

A fauna amazônica é uma fonte inesgotável da cultura popular e inspirou os folguedos que abundam em toda a Região. Os “cordões” de pássaros e bichos alegraram e ainda alegram gerações nas quadras do mês das fogueiras, dentre eles o do Boto, que se destaca pelo fascínio que suas lendas encarnam, cercadas de mistérios e erotismo. Quando a atual administração municipal começou a discutir as mudanças necessárias ao desenvolvimento da Festa do Çairé com a comunidade de Alter do Chão, a encenação da lenda do Boto caiu como uma luva, em virtude do  romantismo que a localidade provoca. O cenário não poderia ser melhor para reviver o ser encantado. Artistas, historiadores, folcloristas e coreógrafos foram convocados para sistematizar a trama do espetáculo, criar a ideologia, o ritual e as toadas, baseados no antigo folguedo e na mitologia amazônica.   

Cada Boto leva um enredo por ano, desempenhando uma trama (teatral), com rituais trazendo lendas e personagens do folclore regional, inseridas no próprio contexto da “brincadeira”. A trama tem ideologia ecológica e celebra, como no Boi-bumbá, a morte e a ressurreição do principal personagem, herança da catequese jesuítica. No caso do Boto, na terceira parte do ritual ele é arpoado e morto pelo pescador porque emprenhou cunhantã borari, filha da poderosa Principaleza, a senhora do Lago Verde. Mas logo é ressuscitado pelos pajés da tribo, depois do cerimonial da mufama (clareira aberta na floresta). A apoteose acontece com a ressurreição do Boto. É o final da festa.

Os enredos são divididos em três partes. No ano passado, o Tucuxi apresentou a chegada do branco na região, com troca de prendas entre eles e a entrega do símbolo do Çairé pelos jesuítas; desfile de lendas regionais, inclusive a história do Boto e apoteose final, que é comum aos dois cordões.

O Boto Cor de Rosa narrou a chegada do primeiro homem à Amazônia, antes de Cabral descobrir o Brasil, quando o navegador Pedro Pacheco teve o primeiro contato com o Boto na foz do rio Amazonas.

Os personagens – O critério de julgamento do folclore baseia-se em pontuações de 22 itens obrigatórios. Dentre os personagens destacam-se o Boto, o Tuxaua e a mulher dele, Principaleza do Lago Verde, que tem o maior poder na tribo (sistema matriarcal instituído pelos jesuítas logo que chegaram à região). Maria Maçara foi no passado uma famosa Principaleza de Santarém.

Além desses, também figuram a Rainha do Çairé; o Pajé; a cunhantã-borari, bela filha da Principaleza; a porta-estandarte; os pescadores e tribos indígenas. Cada um representa um  item e também contam pontos os destaques de tuxauas e indígenas, as alegorias de lendas, a coreografia, a cronometragem, o apresentador do Boto e o puxador de toadas, dentre outros.

O ápice do enredo é quando a natureza se revolta com a morte criminosa do Boto, fazendo surgir no Lago Verde, a arena do Çairódromo, personagens malignas da lenda amazônica, obrigando o cacique a se arrepender e chamar o pajé para ressuscitar o golfinho.

 

Resgate da memória cultural

Como Parintins, que recriou o folguedo do Bumba-meu-boi para dar grandeza ao folclore, Santarém introduziu na tradicional Festa do Çairé, paralelamente, o ritual dos Botos Tucuxi e Cor de Rosa, para resgatar a lenda do golfinho da Amazônia e outras que a memória popular vem perdendo ao longo dos anos, oferecendo ainda um espaço para eventos destinado a grandes shows artísticos e culturais. E tudo isso sem mutilar o principal folclore da vila balneária, que mantém à risca o ritual que herdaram dos índios Boraris.

Com o apoio que o Çairé  está recebendo da Prefeitura de Santarém e da iniciativa privada, o folclore do Boto tende se transformar, em breve, no maior evento do Norte, quiçá de todo o país, pois Santarém oferece, subsidiariamente, praias paradisíacas, o lindo azul-cristalino das águas do rio Tapajós, boa infra-estrutura hoteleira e outros atrativos, além da musicalidade mocoronga e exímios artesãos que garantem a majestade do espetáculo. E ninguém duvide que venha a suplantar a fama internacional do Festival Folclórico de Parintins!

O folclore do Boto já nasceu com a pretensão de ser grande e de disputar a primazia em meio aos maiores eventos culturais brasileiros. O primeiro passo foi dar início à construção do anfiteatro (Çairódromo) em Alter do Chão, onde os Botos Tucuxi e Cor de Rosa se apresentam e acontecem shows artísticos variados.  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 25)

 
Apolonildo Brito

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