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Plantas medicinais que curam gerações na região

Qual brasileiro não lembra dos “santos remédios” de seus avós, dos chazinhos milagrosos e baratos extraídos das ervas dos quintais de casa ou de cascas e raízes do herbário que abunda no país, principalmente na Amazônia? Unha de Gato, Babosa Graviola ganharam notoriedade mundial pelos milagrosos efeitos contra o câncer do fígado e de mama, destacando-se a última espécie pelas pesquisas nos Estados Unidos para tratamento de tumores malignos.

As ervas também são comercializadas para a linha de cosméticos, eficazes para queda e revitalização capilar, além de beleza da pele e combate às rugas. O xampu de Jaborandi é recomendado como um dos melhores tônicos capilares da medicina natural, diferenciados das fórmulas sintéticas porque não usam químicas que ressecam os cabelos, dispensando ainda o uso dos condicionadores para os penteados.

Outras plantas ganharam fama pelo seu poder afrodisíaco contra impotência sexual como a Murapuama, reconhecida até na França como vigoroso energético para restabelecer o equilíbrio físico e mental. O Brasil consagra um xarope que concentra a essência da Catuaba e da Murapuama, chamado Catuama, um poderoso composto energético, cientificamente recomendado para estimular o apetite sexual. O Gengibre e o pó do Guaraná também possuem prestígio no mundo inteiro pele alto teor energético, quer puro com água ou composto com suco de frutas regionais para dar mais sabor. E o mais importante: as plantas medicinais, quando usadas em dosagens corretas, não causam os famigerados efeitos colaterais provocados pelos produtos sintéticos farmacológicos.

O mercado de plantas medicinais é muito fechado. Quem está dentro não gosta de falar muito dele, não só pela concorrência, mas principalmente por causa do Ibama, que restringe o extrativismo da maioria dos produtos naturais, como a Motoca e a Murapuama, espécies não cultivadas, com grande aceitação no mercado. Mesmo assim, a oferta de plantas medicinais nos mercados e feiras públicas é uma prática que o órgão federal não consegue deter pela tradição popular. Existem raizeiros comercializando Murapuama nos EUA e Alemanha em torno de US$ 14 a tonelada do material triturado, ou seja, em vez de retirarem somente as cascas cortam a árvore inteira.

Outras espécies como a Ipéca, remédio fulminante contra ameba, são vendidas no exterior e podem desaparecer na região de origem. Mas uma pesquisa desenvolvida durante 11 anos no município paraense de Augusto Corrêa teve bons resultados no cultivo de 70 mil pés de Ipéca, que serão comercializados dentro de dois a três anos. A Imbaúba controla a pressão arterial, enquanto a Pilocarpina, substância contida no Jaborandi, contém o glaucoma. Só a Pilocarpina movimenta cerca de 28 milhões de dólares, cuja patente pertence ao MEC.

O Cipó D’álio substitui o alho no tempero alimentar, controla a pressão e evita o aumento do colesterol. Já o Mucura-Caa é usado para dores reumáticas, enfermidade também tratada com Erva Balieira, que serve para artrose e problema de coluna. A Andiroba é uma das mais populares plantas medicinais utilizada como anti-inflamatório, dores lombares e para reumatismo, servindo ainda na área cosmética como hidratante e repelente.

O pesquisador Taylor de Leslie diz que há pelo menos cerca de 120 substâncias químicas derivadas de plantas atualmente usadas in natura em vários países, em especial no Brasil. Muitos medicamentos oferecidos pelas farmácias e hospitais do mundo inteiro são simples modificações sintéticas ou cópias das substâncias obtidas na natureza. Por exemplo, há muitos anos a química de uma planta tropical denominada emetine foi descoberta, proveniente da Ipecacuanha de Cephaelis, espécie usada tradicionalmente para provocar vômitos, principalmente quando alguém ingere alguma substância venenosa ou prejudicial à saúde. O Ipeca pode ainda ser achado nas farmácias dos países do Terceiro Mundo, visto que foi substituído nos Estados Unidos por outros remédios mais modernos.

Outro exemplo é o Taxol, produto químico de planta com a mesma denominação, hoje patenteado pela indústria farmacêutica como Paclitaxel™, usado em vários países para a cura de tipos de tumores.

O resgate – As plantas medicinais e aromáticas sempre fizerem parte da vida amazônica, antes mais que hoje, mas foi a partir da década de 90 que elas ganharam foro científico, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou que os países em desenvolvimento pesquisassem a flora regional para a medicina alternativa. A observação da OMS vem do reconhecimento dos altos preços dos produtos da indústria farmacêutica, da eficácia das ervas medicinais e da necessidade do resgate da medicina tradicional. A constatação da ausência de efeitos colaterais das plantas também estimulou o organismo internacional.

O domínio das drogas da floresta marcou época bem antes do descobrimento do Brasil, primeiro pelos pajés indígenas, que passavam este conhecimento de pai para filho ou para os seus sucessores. Com a vinda dos escravos negros para a região, as drogas conhecidas pelos africanos se incorporaram ao ambiente nativo com suas famosas “garrafadas”, de domínio exclusivo  de determinadas famílias negras. A formação da “raça” cabocla fez nascer a figura dos curandeiros e parteiras, exercendo importante papel na população e sobrevivendo até os dias de hoje, embora em processo de extinção.

Enquanto os pajés indígenas e feiticeiros negros guardavam a sete chaves o conhecimento (empírico) das drogas da floresta para deterem poder sobre suas comunidades, os curandeiros e parteiras democratizaram o conhecimento das plantas medicinais.

O desenvolvimento da indústria farmacêutica, após a década de 50, não apenas popularizou seus produtos, como arrefeceu o uso da medicina tradicional, tendo como conseqüência as dificuldades inerentes ao baixo poder aquisitivo da população, a desqualificação dos profissionais da medicina natural e, o mais grave, a perda parcial do conhecimento secular das drogas da selva.

Segundo Osmar Lameira, pesquisador da Embrapa-PA e doutor em Biotecnologia de Planta, há cinco mil anos os egípcios e chineses já dominavam o conhecimento das plantas medicinais, que está se perdendo atualmente no mundo inteiro. “Prova disso é o que nossos avós conheciam sobre plantas medicinais e hoje a juventude pouco conhece sobre elas por falta de maiores informações e por causa da predominante oferta de medicamentos químicos e sintéticos da indústria farmacêutica”.

Depois da recomendação da OMS, diz o pesquisador, vários programas voltados para a medicina natural estão em diferentes Estados brasileiros. No entanto, explica que para que isso funcione adequadamente falta aplicabilidade e consistência a esses programas. “Tem muita gente envolvida com utilização de plantas medicinais sem ter o conhecimento básico que deveria ser obtido junto à população urbana e rural, apesar de hoje pouco conhecerem sobre plantas, em decorrência da falta de transferência de conhecimentos pelos antigos às pessoas mais novas, como, por exemplo, através das famosas parteiras da região e dos curandeiros que foram deixados para trás. O que se encontra nos dias atuais é muita gente falando de planta sem um conhecimento maior”, enfatiza Osmar Lameira.

Sobre os principais centros de pesquisas da Amazônia, diz que na maior biodiversidade do planeta em plantas medicinais vale destacar o trabalho desenvolvido pelo Embrapa e algumas universidades e ONGs, embora ainda de forma bem incipiente, mais voltados às áreas de Botânica e Fitoterapia. Explica que a Embrapa desenvolve a parte agronômica, mas é carente no estudo da fitoquímica farmacológica. Por outro lado, existem nas universidades profissionais na área de Fitoquímica e Farmacologia, porém sem a parte agronômica; no Amapá, por exemplo, trabalha-se na área de produção, ou seja, na transformação do extrato em medicamento com pesquisa voltada apenas a esses produtos sem direcioná-la ao manejo e ao cultivo das espécies. “Enfim, não existe nenhuma instituição na Amazônia que faça um trabalho completo sobre as plantas medicinais”, ressalta doutor Osmar.

Para o pesquisador, a saída são as parcerias infelizmente na grande maioria feitas apenas pelos pesquisadores. O Instituto de Pesquisa da Amazônia – IMPA estuda a área de Botânica, mas não desenvolve produtos fitoterápicos. Ele ressalva, entretanto, o projeto que o governo federal pretende implementar na Amazônia através do Centro de Biotecnologia da Amazônia – CBA, que passa por dificuldades administrativas face ao seu período de implantação, dificultando, ocasionalmente, o trabalho da entidade.

O trabalho que a Embrapa vem desenvolvendo na Região é fruto da parceria de algumas unidades na coleta, identificação e caracterização de espécies a nível agronômico e, às vezes, fitoquímico e molecular, razão do avanço que possibilitou tentar comprovar descobertas de novas plantas, diagnosticar pelo uso comprovado junto à população, ou seja, se tal planta é utilizada para combater determinada doença, pesquisa-se e comprova-se as informações, através de agrônomos, botânicos, biólogos, médicos e farmacêuticos que dão embasamento científico à informação popular.

“Primeiro domesticamos a planta. Quando ela tem viabilidade econômica, parte-se do conhecimento agronômico total, que quer dizer como cultivar, fazer propagação e manejo e usar todas as fases da natureza da planta”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, muitas plantas têm nomes populares diferenciados de acordo com cada localidade, por isso é importante identificá-las pelo nome científico. Há casos em que a denominação popular varia de lugar a lugar, a exemplo do Norte, onde o nome de um medicamento recomendado para vômitos não corresponde ao homônimo de outra região, que é utilizado para gastrite, por isso a identificação científica é fundamental. Explica que a identificação é feita criteriosamente num herbário da região ou fora dela, quando for necessário classificar a parte agronômica da espécie, seguida de informações sobre o manejo, como se cultiva e se propaga a espécie ou se é necessário adubá-la, fazendo as anotações necessárias. O trabalho é desenvolvido com outras instituições, realizando testes pré-clínicos com a Farmacologia para comprovar aquilo que a população consagrou, assegurando cientificamente o uso de produto corretamente viável, confiável e mais barato.

Sobre o assunto, a Embrapa lançará livro com todas as informações dessas pesquisas, incluindo o cultivo e a manipulação das plantas medicinais, calcadas no trabalho que desenvolve em comunidades ribeirinhas e rurais, a exemplo do trabalho feito na região de Caxuanã, Laranjal e Pedreira, em parceria com o Museu Emílio Goeldi, que já duram três anos, instalando hortos medicinais, repassando conhecimentos através de treinamento para o fabrico de produtos fitoterápicos (pomadas, xaropes, xampus e assim por diante) com drogas da floresta. Em Barcarena, a comunidade de Vai-quem-quer é assistida pelo projeto Embrapa/Albrás para a importância do cultivo e extração natural de vários produtos naturais e sua possível venda, gerando fonte de renda. Na Ilha de Marajó, Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari também serão beneficiados pelos treinamentos e hortos comunitários da Embrapa, para ensinar como fabricar sabonetes, xaropes, etc... (Apolonildo Britto – Revista Amazon View

 
Apolonildo Brito

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