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BREVE HISTÓRIA DE MINHA VIDA NO JORNALISMO

Parte 1 - Vivo o jornalismo quase todos os meus 73 anos de vida, embora dividindo essa existência entre a aviação e a militância política, duas outras paixões. Aos seis anos de idade já estava envolvido no jornal "O Marreta", tribuna que vovô Apolonio Senna combatia a tirania do governo do general Magalhães Barata em Alenquer, minha cidade natal. O jornal era tipográfico e minha primeira função era desmontar o prelo manual após a impressão, limpar os tipos com querosene e escova e guardá-los nos escaninhos por ordem alfabética, fonte, formato e corpo. Também era minha função distribuir o jornal depois de impresso, período que ganhei consciência da importância e dos riscos da imprensa oposicionista.

O Marreta não só despertou um ideal de luta, como me acordou para a vida, por que comecei vislumbrar as contradições sociais e políticas daquela época. A II Grande Guerra havia terminado no resto do mundo, mas outra luta continuava no front paraense e brasileiro, contra os resquícios do autoritarismo do Estado Novo expresso pelo "baratismo" paraense. Os comícios inflamavam corações, protestando e portando bonecos de engonço pejorativos ao ex-governador Magalhães Barata, representado pela alegoria do inseto. “Assunção, Barata não!” ou “Barata: pega na chinela e mata!”, era o grito de guerra daquele povaréu oposicionista que se reunia na Praça da Matriz, em frente à igreja de Santo Antônio, o padroeiro da cidade de Alenquer.

Apolônio Senna, meu avô e mentor, um lúcido poeta e professor aposentado, que depositara em mim o grande carinho reprimido desde que o seu único e amado filho morreu de hanseníase, a terrível lepra. Na verdade, ele ainda não se conformara com a perda do filho Gutemberg e blasfemava constantemente contra Deus pelo seu triste fim. Dizia que não podia acreditar num Deus tão perverso, que premiava os ímpios e castigava um talentoso artista como Gutemberg, incapaz de molestar uma simples mosca. Lembrava que o filho falecido possuía dotes artísticos insuperáveis na terra ximanga: era poeta, pintor, compositor e tocava os mais variados instrumentos musicais, além de ser pessoa humana bondosa e fina.

Apesar da impiedosa moléstia, Gutemberg era alegre e pessoalmente comandava os antigos carnavais e serestas ximangas, compondo músicas e regendo a orquestra local, atividades que exercia com esmerado gosto. Tinha ouvido apurado a ponto de detectar numa orquestra um instrumento destoado ou fora de compasso. Se algum dos seus vários amigos desejava homenagear alguém, recorria à sua prodigalidade poética e musical. Mas Gutemberg, após contrair a doença, também evitava o contacto físico com qualquer pessoa, consciente do mal que lhe corroía.

Aliás, sobre ele escreveu o jornal O Município, editado em Alenquer em 1940: “Dentre os alenquerenses que não nasceram em Alenquer, Gutemberg Sena foi um dos mais exponenciais. Além de artista das letras, ele foi o príncipe dos pintores do Baixo Amazonas e um dos maiores musicistas de sua época.

Nasceu na terra baré, em Parintins, mas criou-se no torrão ximango, onde, em luta cruenta com um mal físico irremediável, iluminou com a lâmpada maravilhosa de seu espírito as letras pátrias, num astro de brado nato, feito de sentimentalismo íntimo, todo vivido em espiritualidade espontânea e de conformação ante o sofrimento lento e fatal. Todo o seu ser sintetizava-se na criatividade que possuía, cultivando até o último instante de sua vida a esperança da cura que não atingiu. Não escondia esse anseio de tornar-se, como de fato o era, o são espírito encarcerado num corpo doente, irradiando, em jóias poéticas, todo o seu fulgor de vate verdadeiramente consciente de seu valor. Gutemberg Sena produziu o quanto pôde facultar a inclemência da sorte. Deixou em Manaus e Belém atestados vivos de sua arte e, em Alenquer, foi respeitado e amado por todos os que sabiam apreciar os encantos naturais de sua espiritualidade. Em seu arquivo podemos colher um a imensa bagagem artísticas e literária que legou à posteridade...”.

O velho Apolônio lagrimava toda vez que dele falava aos netinhos, para cultivar-lhe a memória. E dizia:

– Quando eu morrer, se existir Deus, vou lhe puxar as barbas pelo que fez a meu filho!

Deitado à rede ou passeando comigo, ele contava mil e uma histórias da Cabanagem vividas em Alenquer, quando os portugueses foram massacrados pelos porretes cabanos no lago do Bloqueio, nome advindo, segundo narrava, do cerco ali ocorrido durante a revolta, histórias essas que passavam de pais para filhos. Não deixava também de mencionar os feitos da Guerra do Paraguai e as lutas pela Independência do Brasil, despertando em mim o sentimento nacionalista. Havia em vovô uma pedagogia poética e política em tudo que fazia e falava, que fundamentalmente influía na formação da minha personalidade. Seus traços fisionômicos refletiam a herança indígena de seus antepassados e, como tal, era também dócil, paciente e bravo. Fazia de seu jornal tipográfico, O Marreta, a tribuna de suas idéias liberais e oposicionistas, onde, desde cedo, me iniciou na arte gráfica e na política.

A memória me traz a doce saudade do vovô e dos tempos da infância feliz em Alenquer. Tudo parecia ter acontecido no dia anterior. Embora minha cidade natal não seja mais a mesma de outrora, continuava a ser a cidade eminentemente política de minhas lembranças. A Cubinha, como passou mais tarde a ser chamada, pejorativamente, numa referência direta à ilha de Fidel Castro. Ali se fazia política diuturnamente, quer houvesse eleição ou não. Os ximangos politicavam 365 dias por ano e se dividiam entre si de acordo com suas preferências políticas. De um lado os partidários do general-caudilho Joaquim Cardoso de Magalhães Barata, do outro, as demais facções oposicionistas. As disputas entre ambas chegavam às raias da violência física e criavam inimizades irreconciliáveis. O delegado Conegundes e o coletor estadual simbolizavam no município o governo arbitrário do general-caudilho. Reinava então o poder da força, no qual a "lei é potoca", como declarou certa vez Magalhães Barata. 

Como toda ação corresponde a uma reação igual e no sentido contrário, também existia uma oposição vigorosa em Alenquer, liderada principalmente pelas famílias Britto, Valente e Bentes, além dos advogados Benedicto Monteiro, Ubirajara Bentes de Souza e do velho poeta Apolônio Armínio Malcher de Senna, que fazia de "O Marreta" a sua principal trincheira de luta. Nesse pasquim, Apolônio disparava contundentes críticas ao prefeito peessedista Aricínio Andrade e contra o governo arbitrário do general Barata. As manchetes estampavam em letras garrafais os escândalos ali cometidos pelos baratistas, dissertados em matérias escritas com a mestria do velho poeta.

Faiscava ferro e fogo nos dias em que o panfletário jornal corria de mão em mão no município. Havia ainda outra forma de circulação de O Marreta, as várias tabuletas com as principais denúncias do jornal do dia, que eram afixadas nos lugares públicos ou conduzidas pelas ruas da cidade pelos jornaleiros, inclusive por mim. Esse painéis ambulantes, porém, nem sempre concluíam seus trajetos, obstruídas que eram pela violência dos baratistas. Disso me recordo muito bem, pois fazia questão de atar as tais tabuletas ao corpo, feito homem-sanduíche, e sair pela cidade badalando uma matraca na mão, chamando a atenção de todos e gritando as manchetes principais:
– Roubo na Prefeitura! Lavrador é espancado por baratistas! E assim por diante...

Quantas vezes cheguei em casa com as tabuletas quebradas e todo rasgado por tamanha ousadia, mas o desafio me fascinava. E lá estava eu novamente às voltas com as tabuletas pelas ruas de Alenquer, matraqueando e bradando as denúncias de meuquerido avô e ídolo, Apolônio. Quando as eleições chegavam, as coisas esquentavam de vez. Muitas vezes vi meu pai Tote Britto armar-se para proteger os comícios ameaçados pela polícia do delegado Conegundes, os bate-paus dos baratistas. A cidade ficava em pé de guerra. Não fosse a fama e a valentia da família Brito, talvez muitas mortes houvessem acontecido. De vez em quando, ouvia-se o pipocar de tiros durante as memoráveis campanhas eleitorais. Assim se fazia política em Alenquer. (Apolonildo Senna Britto Facebook 15/09/13)

FIM DA PRIMEIRA PARTE 1

AGUARDEM A SEGUNDA PARTE
De freelancer alado à imprensa alternativa contra o Golpe Militar de 64.

 
Apolonildo Brito

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