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Airão Velho – Cidade fantasma no coração da selva

Próxima à moderna e próspera capital amazonense (Manaus) e cercada por maravilhas ecológicas (Estação Ecológica de Anavilhanas, Reserva dos Índios Waimiri-Atroari, Parque Nacional do Jaú e Parque Nacional do Rio Negro) existe um local plantado no coração da Amazônia, no século XVII, e que com o passar dos tempos acabou virando uma “cidade fantasma”.

O fenômeno provocou curiosidade e estudos do historiador Victor Leonardi em 1997, que percorria as margens do rio Jaú, um afluente do rio Negro, Estado do Amazonas, e que se deparou com ruínas de uma pequena cidade esquecida e abandonada no meio da floresta. Pelas portas e janelas dos restos de casarões de época passavam árvores de 40 metros de altura e circulavam livremente bichos silvestres. Uma cena estarrecedora e fascinante. Tratava-se da cidade de Airão, que os habitantes da região denominam hoje de Airão Velho, um antigo vilarejo abandonado por seus moradores em 1955, após 266 anos de ocupação.

Desde aquele dia, Victor Leonardi pesquisou arquivos, recolheu depoimentos e reconstruiu a história daquele povoado sem habitantes, uma verdadeira “cidade morta”, cujas origens remontam às iniciativas para povoamento das áreas ribeirinhas do rio Negro, sendo mais antiga que a primeira capital do Amazonas (Barcelos), quando Bartolomeu Barreiros de Ataíde chegou à região com o objetivo de descobrir o “Rio do Ouro”.

O encontro desses restos provocou no historiador uma reflexão teórica sobre o tema “decadência”, expresso em seu livro “Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira”, apresentado em Brasília e lançado em Manaus, onde o autor pesquisou no Museu Amazônico e entrevistou vários ex-habitantes de Airão, que foram preciosas fontes de história oral.

O tema “decadência” foi explorado por Victor Leonardi levando em conta a palavra entre aspas ou a “morte” de uma cidade à beira do rio Jaú, como um processo inverso ao usual. “Penso ao contrário e tento entender como acaba uma cidade para saber como ela pode não acabar nunca”, declarou Victor.

– Só na Amazônia existem 11 “cidades mortas”. O Airão foi um povoado mais antigo do que Pirenópolis, Goiás Velho e Barcelos, a primeira capital da Amazônia, arremata.

A pequena cidade de Airão surgiu como aldeamento missionário de padres carmelitas, no século XVII. No século seguinte, foi importante para o processo de demarcação das fronteiras entre Espanha e Portugal, pois com a presença dos padres, ficou provado que o território pertencia a Portugal. A primeira bandeira dos jesuítas saiu do Maranhão em 1657 para penetrar rio Negro acima, fundando, no ano seguinte, a Missão dos Tarumãs, depois denominada Missão da Foz do Jaú. Em 1668, foi criada uma povoação nas proximidades da foz do riacho Aruim, transladada mais tarde para a foz do rio Jaú, com a denominação de Santo Elias do Jaú. Em 1759, o nome da aldeia mudou para Airão, por determinação de Mendonça Furtado.

Em 1938, Airão torna-se sede do distrito do mesmo nome, integrado ao município de Manaus e, em 19.12.1955, pela Lei Estadual n.º 96, o distrito passa a se constituir o município autônomo de Novo Airão, devido à transferência de sua população para outra localidade, esta em frente ao Arquipélago de Anavilhanas, à margem do rio Negro, cuja sede foi elevada à categoria de cidade. Em 10.12.1981, pela Emenda Constitucional n.º 12, Novo Airão perde parte de seu território em favor dos novos municípios de Moura e Presidente Figueiredo. Moura, mais tarde, volta a ser enquadrado novamente a Novo Airão. Airão Velho localiza-se à margem do rio Jaú, um afluente do rio Negro, em oposição à Novo Airão, a 130 km de Manaus, exatamente em frente do arquipélago das Anavilhanas.

Antes, Airão Velho era chamada Jaú pelos indígenas por causa do rio vizinho. Os religiosos (1694), com as tribos dos Manaos e Tacu, eram seus habitantes que também sofreram incursões dos bravos Muras. A economia primitiva era a extração de resina e madeira, além de plantação de café e laranja. Até hoje, a fabricação de barcos regionais ainda é a mais forte economia local. O município se privilegia com fundações e associações como a Associação de Artesanatos de Novo Airão que tem como suporte a  Fundação Vitória Amazônica, apoiada pela WWF.

A obra de Leonardi – A História da Amazônia foi conturbada e complexa. O livro de Victor Leonardi explora os labirintos do passado amazônico, contribuindo para a compreensão do assunto. “Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira” é um estudo de história social e ambiental, duas vertentes inseparáveis quando se fala em Amazônia e seus problemas. Usualmente, a idéia que se faz do crescimento de uma cidade é a de uma expansão progressiva de sua população e de suas atividades econômicas. No entanto, o que a história de Airão nos revela é uma trajetória de construção seguida por períodos de destruição e por novos períodos de construção, até o momento em que há uma desestruturação total, como ocorreu em 1955, quando o último morador retirou-se da cidade.

Talvez uma das principais qualidades da análise de Leonardi seja entender a história de Airão não apenas dentro do quadro local, mas inseri-la no contexto geral da história da Amazônia e do Brasil. Entretanto, isto não significa desprezar os determinantes regionais. A história do arruinamento de Airão não é apenas a história do desaparecimento de uma cidade, mas a história da multiplicidade de etnias que habitaram e habitam a região amazônica.

Novo Airão tem grande potencial turístico (ecoturismo). Áreas de preservação ambientais, caminhadas (com guia) em trilhas ecológicas, observação de orquídeas, aves e possibilidades de ver a onça em seu habitat natural despontam no local, além de animais ameaçados de extinção como peixe-boi e ariranha. (Apolonildo Britto - Revista Amazon View – Edição 52)

 
Apolonildo Brito

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