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Laurimar, o “Midas” das artes santarenas

Leurimar Leal é um artista daqueles que faz de tudo, talentoso e improvisador, Suas ideias revolucionam e inovam. A virtuose de Laurimar chega ao ponto de fazer as coisas sem pensar em dinheiro, razão pela qual é pobre e capaz de fazer uma obra apenas por ideal, por puro amor, principalmente quando se trata de Santarém, a sua terra querida. É um artista plástico completo: faz monumentos públicos, pinta painéis em juta, restaura arte sacra e é mes

O santareno Laurimar Leal é daqueles raros artistas que fazem escola, formam discípulos, constroem histórias e deixam belos legados. Ele é pródigo em tudo o que faz. Suas idéias são revolucionárias, mudam conceitos e inovam. Autodidata bem embasado, o artista é um “Midas” das artes plásticas, provavelmente o maior ícone do segmento no norte do Brasil.

Para completar a virtuose de Laurimar, apesar de toda a influência e respeito que tem granjeado ao longo dos seus 57 anos de atividades, ele é simples, humilde, honesto. Gosta de fazer as coisas sem pensar em dinheiro, razão pela qual é pobre e capaz de fazer uma obra apenas por ideal, por puro amor, principalmente quando se trata de Santarém, a sua terra querida. Ele fez monumentos na Praça de São Sebastião, uma dentre tantas que construiu ou decorou na “Pérola do Tapajós”, com grandes réplicas da Cerâmica de Santarém, apenas com material fornecido pelo prefeito da cidade.

Laurimar foi o inventor do uso de painéis de juta como telas de pintura. O invento foi mostrado no mundo inteiro, cuja técnica é muito usada pelos artistas em Belém e no Amazonas, principalmente em Parintins.

A avó dele fazia perfumes regionais que eram vendidos a bordo de transatlânticos que chegavam com turistas a Santarém. Ela também era cuieira, ou seja, comercializava cuias nas quais pintava cenas geralmente de flores. Influenciado por essa convivência, Laurimar começou a se envolver diretamente com arte aos nove anos. Hoje ele é sexagenário. Com aquela tenra idade fazia trabalhos artísticos para a Prefeitura de Santarém, no prédio que atualmente abriga o Centro Cultural João Fona, entidade que ele fundou e da qual atualmente é o diretor.

“Eu sempre  batalhei pelo lado artístico, vivi com isso; desenvolvi um trabalho por Santarém, sempre montado em arte”, lembra o artista. Foi ele quem inventou o bustiê de cuias hoje bastante comum nos festivais folclóricos e outras manifestações populares na Amazônia. O lançamento do invento foi em Santarém, em 1985, último ano de desfile de escolas de samba na cidade. Na mesma ocasião, Laurimar Leal também criou a tanga de cuia, que ainda não atingiu o grande público.

Laurimar foi parte ativa do I Festival da Canção do Médio Amazonas, realizado em 1971, um dos mais expressivos eventos de todos os tempos em Santarém. Ao primeiro lugar foi entregue um Uirapuru de Ouro como troféu; ao segundo, um Uirapuru de Prata; e um Uirapuru de Bronze ao terceiro colocado, todos confeccionados pelo artista.

Laurimar Leal lembra com saudade da época das Pretinhas da Angola, o mais antigo grupo carnavalesco de Santarém; do Barbeirão; Bloco da Pulga e Breguelhegue, os dois últimos grupos independentes de carnaval de empolgação. Mas foi ele, Laurimar, quem deu o maior impulso ao carnaval da cidade ao colocar na rua, em 1974, uma ala de 35 mulheres vestidas de baiana. Ali Laurimar lançava a primeira escola de samba santarena, a Ases do Samba que empolgou multidões durante 11 longos anos, ostentando as cores azul e branco.

Segundo ele, a Ases do Samba em muito contribuiu para a boa performance do Boi Caprichoso, de Parintins (AM). É que Laurimar foi chamado para trabalhar no Caprichoso, nos anos 70, e levava restos de fantasias e roupas da Ases do Samba que serviam de porta-bandeira, porta-estandarte e para alguns outros itens do boi.

O artista trabalhou muito tempo no Caprichoso. Depois, passou para o Garantido. Ainda em 1970, ele ressuscitou o Sairé tradicional de Alter do Chão, que estava paralisado. A nova vida à tradição foi dada na íntegra, dentro do contexto histórico expresso pelo folclorista Câmara Cascudo. Com a ajuda de algumas lideranças de Alter do Chão, Laurimar Leal introduziu a Dança do Boto naquela vila turística santarena, na década de 90 do século passado.

Falar em Boi de Parintins é inserir Laurimar Leal em sua história. Quando ele pisou na ilha Tupinambarana, a arte do boi ainda era incipiente, chegando a importar obras de Dona Dica Frazão, outra artista santarena. Com a presença de Laurimar a importação cessou porque ele começou a ensinar “aquela parte rústica, aquela fantasia bem artesanal. Eu ensinei pro pessoal e o pessoal começou a fazer lá mesmo”, descreve.

Laurimar Leal fundou o Centro Cultural João Fona no início dos anos 90, da qual foi diretor por muito tempo. Agora, depois de um interregno de oito anos, ele reassume o cargo na casa que abriga exemplares da Cerâmica Arqueológica de Santarém; representações das culturas negra, cabocla e indígena; e uma pinacoteca dos antigos prefeitos e interventores de Santarém. No momento se empenha, também, em produzir objetos e cenas artísticas com a técnica da “assemblagem”, ou seja, utilização de materiais industrializados em obras de arte e em telas. Com pedaços de ferro velho e latinhas de cerveja, ele produz até mesmo estatuetas que impressionam pela beleza e acabamento. Além disso, continua com as suas múltiplas atividades que vão de simples pinturas a expressivos monumentos que ocupam logradouros e prédios públicos de Santarém e outras cidades.  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 72)

 
Apolonildo Brito

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