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Miriti, um artesanato típico do Pará

Nos domingos e feriados festivos, principalmente durante o Círio de Nazaré, é comum encontrar um dos mais singelos artesanatos da cultura paraense, porém muito significativos da realidade regional: brinquedos de miriti ou buriti. Eles são a expressão ingênua do universo ribeirinho da região vizinha de Belém, como embarcações, veículos, bonecos dançarinos, cobras, jacarés, pássaros, vaquinha e outros animais da fauna local

Belo, singelo e muito representativo à realidade regional, o artesanato de miriti ou buriti faz parte da cultura e do cotidiano paraenses, figurando com mais intensidade em Belém, durante o Círio de Nazaré, na feira do Ver-o-Peso, nas portas do Museu Emílio Goeldi e do Bosque Rodrigues Alves. A matéria-prima do artesanato é extraída da palmeira maurita flexuosal, conhecida vulgarmente pelo nome de miritizeiro ou buritizeiro, árvore abundante em nossas matas, várzeas e beiras dos igarapés. O vegetal tem várias utilidades: fornece palha para cobrir cabanas; broto ou grelo para produzir envira, fibra que serve para tecer maqueiras (redes artesanais), tapetes e bolsas; a tala tirada das folhas, com a qual são feitos paneiros, tipitis, cestos, balaios e, ainda, para fazer brinquedos de formas variadas, como cobras, pombinhas, soca-socas, barcos, araras, jacarés e tatus, inclusive miniaturas diversas, entre outros.

A fruta, o miriti, serve como fonte de alimento vitamínico, degustada com farinha e açúcar. Serve ainda para produzir licor e vinho e é também utilizada para agüar o tradicional mingau de farinha-d’água ou arroz. Do fruto ainda se extrai a tinta para pintar brinquedos e quadros.

Originário da criatividade e da capacidade de adaptação do caboclo brasileiro à natureza, os brinquedos de miriti são a expressão da sensibilidade e da representação ingênua do universo ribeirinho da região vizinha de Belém. Há quem diga que esses brinquedos são feitos apenas uma vez por ano, no período que antecede ao Círio de Nazaré, entre agosto e setembro, para comercialização na festividade da Padroeira da capital paraense.

Mas a confecção do artesanato começa com a coleta dos talos (braços) da palmeira, no meio do mato, em Sirituba, um logradouro que se atinge de barco. O miriti escolhido geralmente é jovem e da planta se colhe apenas os braços onde estão as folhagens. Com isto, a confecção dos brinquedos não é uma atividade predatória, uma vez que a árvore é mantida viva e cresce normalmente.

Para se obter a matéria-prima dos brinquedos os braços do miriti são descascados para utilização do miolo. As cascas, bem flexíveis, depois de secas são transformadas em cestas, paneiros e varetas de papagaios e pipas. O miolo, trabalhado com facões de mato, é alisado e transportado em feixes para os produtores dos brinquedos. Os artistas com ferramentas rústicas (normalmente facas e facões) esculpem e montam peças, segundo suas preferências pessoais. Alguns são especializados em barcos, outros em bonecos dançarinos, cobras, jacarés, pássaros, vaquinhas, aviões, rádios de pilha, televisões e a escolha deste ou daquele motivo é parte da crônica individual de cada autor ou família de autores. Depois de prontas, com as partes coladas e secas, é aplicado o desenho-base da pintura.

Os brinquedos são estocados e à véspera do Círio de Nazaré levados para Belém, onde ficam expostos nas praças ou comercializados em girândolas que são uma espécie de cruz com vários braços, também feita de miriti, onde são espetadas ponteiras da casca do próprio miriti para amarração de cerca de uma centena de brinquedos. A venda é feita pelos próprios artistas ou amigos. Ao contrário de outras formas de artesanato da região, como as réplicas de cerâmica marajoara ou tapajônica, cujas referências estão em achados arqueológicos expostos no Museu Emílio Goeldi, os brinquedos de miriti são uma manifestação artística espontânea e reflexo da criatividade dos produtores, seja no uso de cores primárias e poucas misturas (azul, vermelho, amarelo, verde, preto), seja na forma utilizada que sempre reflete o universo caboclo, suas influências urbanas e afetivas.

Os brinquedos de miriti são exclusivos e inéditos. Ainda não foram descobertos como produto de exportação, a exemplo de outras modalidades de artesanato encontradas em várias cidades brasileiras e mesmo no exterior, em galerias e museus. A característica de só ser comercializado no período da Festa de Nazaré talvez leve o miriti ao desaparecimento, uma vez que esta sazonalidade induz os produtores – principalmente seus filhos que são a garantia de continuidade do trabalho – a buscarem outras fontes de renda e de especialização profissional. Mas hoje ainda se vê muitas crianças aprendendo sobre o miriti e produzindo. E já se fala, na região, da organização de cooperativa dos produtores.

Histórico – O brinquedo de miriti tem sua origem perdida no tempo, embora alguns historiadores associem sua comercialização ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que acontece no segundo domingo de outubro. Supõe-se que essa relação tenha surgido por ocasião do primeiro Círio, realizado em 1793, quando ocorreu a Feira de Produtos Regionais da Lavoura e da Indústria.

Para a feira, cada vila ou cidade do interior enviou produtos como cacau, baunilha, guaraná, mandioca, arroz, cerâmica, tabaco, redes de pesca, pirarucu salgado, cesto, esteira e outros bens, estando, possivelmente, aí incluídos brinquedos feitos no Município paraense de Abaetetuba, apesar de não existirem registros históricos que os nomeiem explicitamente como integrantes do rol de produtos da Feira de Produtos Regionais da Lavoura e da Indústria.

Para alguns moradores da cidade, o miriti sempre foi utilizado por crianças da região, que faziam seus próprios brinquedos - pequenas montarias e vigilengas - para usar em competições nos rios, igarapés e furos. Os artesãos de hoje, no entanto, afirmam que as miniaturas de embarcações associaram-se ao Círio, inicialmente, pelos votos de fiéis. Artesão de Abaetetuba, Manoelzinho expressa claramente essa relação: “Começou a idéia da venda com as canoinhas de promessas. Uma pessoa do interior, por exemplo, fez uma promessa por uma canoa dela que sumiu. Se aparecesse, ele levava uma montaria para Nossa Senhora de Nazaré”.

O principal pólo de produção dos brinquedos é Abaetetuba, onde ocorre o Miriti Fest, mostrando o melhor da arte em fibra de miriti. Além dos tradicionais brinquedos, a rica culinária à base do fruto também é destaque. Os brinquedos ainda são fabricados em Belém por artesãos procedentes daquela cidade e que moram na periferia da capital. Os artesãos são pessoas humildes e têm alguma outra profissão. Mas no período de fabricação dos produtos eles dividem o tempo, para que as centenas de brinquedos sejam confeccionadas a tempo para o Círio. A arte, na maioria das vezes, é repassada de pai para filho.

Apesar de hoje o brinquedo de miriti já ter tomado uma dimensão universal, a população local ainda não o valoriza como uma das riquezas artesanais do Estado do Pará. Já existem trabalhos de resgate cultural para reverter esta realidade, como a tentativa de se inserir em algumas escolas cursos de fabricação dos brinquedos. Ainda promove-se o treinamento de artesãos com cursos de renovação dos brinquedos em novos designs para inclusão no mercado como peças representativas de uma região, através da originalidade e qualidade dos produtos. Em que pese os brinquedos de miriti serem bem populares apenas no Pará, a palmeira tem ampla ocorrência. No Brasil  ela é encontrada nos estados do Amazonas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí, São Paulo e Tocantins e ainda no Distrito Federal.

A palmeira de miriti floresce durante quase o ano inteiro, porém com maior intensidade de dezembro a abril. A maturação dos frutos verifica-se principalmente de dezembro a junho. Os frutos podem ser colhidos diretamente da árvore, quando é iniciada a queda espontânea, ou recolhidos no chão, após a queda. Os frutos assim obtidos podem ser diretamente utilizados para semeadura, não havendo necessidade de despolpá-los. O miriti é rico em pró-vitamina A. Um quilograma de sementes contém aproximadamente 35 unidades. Sua viabilidade em armazenamento é geralmente curta. O óleo possui alto teor ácido oléico e ácidos insaturados, muito superior ao óleo de dendê e de piqui. Pesquisadores da Universidade Federal do Pará descobriram que o óleo de buriti ou miriti ao natural pode ser usado como protetor solar, porque absorve completamente as irradiações eletromagnéticas, as mais prejudiciais à pele humana. Já a amêndoa fornece 48% de outro óleo, amarelo-claro, que ainda não é aproveitado. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 74)

 
Apolonildo Brito

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