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Bicho-folharal, a lenda da esperteza

O Bicho-folharal também faz parte do elenco mitológico dos protetores da floresta, mas, essencialmente, simboliza a esperteza cabocla na zoomorfia regional. O poeta diz – “se a floresta chorar e arpejar um clamor, um herói surgirá, é o seu protetor. É o Bicho-folharal, o gigantesco homemcamaleão, que vem camuflado com a vegetação.

As lendas e mitos integram o imaginário popular amazônico de forma mais arraigada nas comunidades ribeirinhas, onde o misticismo ganha força nas histórias contadas à sombra da noite, chegando, muitas vezes, a assombrar. A diferença entre lendas e mitos, atualmente, ultrapassa a linha da semântica contida nas enciclopédias e começa a ganhar foro nas academias de letras, para desmistificar o preconceito que descrimina as tradições populares.

O cerne da discussão gira em torno do grau de importância dada à significação entre os dois conceitos. A tendência atual é que ambos representem tudo que é colhido da boca do povo, sejam em forma de mitos, lendas, superstições, crendices, sortilégios, tabus, fábulas, causos, provérbios, adivinhações, xingamentos, pragas e esconjuros, baseados em fatos reais ou enfeitados pela fantasia do contador. O resto fica por conta do preconceito de culturas tidas como superiores.

Lendas ou mitos, o que as histórias populares trazem em seu bojo não apenas torna empiricamente inteligível aquilo que a ciência ainda não explica como cria mecanismos de controle social, com um conjunto de sanções positivas e negativas para assegurar a sintonia das condutas aos modelos estabelecidos por uma determinada sociedade. Dessa forma, muitas vezes também determinam o comportamento coletivo em face aos componentes agregados que se configuram na multidão, cuja ação mutuamente orientada distingue-se por envolver significados, expectativas e objetivos comuns.

A mitologia amazônica gera um sem número de contos e personagens para proteger os animais e a floresta da região e assim viver de forma harmônica com a natureza que os cercam. O Curupira, o Boitatá, o Caipora e tantos outros são exemplos didáticos desse ideário. Por outro lado, essas tradições mostram a realidade cabocla contida em sua simplicidade, destacando a esperteza e sabedoria de seus atos. Sem nunca ter lido Plutarco ou Francis Bacon, o caboclo sabe que ser esperto é aprender com os erros do outros e que o homem sábio é aquele que cria mais oportunidade do que encontra.

A personalidade de Macunaima, por exemplo, segue essa linha, embora a lenda tenha origem em torno do Monte Roraima, entre o Brasil e Venezuela, onde Macunaimã era uma entidade divina para os macuxis, acavais, arecunas e taulipangues, indígenas do tronco caraíba. Esse herói do setentrião sul-americano possui pródigas versões, que levam a diversas interpretações, variando entre vivências cósmicas e aventuras terrestres, como as dos deuses da mitologia grega. Macunaima é ainda o personagem das aventuras e episódios que revelam seu espírito inventivo, inesgotável de recursos mágicos, criando os homens de cera e depois de barro, esculpindo animais, transformando os inimigos em pedras. Ele se tornou um misto de astúcia, maldade instintiva e natural, de alegria zombeteira e feliz. É o herói das histórias populares contadas nas aldeias e acampamentos indígenas, fazendo rir e pensar, um pouco despido dos atributos de deus olímpico, poderoso e sisudo.

O etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) reuniu a maior e melhor coleção de aventuras de Macunaima nessa fase popularesca, o que inspirou o escritor modernista Mário de Andrade a escrever uma obra homônima à figura lendária. Mário de Andrade pecou pela fonética do nome (Macunaíma ao invés de Macunaima) e pelo conceito debochado dado ao personagem, pois procurou caracterizá-lo como um menino mentiroso e traidor, que praticava muitas safadezas, falava muitos palavrões, além de ser extremamente preguiçoso, talvez um misto piorado de Jeca Tatu e Pedro Malazarte. O escritor paulista foi infeliz com o mito roraimense, mas teve o mérito de criar uma figura que expressa uma das facetas da personalidade comum brasileira, a do herói-sem-caráter, tão bem descrito em sua famosa obra e nas atitudes de diversos políticos do País, que nada vêem, nada ouvem ou sabem quando assim lhes convêm.

Como a lenda de Macunaima, muitas outras não são autógenas, mas foi na Amazônia que elas ganharam as atuais feições pelo dinamismo do folclore. O Curupira, por exemplo, é um ente conhecido em quase toda a América do Sul. Na Venezuela, o chamam de Máguare e na Colômbia, Selvage. Os incas peruanos o denominavam Chudiachaque. A cabeça do personagem também varia em alguns lugares, sendo careca em alguns e com cabeleira vermelha em outros. Mas todos o descrevem como um anão, com pés às avessas, calcanhar para frente, dedos para trás. Seu rastro engana os caçadores inescrupulosos, fazendo com que eles se percam na floresta. É considerado o protetor das matas e dos animais.

O Boitatá, por sua vez, é o gênio protetor dos campos que aparece sob forma de uma enorme serpente de fogo, que mata quem destrói as florestas. O padre José de Anchieta, em 1560, foi o primeiro a mencioná-lo como personagem do lendário indígena brasileiro, cujo nome dado pelos índios é o mesmo do fenômeno do fogo-fátuo. O Caipora, segundo a mitologia tupi, é um personagem das florestas com a propriedade de atrapalhar quem o vê. Quando uma coisa sai errada, se diz que o autor viu o Caipora ou o Caapora. Em algumas regiões, é um indiozinho de pele escura e, em outras, uma indiazinha feroz. É descrito também como criança de uma perna só e com cabeça enorme, que protege o meio ambiente.

A sabedoria cabocla é também representada na pele dos animais da floresta, neles expressando sentidos humanos, inclusive aqueles subjetivos, como amor, ódio, medo, gratidão e vingança. O Bicho-folharal também faz parte do elenco mitológico dos protetores da floresta, mas, essencialmente, simboliza a esperteza cabocla na zoomorfia regional. Os artistas parintinenses não deixam morrer esses protetores e contam suas histórias em prosa, verso e toadas. Recentemente, dois compositores do Boi Garantido, Demétrios Haidos e Geandro Pantoja, alertam em bela toada:

– Se a floresta chorar e arpejar um clamor, um herói surgirá, é o seu protetor. É o Bicho-folharal, o gigantesco homem-camaleão, que vem camuflado com a vegetação. Seus braços são galhos de castanheira, tem pernas de sumaumeira e fragrância de pau-rosa. Seus cabelos são folhagem, seus olhos cor-de-esmeralda derramam lágrimas selvagens. É o Bicho-folharal, protetor do nosso ouro verde, criatura enviada pela Mãe do Mato, para salvar a natureza da cobiça dos biopiratas e da ganância dos madeireiros.

Baseados em contos do folclore africano, com versões na Europa e América Latina, os pesquisadores culturais José Vieira Couto de Magalhães e Luís da Câmara Cascudo legaram à literatura brasileira a interpretação tupiniquim da fábula do Bicho-folharal, como segue abaixo:

No tempo em que os animais falavam, um belo dia, houve um burburinho enorme na floresta: A Onça havia morrido! O boato foi inventado pelo próprio felino, pois estava cansado de ser enganado pela Raposa e resolveu atraí-la à sua furna com a falsa notícia. Deitou-se então no meio da sua caverna, fingindo-se de morta. Todos os bichos vieram olhar o seu corpo, contentíssimos.

– Estamos livres da bandida, pensavam e comemoravam.

Chegando na toca da Onça, a Raposa deparou-se com a multidão aglomerada ao redor da danada. Estava lá, de barriga para cima, patas estiradas, linguona vermelha caída para o lado de fora. O canídeo ficou olhando de longe e pensou:

– Morta, hein? Tem jacutinga nessa história! Veremos...

Como de boba a raposa não tinha nada, resolveu tirar a prova e disse então em voz bem alta:

– Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro de morte.

A Onça, para mostrar que estava morta de verdade, espirrou três vezes. A bicharada toda saiu correndo e a Raposa fugiu, às gargalhadas.

A Onça jurou se vingar.

O tempo passou. Veio uma enorme seca. Os rios secaram. Só havia água em um poço, ao pé de uma serra. Todos os animais eram obrigados a ir até ali para beber. A Onça se plantou ao lado do poço, dia e noite, noite e dia, aguardando a adversária. A Raposa ia até lá, olhava a pintada, dava meia-volta e desistia. Boca seca, não agüentava mais de tanta sede. Era urgente que achasse um plano para novamente enganar a Onça. Foi andando pela estrada, pensando no que fazer. Achou um cortiço de abelhas, furou-o e com o mel que dele escorreu untou todo o seu corpo. Depois rolou num monte de folhas, que se pregaram aos seus pêlos e a cobriram totalmente. Imediatamente, a Raposa foi ao poço e esperou pela hora do lusco-fusco e desceu à cacimba. A Onça, de guarda, olhou para aquele animal estranho e perguntou:

– Que bicho és tu que eu não conheço, que eu nunca vi?

A Raposa, cinicamente:

– Sou o Bicho-folharal.

– Pode passar e beber, respondeu a Onça.

A Raposa foi até a água, mergulhou, bebeu, nadou, bebeu, bebeu, se esbaldou. Desconfiada, a Onça, vendo aquele bicho bebendo como se estivesse há dias com sede, murmurou:

– Como bebes, Folharal!

Enquanto isso, a água fazia seu trabalho e amolecia o mel. As folhas iam caindo uma a uma, enquanto o Folharal se fartava. Quando a última folha caiu e já não havia mais lugar para água na barriga da Raposa, a Onça descobriu o logro e pulou ferozmente sobre ela, que conseguiu fugir.

Se furiosa com a Raposa a Onça estava, mais furiosa ficou.

– Ela não me escapa mais! Pensou a pintada, reforçando a guarda ao poço.

Os dias se passaram. Novamente a Raposa sentiu muita sede. Foi até um pé de aroeira,

lambuzou-se bastante na sua resina, rolou sobre folhas secas e foi para o poço.

A pintada perguntou:

– Quem é você?

– Sou o Bicho-folha-seca.

– Entra na água, sai e depois bebe.

A Raposa entrou e as folhas não caíram, porque a água não removeu a resina. O canídeo saiu do poço e depois bebeu água. Com o consentimento da Onça, o Bicho-folha-seca continuou a beber até chegar o tempo da chuva, quando não faltou mais água. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 89)

 
Apolonildo Brito

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