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Pau-rosa, o doce aroma da Amazônia

Com nome científico Aniba rosaeodora Ducke, o pau-rosa é uma das espécies vegetais mais estudada da Amazônia. No século 20, essa arvore foi explorada ao máximo para produção de um óleo aromático, elaborado com a madeira triturada. No auge da produção (anos 60), os principais compradores da essência eram empresas estrangeiras de perfumes finos, o que colocou em risco a sobrevivência da espécie

O famoso perfume Chanel Nº 5, imortalizado pela celebridade Marilyn Monroe, ainda inspira desejo e expressa elegância feminina, mas também lembra o odor acre da exploração humana e ambiental na Amazônia, pois bem longe do glamour das butiques, as florestas de pau-rosa (Aniba rosaeodora Ducke) foram dizimadas para gerar a cobiçada essência que enriquece os magnatas da indústria de cosméticos dos países do Primeiro Mundo. Na Floresta Amazônica, levas de pau-roseiros (extratores da espécie) mal vestidos e mal pagos embrenharam-se cada vez mais na mata para encontrar o precioso vegetal, do qual se extrai o óleo, um dos principais ingredientes do famoso perfume.

Tal como ocorreu com a seringueira, que teve o látex extraído das árvores nativas sem os cuidados com o seu manejo, aconteceu com o pau-rosa, árvore típica da Amazônia, da qual se produz um óleo rico em linalol, um dos mais cobiçados fixadores de perfumes das indústrias de cosméticos do mundo, em especial as francesas, como a Coco Chanel, fabricante do Chanel Nº 5.

Depois de décadas de proibição desse extrativismo vegetal que poderia gerar renda e benefícios sociais para a população da Amazônia, governo e sociedade civil amazonenses reuniram-se no I Seminário do Pau-rosa: Desafios para a Produção Sustentável, evento que a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS), por meio da Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), realizou em Manaus, Amazonas, no final de julho. A exploração do pau-rosa dentro dos conceitos da sustentabilidade foi o tema desse encontro, onde pesquisadores, produtores, representantes de indústrias de processamento e compradores da matéria-prima do pau-rosa (o óleo) buscaram conhecimentos para vencer desafios e encontrar soluções e melhorias para toda a cadeia produtiva da espécie vegetal que está incluída na lista das espécies em vias de extinção pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desde 1992. O encontro também apresentou idéias sobre métodos de produção, preservação ambiental, aspectos sociais do manejo e do beneficiamento, além da comercialização do pau-rosa.

Antes, extraído de todas as partes da planta, pois a árvore era derrubada inteira, o óleo do pau-rosa movimentou a economia na região sul do Amazonas, existindo mais de 120 empresas envolvidas no Estado, na década de 1960, hoje reduzidas a somente cinco empreendimentos. Estima-se que mais de dois milhões de árvores já foram derrubadas desde o início do século passado, sem que houvesse preocupação com o replantio das áreas degradadas, ou com a criação de um plano de manejo florestal adequado a este extrativismo, resultando em uma redução drástica das populações da espécie em matas naturais da região.

Além de abordar o problema e propor soluções, o seminário discutiu exaustivamente métodos de produção, preservação ambiental e aspectos sociais que devem ser levados em conta com os planos de manejo e do beneficiamento do óleo do pau-rosa. Os participantes do evento solicitaram do governo estadual a retomada da produção do óleo vegetal de forma sustentável e incentivo para a produção e comercialização do produto.

O pau-rosa possui diferenças morfológicas e químicas em seu óleo essencial. Existem pelo menos três espécies do gênero que são encontradas do México à Mata Atlântica (Brasil), sendo o amazônico o que possui maior concentração de óleo, razão pela qual vem sendo explorada ininterruptamente há décadas e está ameaçada de extinção. Ao contrário da seringueira, que explorada racionalmente pode produzir látex por décadas, a árvore do pau-rosa é derrubada para a extração do óleo da sua casca, exploração predatória que está provocando o desaparecimento da planta e que se agrava com a intensa procura do produto pelo mercado internacional (cujo preço pode alcançar US$ 28 o litro). A grande demanda dessa preciosa essência vegetal provoca cada vez mais a procura das poucas árvores nativas que ainda restam na floresta, o que levou o Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a só permitir a extração se houver a reposição da espécie, a razão de 80 mudas para cada tambor de 180 quilos de óleo exportado.

O pau-rosa pertence à família laurácea, sendo também conhecido como pau-rosa-mulatinho, pau-rosa-itaúba e pau-rosa-imbaúba. O vegetal destaca-se por produzir um óleo essencial de aroma agradável, obtido para fins comerciais a partir da destilação da sua madeira. As suas propriedades físico-químicas e aroma estão em função das partes da planta utilizadas. O óleo das folhas possui aroma adocicado e o da madeira tem cheiro semelhante à lavanda devido a maior concentração de linalol dextro e lonalol laevo, respectivamente. As origens das árvores também fazem a diferença no aroma, como as verificadas entre o óleo brasileiro e o franco-guianense.

Características – Árvore de grande porte, chegando a atingir 30 metros de altura e dois metros de diâmetro, com tronco retilíneo e ramificado no ápice, formando uma copa de pequena dimensão. Possui casca pardo–amarelada ou pardo-avermelhada, que se desprende em grandes placas. Suas folhas são coriáceas ou rígido-cartáceas, simples, alternadas, obovadas, elípticas ou obovado-lanceoladas, medindo entre seis a 25 centímetros de comprimento e entre dois e meio a 10 centímetros de largura, com margens recurvadas ou planas, face superior lisa e verde-escura e inferior pilosa e amarelo pálida. As flores são amarelo-ferruginosas, hermafroditas e diminutas, dispostas em panículas subterminais; possuem dois verticilos de tépalas; os estames, em número de nove, estão distribuídos em três verticilos com três estames em cada.

Essas plantas têm ovário central, súpero e com apenas um óvulo; seu sistema de reprodução é de fecundação cruzada, garantida pela ocorrência de dicogamia sincronizada. Fruto baga lisa de coloração violáceo-escura, elipsóide ou subglobosa, com dois a três centímetros de comprimento e um e meio a dois centímetros de diâmetro; exocarpo fino e polpa carnosa de coloração amarelo-esverdeada; está inserido em uma cúpula espessa de um centímetro de comprimento e provida de lenticelas lenhosas; contém uma semente ovóide, com 2,6 centímetros de comprimento e 1,5 centímetro de diâmetro.

O repórter fotográfico Pedro Martinelli, que esteve na região do Rio Nhamundá, divisa dos estados do Amazonas e Pará, disse em reportagem que o doce aroma do pau-rosa pode morrer porque a árvore do qual ele é extraído está em extinção. Segundo o profissional, a árvore foi tão explorada nas últimas décadas que pôs em risco a sobrevivência da espécie e da própria indústria cosmética. Os pau-roseiros, como são conhecidos os extratores do vegetal, “chegam a passar três meses na floresta, vestindo apenas um par de havaianas, calção e camiseta, para conseguir a madeira. Nada de moto-serra ou trator. As toras são cortadas no serrote e carregadas nas costas, amarradas a uma mochila de cipó chamada jamaxi. A alimentação é à base de caça, principalmente macaco, veado e porco cozido”, arremata Martinelli.

O fotógrafo afirma que o pau-rosa é “furtivo, discreto, parecido com outras árvores da floresta”, o que faz os mateiros somente identificá-lo pelo cheiro, que é inconfundível. Sua presença, nas concentrações mais densas, é de uma árvore em dois hectares. “Para cortar a árvore, leva-se em média uma hora”, diz o livro Amazônia, o Povo das Águas, de Martinelli, que afirma que as toras vão rio abaixo depois de transportadas pela mata, chegando às destilarias após horas ou dias de viagens, onde a madeira é moída, colocada em uma caldeira com vapor injetado e fervida por 12 horas, para o óleo subir à superfície, separando-se da água. Dessas usinas, o óleo segue para Manaus e de lá é despachado para o exterior, onde as companhias, em sua maioria francesas, processam o produto, transformando-o em perfume.

No final da década de 1980, as reservas de pau-rosa na Amazônia Oriental brasileira também haviam sido destruídas. Alarmada, a agência brasileira de proteção ambiental respondeu à situação acrescentando o pau-rosa à sua lista de espécies ameaçadas, medida que tinha como objetivo evitar a pilhagem das árvores e que obrigou o aumento dos preços, fazendo com que companhias como a Phebo, a mais antiga fabricante brasileira de sabonetes, procurasse substitutos sintéticos mais baratos, como os que são importados de países asiáticos. “O sabonete de pau-rosa continua respondendo por metade das nossas vendas, mas deixamos de usar a essência real por volta de 1990”, explicou Roberto Lima, ex-gerente da fábrica Phebo, em Belém, Estado do Pará, acrescentando que a quantidade de sabonetes que a empresa hoje vende é quatro vezes maior do que na época em que a escassez do extrato natural fez os preços chegar a níveis tão elevados que só as grandes companhias estrangeiras seriam capazes de comprá-lo. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 84)

 
Apolonildo Brito

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