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Emílio Gueldi, o acervo científico da Amazônia

Há uma simbiose entre o zoólogo suíço Emilio Goeldi e o naturalista paraense Ferreira Penna, talvez motivada pelo fato de o helvécio ter consolidado a obra do cientista paraense, o Museu Emilio Goeldi, que completa 147 anos em outubro próximo. Assim como não se pode falar sobre o zoólogo sem mencionar o museu que denomina, ou vive versa, a imagem de Ferreira Penna está ligada ao suíço para fazer justiça a ambos.

Há uma simbiose entre o zoólogo suíço Emílio Goeldi e o naturalista paraense Domingos Soares Ferreira Penna, talvez motivada pelo fato do helvécio ter consolidado a obra do cientista amazônico: o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), que em outubro de 2006 completa 140 anos de fundação. Assim como não se pode falar sobre o zoólogo sem mencionar o museu que leva seu nome, ou vice-versa, a imagem de Ferreira Penna está ligada ao suíço para fazer justiça a ambos.

O Museu foi criado em 1866 pelo naturalista Ferreira Penna que queria uma instituição capaz de inventariar os recursos naturais da Amazônia, formar acervos científicos e difundir conhecimentos. Então, fundou a Associação Philomática, núcleo do Museu, posteriormente Emílio Goeldi em homenagem ao cientista suíço, que o dirigiu entre 1894 e 1921. Hoje, a instituição possui também a Estação Científica Ferreira Penna (ECFPn), localizada na Floresta Nacional de Caxiuanã, uma biblioteca especializada em História Natural, Geografia, Etnologia e Arqueologia, idealizada por Ferreira Penna e concretizada em 1894 por Goeldi.

O MPEG é uma das mais importantes instituições museológicas brasileiras, investe em formação científica e técnica, fomenta pesquisas, contribuindo para a formulação de políticas públicas e ao desenvolvimento da região. Conta com um parque zoobotânico, com mais de duas mil espécies de plantas e cerca de 600 animais nativos da Amazônia, em uma área de 52 mil metros quadrados. Possui ainda um acervo com mais de 100 mil peças nas áreas de Arqueologia e Antropologia.

O Pavilhão Domingos Soares Ferreira Penna, construído em 1887 e tombado em 1994 pelo Insituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é considerado o marco do início das ciências naturais na região e símbolo maior do patrimônio do museu. Para avaliar a importância histórica das duas personalidades, em especial de Emílio Goeldi, precisamos nos situar dentro da época e do contexto regional em que viveram.

Registros do site do MPEG dão conta que o século XIX foi o auge das expedições naturalistas à Amazônia, com ingleses, alemães, franceses, italianos, americanos e russos acorrendo à região. Atribui-se a isso o motivo da primeira tentativa de criar um museu de história natural em Belém, para servir de apoio às expedições, formar cientistas e iniciar coleções que pudessem ser preservadas no próprio País.

Em 1861, foi adotado um aditivo à Lei do Orçamento Provincial para a criação de um museu no Pará. Cinco anos depois foi fundada a Associação Philomática (Amigos da Ciência), núcleo do nascente museu, reforçado pela presença em Belém de Louis Agassiz, professor suíço (atuante nos Estados Unidos), que chefiou uma expedição científica ao Brasil entre 1865 e 1866, período em que a Província do Grão-Pará era presidida pelo general Couto de Magalhães, naturalista e etnólogo que muito ajudou a fundar a Associação Philomática, sob a presidência do historiador, arqueólogo e naturalista Ferreira Penna.

A segunda metade do século XIX marcou a história do Pará, quando a borracha passou a ser o produto mais exportado do Estado, gerando riquezas e expandindo os movimentos intelectuais, com a criação de associações culturais, jornais e partidos políticos, além das freqüentes visitas de naturalistas, artistas e aventureiros. Nesse período, também, ocorreu o embelezamento e urbanização da cidade, que daria a Belém as condições de se tornar a Metrópole da Amazônia. Mas, a conjuntura política na década de 1880 era complicada, quando grupos monarquistas e republicanos brigavam por causas próprias.

Ferreira Penna, republicano, envolveu-se em acirradas disputas políticas, as quais, somadas à sua delicada saúde, dificultou a consolidação do museu por falta de pessoal e apoio para as pesquisas. Parte das coleções acabaram deteriorando-se ou perdendo-se pelas más condições de conservação, cujo acervo só não foi ao colapso graças aos trabalhos de Ferreira Penna. A morte do naturalista, porém, nos primeiros dias de 1889, coincide com o fechamento do Museu.

Três republicanos foram responsáveis pela reabertura do Emílio Goeldi: Justo Chermont, primeiro governador republicano; José Veríssimo, diretor da Instrução Pública e mentor da recuperação do museu, iniciada em 1891; e Lauro Sodré, governador a partir de 1893, que prosseguiu na execução do sonho de Ferreira Penna. Renegando tudo o que pudesse estar vinculado ao Império e influenciados pelo Positivismo, os homens do início da República perceberam a importância que o Museu Paraense, “obra bastarda da monarquia”, deveria ter na nova administração.

Apesar do esforço do Governo do Estado em recuperar o Museu, faltava direção científica e pessoal habilitado. O governador Lauro Sodré mandou vir do Rio de Janeiro o naturalista Emílio Goeldi, demitido do Museu Nacional por questões políticas após a proclamação da República. O zoólogo suíço assumiu em 9 de junho de 1894 a direção do Museu.

No início do século XX, o mundo passou por transformações radicais nas artes, na indústria e na política. O Pará foi pioneiro no Brasil ao permitir o ingresso da mulher nas atividades de nível superior e no serviço público, com a zoóloga Emília Snethlage, contratada em 1905 pelo Museu. Nascida na Alemanha, ela atendeu convite de Emílio Goeldi para trabalhar na Amazônia. Deixou a família para dedicar-se, durante 25 anos, ao estudo de sua nova pátria.

Depois de 13 anos de atividades, Emílio Goeldi retirou-se doente e retornou à Suíça, onde faleceu em 1917, aos 58 anos. Jacques Huber, botânico conterrâneo, o substituiu na direção do Museu. Ambos foram responsáveis por uma intensa atividade científica, período em que o Museu foi reestruturado e ganhou o respeito internacional. Foram desenvolvidas pesquisas geográficas, geológicas, climatológicas, agrícolas, faunísticas, florísticas, arqueológicas, etnológicas e museológicas. O papel educacional do Museu foi reforçado com o parque zoobotânico, publicações, conferências e exposições.

Lani Goeldi, bisneta de Emílio Goeldi, revela em biografia, por ela escrita sobre o zoólogo, informações que registram a trajetória que o trouxe à Amazônia, motivado por interesse cientifico, residindo primeiro no Rio de Janeiro, onde ocupou o cargo de diretor do Museu Nacional a convite do imperador Pedro II, transferindo-se posteriormente ao Museu Paraense. Após a morte de Goeldi, seu acervo, como documentos e objetos particulares, chegou às mãos da bisneta, que resolveu catalogá-lo e colher informações e depoimentos sobre o bisavô.

Na biografia de Lani, Emil August Göldi (nome oficial do cientista) nasceu em Ennetbuhl, distrito de Toggenburg Superior, Cantão de St. Gall (Suíça), em 28 de agosto de1859, único filho do casal Johannes Göldi e Margaretha Kunt. Descendente da antiga nobreza germânica, exerceu a função de professor assistente na cidade de Neuveville, onde aprimorou seus conhecimentos e aprendeu italiano, passando a morar em Nápoles (1880) para freqüentar a Universidade e o Instituto Dorhn de Pesquisas Marinhas.

Em 1882, Goeldi concluiu seus estudos na Universidade de Jena e Leipzig, Alemanha, onde teve oportunidade de servir como assistente do célebre zoólogo e evolucionista Ernst Haeckel. Defendeu doutoramento em 1883 e continuou em Jena trabalhando e estudando a fauna da América do Sul, até fins de 1884, quando, a convite do imperador Pedro II, veio para o Brasil dirigir o Museu Nacional.

A maior obra de Goeldi na Amazônia, contudo, não foi a reestruturação do Museu Paraense, mas sua contribuição científica, atestada na permanência das espécies que descreveu e do gênero que criou; contribuições para o estudo da Biologia e Fisiologia dos mosquitos; na repercussão de suas idéias e pela rede científica que manteve. Graças aos primeiros trabalhos com mosquitos amazônicos, Goeldi foi admitido na Sociedade Entomológica da França (1903-1910). Durante a pesquisa, Goeldi estabeleceu contato com duas das maiores autoridades mundiais em entomologia, Frederic Theobald, do Museu Britânico, e Adolpho Lutz, então diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo.

Goeldi iniciou suas pesquisas sobre a transmissão de doenças por insetos devido a fortes indícios de que a filariose era transmitida pelo mosquito Culex. Experimentos haviam comprovado que a transmissão da malária se dava pelos mosquitos do gênero Anopheles.

Seu interesse pelos mosquitos amazônicos também está relacionado a uma demanda do próprio governo do Estado do Pará, pois nas décadas de 1890 e 1900, no auge da produção de borracha na Amazônia, a febre amarela despontou como um dos principais entraves aos negócios com a Europa, principalmente, com a Inglaterra. O fluxo de migrantes aumentou consideravelmente, e, na sua proporção direta, também o número de casos de febre amarela. Foi nesse contexto que Goeldi começou a trabalhar com os mosquitos. “Os mosquitos no Pará” pode ser considerado um trabalho característico da virada do século XX, quando zoologia, bacteriologia e saúde pública eram quase indivisíveis. O próprio Goeldi, ratificando a posição de seu colega italiano Grassi, reconhecia a necessidade da ampliação das fronteiras do conhecimento científico, extrapolando competências e campos disciplinares. Foi o zoólogo, por exemplo, que incitou dirigentes públicos a assumirem um compromisso com o saneamento de Belém, bem como provocou parte da classe médica que ainda se mantinha cética em relação ao papel dos mosquitos na transmissão de doenças. Ao mesmo tempo, Goeldi estabeleceu um programa de pesquisas que incluiu a observação do ciclo biológico dos mosquitos; experimentos com a alimentação e desova; inventário e descrição de espécies que ocorrem na Amazônia. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 79)

 
Apolonildo Brito

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