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Amazônia: o filão de água potável

A seca dos rios da Amazônia, no período de estiagem de 2010, a maior em 100 anos, ganhou as primeiras páginas da imprensa mundial, mas a região voltou a seu ciclo pluviométrico normal, detendo o maior volume d´água do mundo, 81% do total de água potável disponível no Brasil. Cerca de 21 mil Km de rios são navegáveis na Amazônia, despejando anualmente 20% da água doce que os oceanos recebem. Nesse universo aquático vive uma civilização ribeirinha

A notícia da seca dos rios da Amazônia, a maior bacia hidrográfica do Planeta, com as dramáticas fotos da morte em massa de peixes e animais aquáticos, ganhou manchetes e primeiras páginas da imprensa do mundo todo. Contudo, apesar da forte estiagem que ainda castiga populações ribeirinhas dos estados do Amazonas, Acre e Pará, a Amazônia continua a ostentar o lugar de detentora do maior recurso hídrico do mundo, pois a natureza, caprichosa em seus ditames, reflui e flui, como mostram os ciclos das secas já ocorridas na região, o que prova, em tese, que a ação do homem tem pouco ou quase nada a ver com o fenômeno sazonal. Mas nunca é demais alertar que atos como desmatamento, queimadas e emissão de grande volume de dióxido de carbono na atmosfera, por exemplo, são altamente prejudiciais ao meio ambiente e contribuem para um desequilíbrio ecológico global com conseqüências que a ciência ainda não conseguiu prever com precisão.

Indagado se o desmatamento muda o regime de chuvas na Amazônia e no resto do Brasil, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Antonio Manzi, disse que a resposta é muito provavelmente sim, mas que ainda não há evidências científicas confiáveis para a avaliação da intensidade das modificações. Em linhas gerais, a análise de Manzi pode bem ser estendida a outros fenômenos que ultimamente têm surpreendido o mundo pela fúria com que se manifestam, como furacões, terremotos, ciclones, trombas d’água, buracos na camada de ozônio, degelo das calotas polares e o aumento do nível das águas dos mares e oceanos com o aquecimento crescente das suas temperaturas.

O secretário de meio ambiente do Estado do Amazonas, Virgílio Viana, aponta as mudanças climáticas globais e as transformações no meio ambiente, a exemplo de desmatamento e queimadas, como as principais causas da seca. “O clima do mundo está mudando. Segundo relatório da ONU, o uso acentuado de combustíveis fósseis e o desmatamento são as principais causas. Em relação à seca no Amazonas, um dos principais fatores é o aquecimento do oceano Atlântico, que dificulta a queda de chuvas”, afirma o secretário.

Em meio aos turbilhões de informações lançadas acerca dos fenômenos que nos últimos tempos agem sobre populações inteiras, provocando fome, mortes, doenças, desabrigos e outros prejuízos, há os que acusam frontalmente o homem de estar cavando a sua própria sepultura ao agir contra a natureza, ignorando a sustentabilidade necessária ao meio ambiente, principalmente quando se trata da Amazônia, foco da cobiça internacional, ainda mais agora em que as grandes potências têm exauridas, ou quase isto, as suas reservas biológicas naturais, principalmente de água, levando à catastrófica previsão de que no mais tardar em 2025 o precioso líquido, na forma potável, não mais será suficiente para matar a sede dos seis bilhões de seres humanos que habitam a Terra, animais e nem tampouco para tocar as atividades econômicas que dependem diretamente da substância.

Apesar das suas secas, a Amazônia continua soberba no que se refere à água potável: Oitenta e um porcento do total do líquido disponível no Brasil estão na região que possui o maior rio do mundo em extensão e volume de água. Para se ter uma idéia da imponência do Amazonas, em menos de meio minuto de vazão, ele poderia saciar a sede de todos os habitantes do mundo.

A natureza, contudo, dá as suas lições, estabelece paradoxos. A água abundante na Amazônia e ainda em muitas outras regiões do mundo, por muito tempo foi considerada recurso natural renovável e infinito, mas um estudo aprofundado do assunto levou à recente “descoberta” de que a substância é finita e por conseqüência escassa no futuro. Será? Outros veios e fontes não surgirão para mitigar o homem e animais? O ciclo da água deslocada da terra para a atmosfera, em forma de vapor, e o seu retorno sob a forma de chuva, não irá ser normalizado, em que pese a constante interferência das chuvas ácidas? Isto só a natureza ainda não plenamente conhecida da ciência, dirá, como tem destruído teorias e se revitalizado na região amazônica, pelo menos desde que se tem conhecimento estatístico das cíclicas secas que a assolam.

A atual vazante não é a pior já ocorrida na Amazônia. Para ser preciso, a estiagem que ora perturba populações e autoridades é a 11ª mais causticante, ficando atrás das que surgiram, segundo dados da Superintendência Regional do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), pela ordem de intensidade, nos anos de 1963, 1906, 1997, 1916, 1926, 1958, 1936, 1998, 1909 e 1995, suplantando apenas a seca de 1907. Como se vê, secas já grassavam nos rios, lagos, igarapés e paranás amazônicos, antes mesmo da era dos desmatamentos, queimadas e do propalado desenvolvimento sustentável.

Após cada uma dessas vazantes a região voltou ao normal como detentora da maior bacia hidrográfica do mundo e decerto isto também irá ocorrer quando passar a atual estiagem. A bacia amazônica tem uma drenagem de 5,8 milhões de quilômetros quadrados, sendo 3,9 milhões no Brasil. Suas nascentes estão na Venezuela, Peru, Colômbia e Bolívia. Amazonas, Pará, Amapá, Acre, Roraima, Rondônia e Mato Grosso são os estados abrangidos pela bacia, no Brasil. Como é atravessado pela Linha do Equador, o rio Amazonas tem seus afluentes nos dois hemisférios da Terra. Os principais são os seguintes: Japurá, Negro e Trombetas, à margem esquerda, e Juruá, Purus, Madeira, Xingu e Tapajós, à direita. A bacia hidrográfica da Amazônia possui 19 mil quilômetros de rios navegáveis, sem contar com igarapés, furos, paranás e lagos.

Com 7.025 quilômetros de extensão, o Amazonas despeja 20% da água doce que os oceanos recebem anualmente. É um rio de planície, possuindo baixa declividade. A largura média dele é de quatro a cinco quilômetros, mas em alguns trechos chega a alcançar 50 quilômetros. Entre os afluentes do rio Amazonas encontram-se rios de águas barrentas ou brancas, de águas claras e de águas pretas. Os de águas barrentas, como o próprio Amazonas e ainda o Madeira e o Purus, têm a cor causada por sedimentos ricos em nutrientes levados rio abaixo desde as montanhas andinas. Já os rios de águas claras, como o Xingu, Tapajós e Trombetas, possuem as suas nascentes nos planaltos do Brasil e das Guianas. Como drenam enormes áreas e muito erodidas, as águas são relativamente transparentes e alcalinas. A grande quantidade de areia na planície amazônica deu origem aos rios de águas pretas, os mais característicos da região. Os solos arenosos são muito pobres em nutrientes e os rios que nascem sobre eles quimicamente são os mais puros do Planeta. 

A previsível escassez de água vem levando o homem a explorar os aqüíferos naturais. Eles são muitos na Amazônia, ainda praticamente inexplorados economicamente, mas no Mar de Aral, na Rússia; rio Amarelo, China; na Índia e em Ogallala, Estados Unidos, já estão praticamente esgotados, o que tem determinado a redução da produção agrícola destas regiões, justamente por falta de água.

 

Bacia Amazônica

 

Amazonas – O rio nasce a 5.300 metros de altitude, na montanha Nevado Mismi, nos Andes peruanos. É reconhecido pela National Geographic Society e pelo Instituto de Pesquisa Espaciais de São José dos Campos, São Paulo (Inpe) como o maior rio do mundo, em extensão e volume d’água, Até chegar à denominação de Amazonas, é chamado de Apurimac, Ucayali e Solimões. O Amazonas tem seu curso em três países, Peru, Colômbia e Brasil. Na foz do Amazonas, que mede cerca de 149.000km², ficam os rios Pará, Tocantins e Capim. No território paraense ele recebe vários dos seus 1.100 afluentes, como Tapajós e Xingu pela margem direita, e Nhamundá, Trombetas, Paru e Jari pela margem esquerda. Após seu longo percurso, protagoniza um dos maiores fenômenos hidrográficos da região: a pororoca, um estrondoso encontro das águas do oceano com as águas dos rios que provocam um barulho ouvido a quilômetros de distância.

Rio Negro – Em seu curso, o rio Negro percorre 1.700 quilômetros, quase a distância de São Paulo a Salvador. Ele nasce na região pré-andina da Colômbia e corre ao encontro do Solimões, nas proximidades de Manaus (AM). É um dos três maiores rios do mundo em volume de água, fluindo o líquido numa quantia maior do que o de todos os rios europeus reunidos. No Brasil, perde apenas para o Amazonas. Em sua longa jornada, o rio Negro carrega folhas e outras matérias orgânicas que o tingem de âmbar.

Rio Solimões – Trecho compreendido entre as bocas dos rios Javari e Negro, que entra no Brasil através do Município de Benjamim Constant e se encontra com o rio Negro, perto de Manaus, quando passa a ser chamado de Amazonas. Nasce no Peru e apresenta uma extensão de 1.620km entre os municípios de Tabatinga e Manaus. As cidades de Coari e Tefé possuem as principais instalações portuárias do rio Solimões.

Rio Juruá – O rio Juruá nasce no Peru sob a denominação de Paxiúba. Tem três mil quilômetros de extensão e está entre os dez maiores rios da Terra. O alto Juruá não apresenta condições de navegabilidade, a navegação é realizada no médio e baixo curso do rio, com características de planície com uma extensão de 3.120 km

Rio Purus – Nasce no Peru na Serra da Contamana com aproximadamente 500m de altitude e percorre cerca de 3.300 km até à foz, no rio Solimões. Possui características de rio de baixada, com percurso bastante sinuoso e curvas bem fechadas. O trecho estudado possui 1.175 km e vai da cidade de Canutama até sua foz, no Estado do Amazonas

Madeira – O rio é navegável numa extensão de 1.056 quilômetros, entre Porto Velho e sua foz, no rio Amazonas. Mesmo na época de estiagem, ele permite a passagem de grandes embarcações.

Tapajós - Afluente do rio Amazonas, nasce do encontro dos rios Juruena e São Manuel, também conhecido como Teles Pires na divisa dos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso. Com 1.992 quilômetros de extensão, entre seus principais afluentes está o rio Arapiuns. Suas águas, de coloração azul-esverdeada, constituem-se em atração turística. Devido às diferenças de composição, densidade e temperatura, as águas do Tapajós não se misturam com as águas do Amazonas, provocando o fenômeno conhecido como “encontro das águas”, que pode ser visto em frente à cidade de Santarém.

Tocantins – O rio é formado pelos rios Maranhão e Paraná, nasce na serra do Pireneus, em Tocantins. Pelo canal de Tagipuru comunica-se como o rio Amazonas. Seus principais afluentes pela margem direita são os rios Manuel Alves da Natividade, Sono, Manuel Alves Grande e Farinha; e pela margem esquerda, rios Santa Teresa, Itacaiúnas e Araguaia (seu maior afluente).

Xingu - Afluente da margem direita do rio Amazonas, é navegável em apenas novecentos quilômetros. Nascido no Planalto do Mato Grosso, corre ente os rios Tapajós e Tocantins num vale estreito, na direção sul-norte. Com 1.980 quilômetros de extensão, é um rio de águas claras. Seu curso é sinuoso até desaguar no Amazonas, na cabeça do estuário. No Pará seu principal afluente é o rio Iriri.

Jari - Com cerca de oitocentos quilômetos de extensão, o rio Jari nasce na Serra do Tumucumaque e deságua no estuário do Amazonas, em frente à Ilha Grande de Gurupá. Apesar de largo, o Jari é difícil de ser navegado devido às inúmeras cachoeiras existentes ao longo de seu curso.

Pará - Nasce na região das ilhas e deságua entre o Cabo Maguari e a ponta Curçá. Um dos principais formadores da Baía do Marajó, o rio Pará recebe a vazão dos rios Anapu-Pacajá, Jacundá, Araticu, Cupijó, Tocantins, Moju, Acará e Guamá. Através do estreito de Breves, une-se ao rio Amazonas, separando a Ilha do Marajó do continente.

Igarapés e furos - Os igarapés e furos também têm grande importância dentro do complexo hidrográfico da Amazônia. O furo é um canal sem correnteza própria, que corta uma ilha fluvial - como os furos de Breves, do Combu, da Onça, da Paciência e das Marinhas. Liga braços de rios no meio de planícies. O igarapé é um riacho pequeno, que em seu baixo curso cruza floresta de várzea. Geralmente os igarapés fluem por túneis de vegetação e apresentam águas escurecidas, devido à quantidade de sedimentos depositados nos leitos e por receberem pouca luminosidade solar. Os “caminhos de canoa” foram fundamentais na ocupação da região pelos índios e até hoje participam diariamente do dia-a-dia dos habitantes de suas margens.

A  Amazônia, com os seus rios, lagos, paranás, igapós e igarapés, forma os caminhos da região e a água é constante no imaginário local. Muitos desses caminhos, transformados em hidrovias, transportam vidas e riquezas, levando certezas ou esperanças, fazendo a aproximação de moradores das mais distantes localidades, onde o carro não chega e o avião não pousa. A Amazônia, que já foi tida como “pulmão do mundo”, hoje é conhecida como manancial de biodiversidade e “paraíso das águas”, mesmo com a presença de secas e ameaças de esgotamento da preciosa substância líquida.  (Douglas Lima – Revista Amazon View – Edição 73)

 
Apolonildo Britto

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