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Jacaré: a fera pré-histórica da Amazônia

Natural da Bacia Amazônica, o jacaré-açu coabita com o jacaretinga, jacaré-do-papo-amarelo, jacarepaguá e jacaré-coroa. Todos são répteis de sangue pré-histórico, descendentes dos dinossauros, cuja origem os faz com viver também na terra, além dos seus habitats naturais – rios, lagos, igarapés e pântanos. O jacaré esteve ameaçado de extinção por causa da sua pele exótica e, carne saborosa, gozando hoje proteção do Ibama

Berço único do jacaré-açu, a Bacia Amazônica, maior área hidrográfica do mundo, também abriga espécies como jacaretinga, jacaré-do-papo-amarelo, jacarepaguá e jacaré-coroa. Todos são répteis de sangue pré-histórico, descendentes dos dinossauros, cuja origem faz com que também possam viver na terra, além dos seus habitats naturais – rios, lagos, igarapés e pântanos. O jacaré esteve por várias décadas ameaçado de extinção, em virtude de caças indiscriminadas por causa da sua pele que dá um couro bastante cobiçado e a saborosa carne, produtos com grande aceitação nos mercados nacional e internacional.

Hoje, autoridades, cientistas e ambientalistas defendem a caça manejada do jacaré, temendo uma superpopulação do réptil, principalmente na Amazônia. E a primeira investida oficial, neste sentido, já está sendo dada na Reserva Extrativista Mamirauá, no Estado do Amazonas, onde estima-se que só de jacaré-açu existam dois milhões de exemplares. Há relato de que na primeira metade do século XX, em decorrência de superpopulação de jacarés no Município de Alenquer, no Pará, o povo local reunia-se em mutirões para matar os répteis a pauladas, cuja atividade era chamada de “batição”. Consta que nessa época era comum na localidade ver pessoas com pernas, braços e outras partes do corpo amputados por mordidas de jacaré. Também havia ocorrência de óbitos, pelo mesmo motivo.

A expectativa é de que até outubro deste ano sejam mortos cinco mil jacarés em Mamirauá, onde depois será construído um abatedouro flutuante para a caça de mais cem mil. Paralelamente ao abate, há movimentações de cunho comercial para a utilização legal da carne e do couro do jacaré. O quilo da carne do animal chega a custar 20 reais, enquanto o centímetro linear do couro da barriga é comercializado a até 25 reais, no mínimo.

Das cinco espécies de jacaré existentes no Brasil, somente o açu ou jacaré-preto vive apenas na Bacia Amazônica. As outras espécies também ocorrem nessa imensa área hidrográfica, mas ainda são encontradas em regiões como o pantanal matogrossense, margens do rio Parnaíba, bacia do Prata e lagoas litorâneas. São os casos do jacaré-tinga, jacaré-do-papo-amarelo, jacarepaguá e jacaré-coroa,

Os jacarés são ecologicamente importantes porque fazem o controle biológico de outras espécies animais ao se alimentarem daqueles indivíduos mais fracos, velhos e doentes, que não conseguem escapar de seu ataque. Também controlam a população de insetos e dos gastrópodos (caramujos) transmissores de doenças como a esquistossomose (barriga-d’água). Suas fezes servem de alimento a peixes e a outros seres vivos aquáticos.

O jacaré é carnívoro e aceita de tudo, desde que a alimentação fornecida seja à base de proteína animal. Devido ao metabolismo lento, alimenta-se relativamente pouco. Ou seja, se pesar 40 quilos, deve comer quatrocentos gramas por dia, índice considerado baixo para um animal carnívoro.

Seu sistema alimentar tem algumas peculiaridades, a começar pela boca, munida de um mecanismo que possibilita raspar o fundo do rio para ingerir pequenos organismos, caranguejos, peixes e moluscos, sem engolir muita água. Isto graças a uma válvula ligada à língua, que se fecha quando o animal mergulha. O sistema digestivo possibilita o aproveitamento quase total das proteínas ingeridas. Tanto é que as fezes do jacaré não “cheiram”, esfarinhando-se com um simples toque.

O jacaré-açu, além de jacaré-preto é também chamado de jacaré-gigante. Esta última denominação é decorrente do fato de que chega a atingir até seis metros de comprimento e a pesar 350 quilos. É o maior dos jacarés sul-americanos. A sua longevidade alcança de 80 a 100 anos. Ao nascer, a espécie mede 30 centímetros de comprimento. A fêmea põe de 40 a 50 ovos uma vez por ano.

Focinho grande e curto, o quarto dente não-visível com a boca fechada e placas ósseas na barriga são as principais características físicas da espécie que vive nos rios, igarapés e lagoas da Amazônia. O jacaré-preto é um bicho carnívoro que se alimenta de quase todos os animais da floresta, desde peixes até aves e mamíferos. Come inclusive piranhas. Nada com o movimento ondulante da cauda. Olhos e narinas são salientes, permitindo-lhes ficar semi-submersos como um submarino.

Para a reprodução, a fêmea faz um ninho na vegetação na beira do lago, rio ou igarapé, onde coloca seus ovos que após um mês de incubação, eclodem. Ao contrário da maioria dos répteis, as fêmeas de jacaré costumam proteger os ninhos e filhotes. O acasalamento ocorre na água, mas a fêmea bota os ovos em terra.

Fazendeiros não gostam de jacarés-açus por perto, pois representam algum perigo para as pessoas e suas criações, e normalmente os matam. Ele é considerado uma das feras das águas amazônicas, mas paradoxalmente teme seus inimigos quando ainda jovem. Se não é comido no ovo por carnívoros ou grandes cobras, corre o risco de ser devorado, assim que nasce, pela jibóia ou por jacarés adultos.

Ao contrário do que se pensa, o jacaré preto não é lento, apesar do imenso tamanho que alcança. Se for melindrado ou estiver prestes a dar o bote, adquire velocidade impressionante. Dentro da água, seu ataque é geralmente mortal, já que é um exímio nadador. O que mais assusta nesse animal é o tamanho de sua boca e a quantidade de dentes – entre 70 e 80. Quando a vítima é pequena, simplesmente engole a presa inteira. Já quando a vítima é maior, a segura pelas mandíbulas e a sacode bruscamente até que se despedace. Quando o ataque acontece dentro da água, uma espécie de válvula isola a traquéia evitando, assim, que a água invada o pulmão. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 70)

 
Apolonildo Brito

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