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Isaac Sabba, ícone do empreendedorismo

O Amazonas teve o privilégio de possuir grandes empreendedores entre aqueles que nasceram ou vieram para o Estado, destacando-se dentre tantos a Isaac Benayon Sabbá, por vislumbrar as potencialidades regionais e muito contribuír para o desenvolvimento estadual, sendo uma das suas maiores expressões.

O Estado do Amazonas deslumbra não somente pela sua biodiversidade, beleza paisagística, variedade da fauna e flora, mas, sobretudo, pela visão e empreendedorismo que o fez vencer as intempéries da selva, o isolamento geopolítico e se destacar no cenário nacional. Ontem, a cultura da seringueira o guinou a ser pioneiro do progresso e transformar Manaus na “Paris dos Trópicos”, uma cidade cosmopolita e primaz no Brasil em várias inovações tecnológicas.

Hoje, além de registro na história econômica brasileira, o Amazonas destaca-se por seus empreendimentos em ecoturismo, indústrias e montadoras de veículos e equipamentos eletro-eletrônicos e outros artefatos inseridos na Zona Franca de Manaus. Esse modelo vitorioso amazonense é a grande resposta encontrada pelo governo brasileiro a um dos maiores desafio do mundo contemporâneo, que é a formulação de políticas de desenvolvimento sustentável para uma região da complexidade, como é a Amazônia, capaz de permitir a sua integração econômica sem prejuízo do patrimônio ambiental.

Durante e entre esses dois grandes períodos históricos, o da borracha e do Pólo Industrial de Manaus, o Amazonas teve o privilégio de possuir grandes empreendedores entre aqueles que aqui nasceram ou para cá vieram, destacando-se os governadores Eduardo Ribeiro, Ramalho Júnior, Fileto Pires, Pedro Bacelar, Álvaro Maia, Plínio Ramos Coelho; o empresário Comendador J.G. de Araújo Jorge e tantas outras personalidades que, por vislumbrar as potencialidades regionais, muito contribuíram para o desenvolvimento do Amazonas, tendo na pessoa de Isaac Benayon Sabbá uma das suas maiores expressões.

Nascido numa família judaica na capital do Pará, Isaac Benayon Sabbá (1907-1996) foi um empresário e pioneiro brasileiro na Amazônia. Em 1922, veio para Manaus, acompanhado dos pais, onde começou a vida como vendedor de cigarros e representante comercial. Ele não teve oportunidade para fazer curso superior, limitando-se ao ginasial, mas trabalhou intensamente e procurou ler tudo nas horas vagas que lhe sobravam, o que alimentou o seu conhecimento regional e a sua tenacidade empreendedora.

Com a necessária experiência adquirida, em 1930 fundou a firma J. Sabbá & Cia, associando-se a um dos seus irmãos, Jacob Benayon Sabbá, no ramo de representações, na qual era responsável pela propaganda e seu irmão pela administração. Mas logo percebeu que esse ramo de negócio era limitado e passou às exportações, com início numa espécie de comércio interestadual, diferente das outras exportadoras que empregavam suas atividades quase que exclusivamente ao comércio exterior.

Com a eclosão da II Guerra Mundial, o Governo Federal estabeleceu o monopólio da borracha, época em que a empresa de Isaac Sabbá respondia por 64% da exportação do Amazonas. O monopólio governamental, contudo, não quebrou o ânimo do empresário.

Em 1942, Isaac Sabbá havia fundado a Companhia Mercantil Comissionária e Exportadora, transformada depois em Desenvol – Sociedade de Desenvolvimento da Amazônia Limitada, com o objetivo de incrementar os negócios de goma elástica. A referida sociedade estava aparelhada de embarcações que singravam todos os rios do Estado em busca do látex. Ainda criou, durante a guerra, a empresa Jacy Paraná, no atual Estado de Rondônia, objetivando aumentar a produção de borracha.

Fundou, também, a firma individual I.B. Sabbá, desligando-se da exportadora e alterando posteriormente a razão social para I.B. Sabbá & Cia. Ltda., com a participação de seu sobrinho Moyses Israel. Diversificou seus negócios e criou 42 fábricas, como a Fitejuta, além de outras que beneficiavam couros de jacaré, pau-rosa, castanha-do-pará e outros produtos da indústria extrativa. Isaac Sabbá ampliou seu campo de ação e instalou prensa de juta na capital do Amazonas e em Itacoatiara, Borba, Novo Aripuanã, Nova Olinda do Norte, etc.

Com o aumento rápido de consumo das gomas de mascar ocorrida após a II Guerra Mundial, o empresário montou uma usina de desidratação de matéria-prima, com o objetivo de assegurar no mercado internacional a colocação do produto amazonense. O mesmo sucedeu com as castanhas, que hoje são desidratadas em usinas devidamente aparelhadas pelo processo de raios infravermelhos.

Compreendendo as dificuldades do meio amazonense, caracterizadas pela deficiência de recursos financeiros para a exploração de suas imensas riquezas naturais, Isaac Sabbá estudou e colocou em prática um sistema de financiamento que beneficiava o produtor do interior do Estado. Sua visão empresarial foi mais além e abrangeu produtos extrativistas de outros Estados, como o financiamento da balata, matéria-prima da guta-pecha, produzida na região do Médio Amazonas, no Estado do Pará, onde investiu para apoiar o sonho pioneiro de Antônio Brito, conhecido como Britão de Alenquer, comerciante que idealizou durante 40 anos a construção de campos de pouso para aviões em plena floresta, a fim de diminuir distâncias e aumentar a produção dessa preciosa goma, que na ocasião atingia cerca de US$ 2 a libra-peso. Graças ao apoio do empresário Isaac Sabbá, o Brasil passou a produzir 70% da produção mundial de balata e o comerciante Antônio Brito a ser o maior produtor do mundo. 

Sempre atento às peculiaridades do problema econômico regional, Sabbá verificou que não era possível aumentar a produção de matérias-primas sem uma garantia de suprimento de combustíveis, a preços mais em conta e nos recantos mais longínquos da Amazônia. Foi por razões como essa que idealizou e construiu a sua companhia mais bem sucedida, que foi a Petróleo Sabbá, uma refinaria inaugurada em Manaus por Juscelino Kubitschek, em 3 de janeiro de 1957.

Para torná-la realidade, fundou a Companhia de Petróleo da Amazônia (Copam), que desde 1956 abastecia toda a região amazônica e parte do Nordeste do País. Apenas produzir combustíveis não era suficiente para o empresário, o mais importante era torná-los acessíveis a outros centros consumidores, razão pela qual ele organizou a I.B. Sabbá & Cia.Ltda., empresa distribuidora autorizada pelo Conselho Nacional do Petróleo (CNP) e criou uma rede de terminais construída em Manaus, Porto Velho, Belém, Santarém, Rio Branco e São Luiz, objetivando a integração da Amazônia na vida econômica do País.

A refinaria, contudo, foi estatizada no Governo Médici e sua distribuidora de combustíveis foi logo depois vendida a uma multinacional. Em 1971, o empreendedor associou-se à Shell Petróleo S.A. e constituiu a Petróleo Sabbá S.A., que assumiu as atividades da I.B. Sabbá & Cia. Ltda., permanecendo com a pesquisa, lavra, exploração, compra e industrialização de produtos regionais.

Isaac Sabbá foi um empreendedor que acreditava no desenvolvimento do Norte do Brasil. Seu lema sempre foi reinvestir os lucros de seu trabalho em projetos de vital interesse para a Amazônia, mencionando-se, por exemplo, a Copam, Companhia de Navegação da Amazônia (CNA), Fiação e Tecelagem de Juta Amazônia (Fitejuta), Madeiras Compensadas da Amazônia (Compensa) e Companhia Agro-Indústria.

Quando a Petrobras assumiu o controle acionário da companhia de Isaac Sabbá, em 1971, para assegurar o abastecimento da região, a refinaria passou a constituir mais uma unidade do Departamento Industrial da empresa nacional, isso a partir de 1974, quando a produção era de cinco mil barris diários. Hoje, 50 anos depois de inaugurada e totalmente modernizada, a Reman (Refinaria Isaac Sabbá) opera com capacidade de processamento de 46 mil barris por dia, 93% desse total produzidos na Província Petrolífera de Urucu e 7% na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, recebendo também derivados de petróleo de outras refinarias.

Isaac Sabbá participou por dezenas de anos da diretoria da Associação Comercial do Amazonas, tendo exercido a sua presidência em 1985. Além disso, foi membro do Conselho Técnico de Economia e Finanças durante a interventoria de Júlio Nery e exerceu na primeira administração do Governo de Gilberto Mestrinho importante função no Grupo de Estudos para o Desenvolvimento do Estado do Amazonas (GEDE). Por outro lado, designado pelo Governo Federal como membro da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), sua atuação se fez sentir na solução de importantes aspectos fazendários da regulamentação do órgão.

Sabbá se considerava amazonense e muito se orgulhava do título de Cidadão Benemérito que o município de Manaus lhe conferiu como reconhecimento pelo que ele fez pela cidade e pelo Estado. Casado com a senhora Irene Gonçalves Sabbá, teve quatro filhos: Moisés, Alberto, Mário e Esther. Em conseqüência do seu trabalho e desempenho pelo progresso da região, a empresa e seu fundador receberam diversos títulos, medalhas e honrarias, nacionais e internacionais. (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 81)

 
Apolonildo Brito

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