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Satere-Mawe, a guardiã do guaraná da Amazônia

Inventores da cultura do guaraná, eles domesticaram a trepadeira silvestre e criaram o processo de beneficiamento da planta, possibilitando hoje que o produto seja conhecido e consumido no mundo inteiro. Sua etnia é uma das maiores do Brasil e habita o município amazonense de Maués. Eles já chegaram a dezenas de milhares entre os rios Madeira e Tapajós, mas foram dizimados por guerras com outras etnias, colonizadores e durante a Cabanagem.

Conhecidos regionalmente como “Mawés”, a segunda maior etnia da Amazônia (atualmente 7.134 pessoas) já recebeu vários nomes ao longo de sua história, denominações dadas por cronistas, desbravadores, missionários e naturalistas como Mavoz, Malrié, Mangnés, Mangnês, Jaquezes, Magnazes, Mahués, Magnés, Mauris, Mawés, Maragná, Mahué, Magneses, Orapium. Mas os índios se autodenominaram Sateré-Mawé.

Antes da chegada do branco colonizador, da guerra justa e da Cabanagem que os dizimaram e os confinaram nos atuais 788.528 hectares de reserva Mawé (com um dos maiores índices demográficos do país, considerando outras reservas indígenas), eles eram numerosos, chegavam a dezenas de milhares e habitavam o vasto território entre os rios Madeira e Tapajós, delimitado ao norte pelas ilhas Tupinambaranas, no rio Amazonas e, ao sul, pelas cabeceiras do Tapajós.
Os Sateré-Mawé referem-se ao seu lugar de origem como sendo o Noçoquém, lugar da morada de seus heróis míticos. Eles localizam-no na margem esquerda do Tapajós, numa região de floresta densa e pedregosa, “onde as pedras falam”.

Nunes Pereira, que viveu com esse povo na década de 1950, conta que, segundo relatos dos ancestrais indígenas, “os lagos e rios piscosíssimos que irrigam as terras em que viveram outrora os Mawés e, bem assim, as florestas e campinaranas ricas em caças de toda espécie, deveriam constituir, numa época mais remota, uma paisagem magnífica para as atividades desse povo. À representação panteísta do Noçoquém – sítio onde se encontravam todas as plantas e animais úteis aos indígenas, segundo a Lenda do Guaraná, deveriam corresponder, outrora, ao território por eles ocupado”.

A partir do contato com os brancos e até mesmo antes disso, devido às guerras com os Munduruku e Parintintim, o território ancestral dos Sateré-Mawé foi sensivelmente reduzido. Em 1835 eclodiu a Cabanagem na Amazônia, principal insurreição nativista do Brasil. Os Munduruku e Mawé (rios Tapajós e Madeira) e os Mura (rio Madeira), bem como grupos indígenas do rio Negro, aderiram aos cabanos e só se renderam em 1839. Epidemias e atroz perseguição aos grupos indígenas que com eles combatiam, devastaram enormes áreas da Amazônia, deslocando esses grupos dos seus territórios tradicionais ou reduzindo-os.

Relatos dos viajantes confirmam que de fato houve redução territorial a partir do século XVIII e mencionam a área compreendida pelo rio Marmelos, Sucunduri, Abacaxis, Parauari, Amana e Mariacuã como território tradicional dos Sateré-Mawé. Esses relatos confirmam também que as cidades de Maués (AM), Parintins (AM) e Itaituba (PA) foram fundadas sobre sítios Sateré-Mawé, coincidindo com passagens da história oral deste povo.

Em 1978, quando iniciado o processo de demarcação do território, as aldeias, sítios, roças, cemitérios, territórios de caça, pesca, coleta e perambulação situavam-se entre e ao redor dos rios Marau, Miriti, Urupadi, Manjuru e Andirá. Os Sateré-Mawé consideravam essa extensão de terra como sendo sua, apesar de saberem que ela representava apenas uma pequena parcela do que já havia sido seu território tradicional.

A reserva indígena de Andirá-Marau foi demarcada em 1982 e homologada em 1986, com 788.528 hectares, nos municípios de Maués, Barreirinha, Parintins, Itaituba e Aveiro, nos dois Estados. Dados mais recentes da Funasa (Fundação Nacional da Saúde) e da ONG Ameríndia Cooperação dão conta de um total de 3.872 habitantes na área Andirá (que reúne 42 aldeias) e 3.078 habitantes na área Marau (que reúne 31 aldeias), totalizando 6.950 índios.

Sateré-Mawé – O primeiro nome – Sateré – quer dizer “lagarta de fogo”, referência dada à família mais importante desta sociedade, aquela que indica tradicionalmente a linha de suas lideranças. Mawé significa “papagaio inteligente e curioso” e não é designação clânica.

Os Sateré-Mawé integram o tronco lingüístico Tupi, mas diferem do Guarani-tupinambá, concordando os pronomes com a língua Curuaya-munduruku e a gramática com o Tupi, segundo o etnógrafo Curt Nimuendaju (1948). O vocabulário Mawé, contudo, contém elementos completamente estranhos ao Tupi, sem relação a qualquer outra família lingüística. Desde o século XVIII, seu repertório incorporou inúmeras palavras da língua geral falada pelos índios da região. Os homens, atualmente, são bilíngües, falando o Sateré-Mawé e o português, mas a maioria das mulheres, apesar de três séculos de contato com os brancos, só fala a língua Sateré-Mawé.

A etnia Mawé se estabelece em locais denominados sítios, onde cada família elementar possui casa própria, na qual se encontra o fogo que serve tanto para preparar a comida como para aquecer e reunir os residentes; a cozinha é construída entre a casa e o rio, onde os homens torram o guaraná e as mulheres preparam a farinha de mandioca. Há, também, o porto, como é conhecido o local às margens dos rios e igarapés, onde a família toma banho, lava a roupa, deixa a mandioca de molho, lava o guaraná e ancora suas canoas.

Os sítios congregam todas as plantações que são propriedades de cada família elementar: os guaranazais, as roças de mandioca, jerimum, cará, batata doce e outros tubérculos, bem como os pomares.

Lideranças – Os Sateré-Mawé são organizados sob a autoridade do chefe da família (clã), que mora com as famílias dos seus filhos e seus netos e organiza a produção do sítio, orientando as atividades econômicas dos seus filhos e genros. É ele quem convida os parentes e conhecidos de outros sítios ou aldeias para reforçar seu contingente de trabalho, quando necessário, reunindo-os nos puxiruns, ocasiões em que ordena a caça, a pesca e a torração da farinha para prover a alimentação dos participantes desses trabalhos coletivos. Durante os puxiruns, ele acompanha de perto as atividades agrícolas: abertura das roças de mandioca e guaraná, limpeza dos guaranazais, assim como o beneficiamento do produto.

São ainda atributos do chefe do clã mandar construir casas, ordenar a limpeza do lugar (atividade que eles chamam de faxina), mandar efetuar diversos tipos de coleta e assessorar a comercialização da produção agrícola e artesanal dos seus familiares e agregados.

Os sítios são domínios privados, onde a terra e demais recursos naturais são apropriados pelas famílias elementares que se submetem à autoridade do chefe do grupo familiar, tradicionalmente reconhecido como o dono do lugar. O sítio funciona como unidade básica da organização política e econômica dos Sateré-Mawé, podendo se transformar em aldeia quando o número de famílias aumenta ou quando seu chefe passa a ser visto como um tuxaua. Isto pode ocorrer desde que ele ganhe prestígio junto a seus pares, pela generosidade, pela habilidade nas transações comerciais, pelo entrosamento com os tuxauas mais próximos, assim como com o tuxaua geral.

A maior parte das aldeias obedece ao traçado urbano semelhante aos povoados da região, onde se encontram as residências familiares, as cozinhas, os portos, igrejas de diferentes congregações, a escola e a enfermaria.

Assim como nos sítios, também nos arredores das aldeias localizam-se as roças de mandioca, os guaranazais, os pomares e demais plantações que pertencem à cada família elementar.

Organização política – Toda aldeia possui um tuxaua, o chefe do lugar, pessoa investida de autoridade para resolver brigas e conflitos internos, convocar reuniões, marcar festas e rituais, orientar as atividades agrícolas e as transações comerciais, mandar construir casas, etc. Cabe ainda ao tuxaua hospedar os visitantes demonstrando sua generosidade e procedendo à função cerimonial de oferecer çapó – guaraná em bastão ralado na água, bebida cotidiana, ritual e religiosa, que é consumida em grandes quantidades.

Ao tuxaua, como a qualquer chefe de família extensa, compete, também, administrar os interesses de sua própria família, responsabilidade que ele assume de modo incisivo, principalmente quando se trata de solucionar brigas e determinar as atividades agrícolas e comerciais. Ele também administra os interesses das demais famílias extensas e elementares que aí residem, mas neste caso o faz de forma mais flexível.

Nesse sentido, é possível dizer que a unidade mínima constitutiva da aldeia é sempre a família extensa do tuxaua. A aldeia pode constituir-se também desta família acrescida por famílias elementares ou ainda por um conjunto de famílias extensas, cujos chefes se submetem à influência política do tuxaua local.

A autoridade política do tuxaua transcende os limites da aldeia, estendendo-se, conforme seu desempenho como chefe de aldeia e de acordo com suas relações com os demais tuxauas Sateré-Mawé e, sobretudo, com o tuxaua geral. Atualmente, o grau de influência política de um tuxaua oscila segundo inúmeros critérios, dos quais se destacam o clã ao qual pertence, suas relações de parentesco e prestígio junto aos demais tuxauas, seu conhecimento sobre o tempo dos antigos (história e mitologia Sateré-Mawé), sua capacidade como orador, seu grau de generosidade, sua tradição como agricultor e beneficiador do guaraná, sua habilidade para o comércio, a maneira como conduz os problemas internos de sua comunidade e a tônica de suas relações com os agentes da sociedade envolvente, principalmente a Funai, os patrões e os políticos locais. Pode-se dizer que o tuxaua geral é aquele que consegue um bom desempenho em todas essas áreas.

Subsistência – A subsistência Sateré-Mawé baseia-se na agricultura, na qual se destacam os plantios de guaraná e as roças de mandioca. A farinha é a base da alimentação, sendo também comercializada em larga escala para as cidades vizinhas de Maués, Barreirinha e Parintins. Plantam, ainda, para consumo próprio, o jerimum, a batata doce, cará branco e roxo e uma infinidade de frutas com a laranja em maior escala.

Além de exímios agricultores, dedicam-se à caça e ao extrativismo do mel, castanha, diferentes qualidades de coquinhos, formigas e lagartas que complementam a dieta. Coletam ainda breu, cipós e vários tipos de palhas que servem para o consumo, além se serem comercializados na cidade. Caçando e pescando, os homens participam da dieta alimentar enriquecida com a farinha de mandioca, beiju e tacacá feitos pelas mulheres.

Cultura e cosmologia – Os Sateré-Mawé possuem rica cultura material, sendo os teçumes sua maior expressão. Eles designam por teçume o artesanato confeccionado pelos homens com talos e folhas de caranã, arumã e outros, com os quais fazem peneiras, cestos, tipitis, abanos, bolsas, chapéus, paredes, coberturas de casas etc.

Grande ênfase é dada ao Porantim na cosmologia Sateré-Mawé. O Porantim é uma peça de madeira com, aproximadamente 1,50m de altura, com desenhos geométricos gravados em baixo relevo, recobertos com tinta branca, a tabatinga. Sua forma lembra a de uma clava de guerra ou a de um remo trabalhado. O Porantim possui um leque de atributos: é o legislador social e os Sateré-Mawé, freqüentemente, se referem a ele como sendo sua Constituição ou sua Bíblia. Possui poderes de entidade mágica, uma espécie de bola de cristal que prevê acontecimentos, podendo andar sozinho para apartar desavenças e conflitos internos. É também o suporte onde estão gravados, de um lado, o mito da origem ou a história do guaraná, e de outro, o mito da guerra. Posiciona-se, portanto, para a sociedade que o talhou, como instituição máxima, aglutinando as esferas política, jurídica, mágico-religiosa e mística.

Filhos do Guaraná – Inventores da cultura do guaraná, os Sateré-Mawé transformaram a Paullinia cupana, uma trepadeira silvestre da família das Sapindáceas, em arbusto cultivado, introduzindo seu plantio e beneficiamento. O guaraná é uma planta nativa da região das terras altas da bacia hidrográfica do rio Maués-Açu, que coincide precisamente com o território tradicional Sateré-Mawé que se vêem como inventores da cultura desta planta, auto-imagem justificada no plano ideológico por meio do mito da origem, segundo o qual seriam os Filhos do Guaraná.

O guaraná é o produto por excelência da economia sateré-mawé, sendo, dos seus produtos comerciais, o que obtém maior preço no mercado. É possível ainda pensar que a vocação para o comércio demonstrada pela etnia se explique pela importância do guaraná na sua organização social e econômica.

A primeira descrição do guaraná e sua importância para os Sateré-Mawé datam de 1669, ano que coincide com o primeiro contato do grupo com os brancos. O padre João Felipe Betendorf descrevia, naquele ano, que “tem os Andirazes em seus matos uma frutinha que chamam guaraná, a qual secam e depois pisam, fazendo dela umas bolas, que estimam como os brancos o seu ouro, e desfeitas com uma pedrinha, com que as vão roçando, e em uma cuia de água bebida, dá tão grandes forças, que indo os índios à caça, um dia até o outro não têm fome, além do que faz urinar, tira febres e dores de cabeça e cãibras”.

O comércio do guaraná sempre foi intenso na região de Maués, não só o realizado pelos Sateré-Mawé, mas também pelos não-índios. A procura deste produto deve-se às suas propriedades de estimulante, regulador intestinal, antiblenorrágico, tônico cardiovascular e afrodisíaco.

Divisão do Trabalho – O fabrico é um ciclo produtivo predominantemente masculino. Existe uma relação entre a divisão sexual do trabalho e a divisão do trabalho por faixa etária. A sociedade Sateré-Mawé prescreve para as atividades mais simples do fabrico – que não dependem de tanta arte e experiência - mãos de variadas idades. Mas ao se tratar das tarefas mais sofisticadas, encontraremos sempre mãos de pessoas adultas ou idosas cuidando do guaraná.

Somando a prescrição sexual com a faixa etária resulta que a colheita dos cachos, a descasca do guaraná cru, a lavagem do guaraná, a torrefação, a descasca do guaraná torrado e a pilação são tarefas quase que exclusivamente masculinas, cobrindo a faixa etária dos meninos aos adultos.

A participação do sexo feminino ocorre apenas quando se descasca o guaraná cru e o guaraná torrado, que são consideradas atividades bem simples dentro do cômputo geral do fabrico. Só é permitida a participação das meninas nas atividades acima mencionadas antes da primeira menstruação, porque depois do primeiro resguardo as meninas ganham o estatuto social de mulheres, transformando-se em esposas e mães em potencial.

As três atividades finais do fabrico são as que exigem maior depuramento, uma vez que incidem decisivamente na qualidade do produto final - o pão de guaraná. É por este motivo que a modelagem dos pães, sua lavagem e defumação são entregues exclusivamente nas mãos de pessoas adultas ou velhas.

Segundo a prescrição da divisão sexual do trabalho e da divisão do trabalho por faixa etária, apenas os homens adultos e velhos podem se encarregar da modelagem dos pães de guaraná e do controle da defumação.

A lavagem dos pães de guaraná se distingue radicalmente das outras atividades do fabrico porque é o único momento em que as mulheres, literalmente, põem a mão na massa. A sociedade sateré-mawé prescreve que somente as mulheres adultas (mães) e velhas (avós) recebem das mãos dos padeiros, após breve descanso nos talos de bananeira, os pães de guaraná ainda frescos, moles e de cor castanha, para serem demorada e caprichosamente lavados.

A lavagem dos pães de guaraná constitui-se, sem dúvida, no trabalho mais delicado do fabrico, o que não é suficiente para explicar a incursão feminina dentro do universo eminentemente masculino.
A quebra de tabu ocasionada pela entrada das mulheres (que já ficaram menstruadas e já têm marido, filhos e netos) no fabrico de forma tão determinada, só pode ser compreendida através dos mitos.

As mulheres Sateré-Mawé estão representadas, em síntese, no corpus mítico sateré-mawé, pelas figuras femininas de Uniaí, Onhiámuáçabê e Unhanmangarú, que são ora irmãs de Anumaré (Deus), ora irmãs de Ocumaató e Icuaman (os irmãos gêmeos). Estas mulheres míticas possuem um leque de atributos e prerrogativas que encontram ressonância na vida social Sateré-Mawé, mesmo que de forma invertida ou oposta.

É seguindo essa trilha que podemos entender a participação das mulheres no fabrico, precisamente na lavagem dos pães de guaraná, uma vez que elas ocupam a posição de Onhiámuáçabê na “História do Guaraná’’ - a mulher-xamã, esposa e mãe. Onhiámuáçabê, através de práticas xamanísticas, cuja tônica central é a lavagem do cadáver do filho com sua saliva e o sumo de plantas mágicas, faz nascer a primeira planta de guaraná, inaugurando a agricultura, ressuscitando seu filho - o primeiro Sateré-Mawé -, e fundando a sociedade.

É interessante notar que na sociedade sateré-mawé cabe exclusivamente aos homens a função de pajés, ao contrário de alguns mitos, em que esses papéis são reservados às mulheres. Da mesma forma, a vida social reserva aos homens a tarefa de beneficiar o guaraná, quando nos mitos é função da mulher cuidar do guaraná. Provavelmente, são essas inversões que permitem a quebra de tabu na divisão sexual de trabalho no fabrico, resguardando para as mulheres a continuidade de suas funções míticas na vida social. (Texto básico: Instituto Sócio-ambiental) (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 51)

 
Apolonildo Brito

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