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Lenda do Arco-Íris avança no tempo

Há varias versões sobre o arco-íris, nem sempre pautadas no conhecimento científico do fenômeno ótico e meteorológico. Interpretações teológicas, místicas ou metafísicas predominam a criatividade que esse arco-celeste enseja. Símbolo da aliança entre Deus e os homens ou simplesmente a indicação de um pote de ouro deixado como presente, também são opções

Existem muitos fatos e lendas que se referem ao arco-íris, cuja maioria pertence ao reino do imaginário, fruto do folclore popular ou da criatividade poética e artística por este mundo afora, inspirando obras antológicas do cancioneiro e da Sétima Arte, como Over the Rainbow, do filme musical O Mágico de Oz, além de outras obras artísticas e culturais.

Antigamente, e até hoje em dia, há quem pense, porém, que este fenômeno ótico é um sinal divino. O Antigo Testamento diz que o arco-íris é um símbolo da aliança entre Deus e os homens, uma promessa conciliadora ocorrida após o dilúvio universal. Biblicamente (Gênesis 9:12 a 17), sobre esse espectro meteorológico, assim se expressou Deus a Noé – “Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações eternas”. O fenômeno também lembra a aliança entre o Criador e a criatura no livro do Apocalipse e em outras referências místicas através das religiões universais.

O fato é, que entre a fé, a lenda e a realidade científica, esse fenômeno ótico e meteorológico também é chamado arco-celeste, arco-da-aliança, arco-da-chuva ou arco-da-velha. Ele separa a luz do sol em seu espectro contínuo sobre gotas de chuva, formando um arco multicolorido com o vermelho no seu exterior e o violeta no interior, que completam a seqüência: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Seu efeito pode ser observado sempre que existir gotas de água no ar e a luz do sol estiver brilhando acima do observador em uma baixa altitude ou ângulo. O fenômeno fica mais espetacular quando se contrapõe a nuvens escuras de chuva ou é observado próximo a cachoeiras.

Na verdade, o arco-íris não existe realmente em um determinado local do céu, pois é uma ilusão de ótica cuja localização aparente depende da posição do observador em relação a luz, pois todas as gotas de chuva refratam e refletem a luz do sol da mesma forma, mas somente algumas delas chegam até o olho do observador, quando elas são percebidas em forma de arco-íris. Sua posição é sempre na direção oposta ao sol e podemos vê-la de diferentes tamanhos, pois para estimar a sua largura, o nosso cérebro só tem como informação a dimensão do ângulo de visão que lhe corresponde. Somente em uma aeronave é possível ver o círculo completo do arco-íris, com a sombra do avião ao centro do fenômeno ótico.

Os ameríndios acreditam que o arco-íris é constituído pela alma das flores silvestres nascidas nas florestas ou dos lírios do vale. Outra história diz respeito à existência de um pote cheio de moedas de ouro no final do arco-íris, mas isso faz parte do lendário, desafiando aquele que estiver disposto a encontrar esse imaginário tesouro escondido e ficar rico... Sobre a origem dessa lenda, lembra os tempos remotos quando os ciganos eram perseguidos e massacrados pelo mundo afora. Eles viviam desesperados porque eram pacíficos e não guerreavam nem para se defender, pois no lugar de armas portam seus violinos; no lugar de guerras, cantam suas canções alegres; e no lugar de destruição, a beleza de suas danças substitui a morte. Em seus corações pulsavam somente a alegria de viver e o desejo de liberdade; em lugar da fome surgia a mesa farta distribuída para todos. Por essa razão, os ciganos eram nômades e viviam em fuga, procurando a tão almejada paz sem a necessidade de recorrer à guerra.

Cansados de fugir e chorar as intermináveis perdas de parentes e amigos, uma bela cigana grávida, ao ver o arco-íris, clamou salvação para seu povo com toda a força de sua alma, principalmente porque trazia no ventre um filho preste a nascer, em meio a toda àquela violência e miséria. Prostada, a mulher chorava copiosamente, esperando receber uma resposta do arco-íres, quando percebeu que as cores do fenômeno começavam a brilhar cada vez mais intensamente, alternando-se com rapidez. Limpando as lágrimas dos seus olhos e imaginando ver fantasias devido ao pranto, reagiu, mas foi vencida pelas cores do arco-íris que se alternavam como se fossem as cordas de um instrumento musical, como pequenos sinos emitindo sons divinos. Acalmou-se dominada por uma imensa paz, segurou com as mãos o ventre que guardava o filho e suplicou pelo fim daquela situação de seu povo. Subitamente, ouviu uma voz emanada das cores do arco-íris pedindo calma e garantindo que a mulher não perderia o filho guardado como um tesouro em seu ventre:

– Ele fará com que minhas cores ganhem vida em suas mãos, suprindo eternamente todas as suas gerações com moedas de ouro, pois a ele será dado o pote encantado que trago em minhas cores, cuja magia passará a fazer parte de suas almas com o verde levará a esperança e a fartura; com o vermelho, a vida, o entusiasmo e o vigor; com o amarelo, a realeza e a riqueza; com o azul terá serenidade e intuição; com o laranja, a energia, a vitalidade e a emotividade; e com o violeta levará a transmutação e a perseverança; com o rosa, o amor, a beleza, a moralidade e a música.

A lenda cigana espalhou-se pelo mundo, levada pelo encanto das roupas coloridas desse povo, pela magia de suas danças, pela sua atração pelo ouro e pela crença que existe no fim do arco-íres um pote de ouro inesgotável para supri-lo.

Os povos antigos sempre observaram que o fenômeno acontece após uma chuva, quando a luz branca do sol matizada de todas as cores produz o fenômeno ótico. Os Navajos, índios norte-americanos, acreditam que a Deusa da Roda do Arco-Íris, ou o Círculo do Arco-Íris, possui as chuvas amigas que alimentam durante o verão as três irmãs divinas (milho, abóbora e feijão), que, por sua vez, também alimentam esses indígenas peles-vermelhas. Acreditam os Navajos que a deusa da Roda do Arco-Íris chega de todas as quatro direções e gira como uma suástica, de modo a cobrir todos os rumos. Sem as bênçãos da chuva, as três irmãs morreriam e o povo não poderia mas continuar a ser alimentado. A Roda do Arco-Íris representa também a promessa de paz entre todas as nações com o povo Navajo, considerado a Raça do Arco-Íris, vindo a reforçar a igualdade entre as nações e se opondo a idéia de uma raça superior que controlaria ou conquistaria as outras, através da consciência de que todas elas se constituem na verdade uma só. O Arco-Íris encarna a idéia da unidade de todas as cores e a crença de que todos devem trabalhar juntos, visando o bem comum.

Desde os primórdios dos tempos o homem observou o arco-íris como uma ponte que unia o céu a terra, ou seja, que une nosso plano físico ao espiritual. Os gregos observavam o fenômeno como um arco colorido unindo o céu a terra, quebrando a monotonia do horizonte, acreditando estar recebendo um sinal positivo dos deuses. Para eles, esse fenômeno estava diretamente relacionado a deusa Íris, mensageira da deusa Juno, esposa de Zeus, que surgia no céu caminhando por um arco formado por sete cores (violeta, anil, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho) para trazer mensagens divinas aos homens.

A religiosidade predominava na vida havaiana e permeava suas atividades diárias e cada evento significativo, tal como o nascimento, o casamento, a morte, a pesca, a agricultura e a guerra. Os antigos havaianos adoravam grande número de deuses, a maioria deles vinculados a manifestações da natureza, como Ke Anuenue, deusa que personifica o arco-íris e também associada diretamente a chuva, a fertilidade da terra, a agricultura e a prosperidade. O arco-íris, aliás, quase sempre foi símbolo de uma nova esperança, já que ele se projeta no céu, logo após uma tempestade. Ele representa harmonia, sucesso e prosperidade, entretanto, para algumas culturas o arco-íris envolve uma atmosfera de medo. Uma lenda popular na Finlândia, associa-o a foice do Deus do Trovão. Os árabes consideram-no como sendo o arco do demônio. Em outras tradições existe a crença que o ato simples de apontar para um arco-íris pode custar a perda de um dedo ou uma úlcera. Já na Romênia, há uma lenda que todo aquele que passar abaixo dele, obterá uma mudança de sexo. Entre os hebreus e os cristãos, o arco-íris é considerado como o arco da promessa. Na mitologia nórdica, Bifrost, o arco-íris, também associado com a Via Láctea, era a ponte que conectava a Terra, chamada de Midgard, com Asgard, a Casa dos Deuses, pois só essas divindades poderiam cruzá-lo.

Para os achewa, uma tribo africana cuja sobrevivência depende exclusivamente da agricultura, o arco-íris representa os braços de Deus e é um símbolo da providência, que se manifesta através de nuvens carregadas de chuva. Na escassez deste líquido precioso, toda a tribo invoca um ser supremo conhecido pelo nome de Chiuta (Grande Arco), o Senhor do Arco-íris. Atualmente, o arco-íris é símbolo de diversidade, de oposição à guerra nuclear e do movimento homossexual mundial.

Para o folclorista Luis da Câmara Cascudo (Informação de história e etnografia), o sertanejo não gosta do arco-íris porque ele furta água e no litoral se distrai sugando os rios, lagoas e fontes, porque não bebe água do mar como as nuvens. Diz Cascudo, que no princípio a sucção é fina, transparente, incolor, ficando depois largo, colorido e radioso até fartar-se e desaparecer.

Para as populações indígenas de quase todo continente americano, o arco-íris é uma víbora que ataja la lluvia y no deja llover. É sempre maléfico e odiado, enquanto que na Europa é objeto de carinho e respeito sobrenaturais. Na Córsega, Finisterra (França) e norte da Inglaterra têm a mesma tradição de dispor pedras em filas para desfazer o arc-en-ciel. A serpente, personalizando um fenômeno meterológico, é universal. Para os gregos e romanos era o símbolo dos rios, pela sinuosidade e rapidez do curso. Na África,  para sudaneses e bantos, a serpente é o arco-íris chamado N’Tyama, cavalo de Nz’ambi, a Mu-kyama, etc. No Panteon mexicano há multidões de deuses com nomes com sufixo em coatl. Coatl é serpente, significa o que contém água. Co significa vazinho, continente, e atl, água. As serpentes eram os emblemas dos Lares Compitales ou Viales. O arco-íris serpente desapareceu nas tradições brasileiras, mas sobrevive a impressão indecisa e vaga de uma grandeza maléfica.  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 88)

 
Apolonildo Brito

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