Amazon View!

Matérias Temáticas | Flora

A triste sina dos castanhais da Amazônia

A castanheira é uma das mais nobres e generosas das árvores da Amazônia, chegando a 50 metros de altura e até à idade estimada de 1.200 anos, produzindo frutos. Apesar das fases de fastígio, os projetos agropecuários e madeireiros foram devastadores para os imensos castanhais da Amazônia, fazendo “cemitério de castanheiras” pela região.

A castanheira (árvore da família das Lecythidáceas) é uma das mais nobres e generosas das árvores da Amazônia. Seu belo porte, seu talhe esbelto, sua frondosa copa verdejante e seu delicioso fruto dão-lhe qualidades excepcionais, além de ser uma das maiores árvores da América do Sul, chegando a 50 metros de altura. A maioria das castanheiras pode chegar até à idade estimada entre 800 e 1.200 anos, produzindo ouriço (fruto) com aproximadamente um quilo, que pode conter até 24 sementes ou amêndoas conhecidas como castanha-do-pará, castanha-do-brasil, castanha-da-amazônia, castanha-do-maranhão, castanha-do-rio-negro, tocari, tururi, cari, juviá ou amendoeira-da-américa.

A castanheira foi descrita pela primeira vez pelos cientistas Humboldt e Bompland, com 11 gêneros e 118 espécies. O naturalista Meiers identificou mais tarde duas de suas espécies na Amazônia: a Excelsa e Nobilis. Seu fruto é muito rico em gorduras e proteínas, considerado verdadeira “carne vegetal”, uma vez que a proteína de duas amêndoas equivale à de um ovo de galinha, além de prevenir cardiomiopatia e melhorar o sistema imunológico e possuir o selênio, mineral anticancerígeno e antioxidante. Além de selênio, a amêndoa possui cálcio, fósforo, magnésio, potássio, cobre e vitaminas A, B1, B2 e C, além de proteínas.

Conhecida internacionalmente como Brazil Nuts, por ser praticamente exclusiva do Brasil, em que pese a sua ocorrência na Bolívia e Peru, a castanha-do-pará tem ouriço de casca lenhosa, muito dura, contendo amêndoas graúdas envoltas por casca lenhosa fina, pouco resistente. O fruto é esférico, de 11cm a 14cm de diâmetro, com peso variável entre 700g e 1500g. É comestível, muito saborosa e de elevado valor alimentício.

A castanha é muito usada para a confecção de confeitos, recheios, coberturas de bolos, além de doces diversos, óleo, farinha e outros semiprodutos. Quando fresca, fornece o leite para preparação de vários pratos típicos da cozinha amazônica, apreciada no mundo inteiro. As castanhas sem casca são obtidas quebrando-as manualmente e podem ser vendidas com ou sem película. Devido ao formato irregular, cerca de 10% dela se perdem, reduzindo em 40% o seu valor comercial, bem como parte da produção na forma de subprodutos, alternativa do aproveitamento desta matéria-prima de alto valor agro-industrial.

A floração da castanha-do-pará ocorre de dezembro a março, coincidindo com o período de maior índice pluviométrico das regiões extrativistas. A frutificação acontece o ano todo, mas é entre janeiro e março que ocorre a maior disseminação dos frutos, quando se intensifica a coleta ou safra finda em junho.

A espécie é considerada caducifólia, pois apresenta queda total das folhas. Estudos atestam que a floração acontece em mais da metade dos indivíduos da população, registrando alternância entre os anos com 80% dos indivíduos florescendo e frutificando, sendo que, desde 1992 há queda acentuada na produção dos frutos. Existe quem diga até que a castanha-do-pará corre risco de desaparecer, fenômeno não muito aceito pela maioria das instituições e cientistas que pesquisam o vegetal.

Pródiga em todos os sentidos, da castanha-do-pará tudo se aproveita: o ouriço serve como combustível ou para confecção de objetos, inclusive artesanal, mas o seu maior valor está na amêndoa, rico alimento em proteínas, lipídios e vitaminas, podendo ser consumida in natura ou beneficiada ou então usada para extração de óleos diversos; do resíduo da extração do óleo obtém-se torta ou farelo usado como mistura em farinhas ou rações; o leite de castanha é de grande valor na culinária regional. A castanha também possui boas propriedades industriais. É usada no fabrico de sabão e sabonete. A madeira é indicada para construção civil interna leve, tábuas para assoalhos e paredes, painéis decorativos, forros, fabricação de compensados e embalagens. Ainda serve na construção naval e é indicada para reflorestamento.

As amêndoas com casca podem ser vendidas desidratadas ou semidesidratadas ou ainda a granel. O consumo do produto é feito de forma in natura ou através de derivados como biscoitos, farinha, paçoca, óleos, doces, leite-de-castanha ou sorvete.

 A castanha-do-pará, que o brasileiro consome com mais freqüência nas festas de fim-de-ano, é recomendada pelos oncologistas que estudam a incidência do câncer em fumantes. Foi citada favoravelmente em trabalhos divulgados pela Associação Americana para Pesquisa sobre o Câncer com medição da presença de selênio em mais de 120 mil homens e mulheres holandeses, incluindo 431 com câncer de bexiga. O Laboratório de Nutrição-Mineral da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP constatou que a castanha-do-pará é um eficiente suplemento alimentar capaz de suprir a necessidade diária de selênio, mineral que evita a propagação do câncer e diminui sua incidência, prevenindo cardiomiopatias e melhorando o sistema imunológico. O selênio também atua no equilíbrio do hormônio ativo da tireóide, reduz a toxidade de metais pesados e age como antioxidante, protegendo o organismo contra os danos provocados pelos radicais livres.

A pesquisadora Silvia Cozzolino também recomenda que sejam ingeridos alimentos com maior concentração de selênio, como alimentos marinhos — peixes, moluscos, alimentos de origem animal — carnes e aves, e alguns cereais (o trigo) e, principalmente as nozes, em especial as castanhas-do-pará.

Histórico – O nome do pródigo vegetal tem sido recentemente polemizado por interesses ou ciúmes regionais, mas prevalece o de castanha-do-pará, adotado há séculos, quando a sua produção estendia-se por toda a então Província do Grão-Pará, hoje diluída pelos estados da Amazônia. As enciclopédias também grafam o produto como castanha-do-pará.

Houve época em que as lecitidáceas dominaram a economia e as exportações da Amazônia, em especial do Pará, Amazonas e Acre, onde, além de amenizar o colapso da produção da borracha, as safras anuais serviam de apoio à agricultura e pecuária ainda incipientes, mesmo quando os especuladores aviltavam os preços, vendiam mercadorias por valores exorbitantes e ainda enganavam os castanheiros na medida do produto. Em Marabá, por exemplo, há versões que havia três tipos de hectolitro (unidade de medida da castanha): o de comprar (maior), o de vender (evidentemente menor) e o de ser aferido pela fiscalização (o único metricamente correto).

Sua importância econômica foi tamanha que gerou verdadeiros “barões da castanha”, como o poderoso coronel José Júlio de Andrade que se tornou senador vitalício pelo Pará, na antiga República, e amealhou milhões de hectares de terras na região dos rios Jari e Paru e foz do Xingu. Zé Júlio era senhor da vida e da morte nestas terras paraenses e ficou famoso pela prática da famigerada “política dos barracões”. Ele também é lembrado pelo temível “Paga Promessa”, local que serviu de túmulo a centenas de pobres trabalhadores na fazenda Arumanduba, sede do seu império na foz do rio Jari, próximo à cidade de Almeirim (PA).

Mais recentemente, a família Mutran dominou os castanhais do Município de Marabá, no sul do Pará, o mesmo acontecendo com outras oligarquias dos estados do Acre, Amazonas, Rondônia e oeste do Pará. Durante décadas, concessões de vastas áreas de terras devolutas de castanhais serviram de barganha política na Amazônia, mantendo o status quo e gerando os conhecidos “coronéis de barranco” que se mantiveram no poder até há bem pouco tempo.

Na verdade, o extrativismo da castanha conseguiu sobreviver a vários ciclos econômicos, inclusive ao da borracha, gerando latifúndios, fortunas e poder a poucos privilegiados que usufruíram deste então promissor mercado em detrimento de gerações de castanheiros sempre miseráveis e sofridos.

Apesar das fases de fastígio da castanha-do-pará, os projetos agropecuários e madeireiros no Acre, Pará e Rondônia foram devastadores para os imensos castanhais da região. A principal razão do declínio da produção da castanha-do-pará foi a queimada, pois a fumaça que permanece durante semanas rente ao solo prejudica a floração normal das castanheiras e também a produção dos besouros e abelhas que fazem a polinização das flores. Uma última razão é o simples envelhecimento ou o abate de castanheiras. Para se ter uma idéia dos abates, no outrora chamado Polígono dos Castanhais, no sul do Pará, hoje a paisagem é de pastagem e tomada por colonos e fazendeiros que disseminaram queimadas e desmatamentos sem precedentes, transformando-o em “cemitério de castanheiras”.

Apesar do seu declínio, a castanha ainda ocupa lugar de destaque na pauta das exportações de produtos da floresta amazônica, mas isto não esconde o fato de que a produção cai a cada ano e dá agora a primazia da exportação mundial do produto à Bolívia. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 74)

 
Apolonildo Brito

OUTRAS

Parceiros