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Lenda da fosforescência do Vagalume

Muitas são as lendas do vagalume. Os chineses ligam a origem do coleóptero a um menino maltratado pela madrasta, que depois de morto precisou da pequena lâmpada do inseto para procurar o dinheiro que perdera da megera em vida. Para os índios Uiacás, a luz do vagalume é mandinga do Curupira. Outros povos dizem que são espíritos de mortos, bênçãos por boas-ações.

A ciência fala que o vagalume é um inseto coleóptero, lampirídeo ou elaterídeo que apresenta órgãos fosforescentes na parte inferior dos segmentos abdominais. Por vias de regra, o vagalume possui cores pouco vistosas, algumas amareladas ou pardo-claras com faixas negras. Tem cabeça grande, arredondada na frente. As larvas são predadoras. Alimentam-se de madeira em decomposição e raízes. A fosforescência decorre-lhe de uma reação entre um fermento e substâncias químicas. Porém as lendas colocam o inseto em outras dimensões.

Os chineses contam a origem do vagalume numa comovente lenda. Um menino, sempre maltratado pela madrasta, foi por ela enviado a fazer compras num distante vilarejo. Por infelicidade, perdeu o dinheiro no caminho. Temendo o severo castigo, durante horas e horas procurou aquela importância. Andando daqui e dali, errou o caminho de volta, dado a uma tempestade que surgira. Perdendo-se, caiu num riacho e se afogou. Mas, mesmo na morte, o medo pela madrasta não o abandonou. Seu espírito continuou repetindo: “Devo achar meu dinheiro, devo achar meu dinheiro!” E o espírito da infeliz criança foi se transformando em vagalume, inseto que carrega uma pequena lâmpada, procurando indefinidamente pelo dinheiro perdido...

As crenças de que o vagalume representa os espíritos ou as almas dos mortos são divulgadas em inúmeros outros povos. No Japão, acredita-se que vagalumes sejam espíritos de guerreiros mortos que receberam bênçãos eternas, em virtude do feito pela Pátria. Nas regiões do Mediterrâneo, as crendices populares interpretam esses insetos como espíritos fosforescentes de pecadores, que emanam dos túmulos, obrigados a errar pelo espaço até espiarem suas culpas. Por essas razões são respeitosamente evitados. Tal crença está igualmente no nome popular dado aos vagalumes na Cote d’Or (França) - lanterne de môo (lanterna do morto).

Os Uiacás explicam de maneira curiosa como os vagalumes vieram a ter luz, com a seguinte lenda: Antigamente o vagalume não tinha luz, andando pela escuridão, iludindo cunhãs. Os pais delas nunca enxergavam a aproximação do vagalume. Um dia ele caiu na besteira de “beneficiar” a filha de Poré (o Curupira dos Uiacás). E Curupira é mandingueiro, faz puçanga mais os outros. O Poré fez rezas, olhaços derribas nos altos da terra. O céu relumiou, faíscos despencos de estrelas. Depois, pegou um pedaço de puriuari (estrela) e grudou na bunda do vagalume, bem de cima, no lugar de fazer precisão. Assim o vagalume ficou com luz no rabo. Toda a vez que ia conquistar mulheres, era localizado pelos pais e esposas, graças à luz...

Numa lenda dos Kamaiurás, segundo Orlando Vilas Boas, o sapo Minori, para não ser comido pela onça, enquanto dormia, abriu o vagalume, tirou a lampadazinha que ele tem dentro e passou nos olhos, para ficar luzindo e dar à onça a impressão de que ele estava acordado enquanto estivesse dormindo. Depois deitou e dormiu. Noite alta a onça foi pegar Minori, mas quando viu os olhos dele aceso, não pegou, pensando que estivesse acordado.

No nordeste brasileiro as crianças acreditam que os vagalumes colocados sob um copo permitem encontrar, na manhã seguinte, uma moeda junto deles. O curioso é que informações do século passado dão conta que as crianças da Toscana (Itália) costumavam aprisionar vagalumes sob um copo, na esperança de achar pela manhã moedas em seu lugar. É incrível como certas crendices percorrem o mundo!

Na Argentina, por exemplo, existe a crença de que o vagalume (tuco-tuco) indica pela direção do vôo o lugar onde há um tesouro. Para isto, costumam prendê-lo entre os dedos e depois soltá-lo, observando o rumo que ele toma. As crianças, especialmente, dão fé à esta crendice e formam às vezes um círculo, dispostas a não perder de vista a direção do vôo do vagalume e pronunciam as seguintes palavras:

“Vuela, vuela, tuco-tuco,

Hacia donde está mi suerte”.

Segundo a meteorologia popular, uma revoada intensa desses besouros prenuncia tempestade com trovões. Isto foi confirmado por d’Orbigny, o naturalista francês que no século passado percorreu vários países da América do Sul, referindo-se aos vagalumes como “verdadeiros barômetros viventes, indicadores de trovoada”.

Apesar de tudo isto, há a crença generalizada em todo o Brasil de que depois de segurar um vagalume nos dedos e em seguida esfregar descuidadamente nos olhos, pode-se provocar cegueira. Na Amazônia há certo receio desses insetos, achando que são venenosos. Se um vagalume cai ocasionalmente na comida, joga-se todo o prato fora!

Em Vigia (PA), matar um vagalume pode fazer a pessoa ficar com “mão boba”. Os curandeiros de Presidente Prudente (SP) afirmam que os vagalumes podem curar cegueira, mas só eles (os curandeiros) podem esfregar esses insetos nos olhos de pessoa cega, porque é preciso fazer uma reza que só eles sabem. Dizem também que para ter olhos bonitos, grandes e brilhantes, é preciso esfregar os olhos dos vagalumes nas crianças, diante do espelho sem muita claridade. Se não for bem feito o trabalho, a criança pode perder para sempre a vista.

O escritor Coelho Neto, em lenda de sua autoria sobre o vagalume, diz que no princípio tudo era sombra e silêncio. Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do céu; lapidava-os e a poeira luminosa que deles saía ficava espalhada no espaço, formando a Via Láctea e as outras nebulosas.

Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a bruni-la, e assim conseguiu fazer todas as estrelas brilhar, o Sol, que é um topázio enorme, e a Lua, que é uma opala triste.

Lapidando os astros não podia o Senhor pensar que parte da poeira viesse à Terra, mas tendo de criar os animais e o homem, desceu ao mundo deserto, e caminhando devagar, pela sombra, viu, de repente, fulgir entre as árvores virgens uma chama fugaz. Deteve o andar, e pensativo ficou acompanhando a viagem aérea da fagulha de origem desconhecida.

Vendo-a ir e vir e que outras surgiam, o bom Deus, não querendo que o demônio astuto pusesse malefício em sua obra e julgando que as chamas eram criações do Anjo Mau, pois não se lembrava de as haver criado, tomou no espaço uma das que passavam e fez com que a centelha falasse, entre seus dedos, e a centelha falou: “Senhor, deixai-me livre. Não me julgueis provinda de origem má. Não fui gerada nos braseiros infernais, venho das claras estrelas que fulguram no céu. Quando as lapidava, delas saía uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços, formando estradas largas; sucedeu, porém, que alguns grãos pequeninos dessa poeira rutilante vieram cair à Terra. Porque nelas havia tocado vossa mão, logo se animaram e à noite, à hora em que as estrelas brilham no céu, a poeira das estrelas vive e brilha na terra! Bem vedes que de Vós venho. Deixai-me ir, Senhor! Deixai-me ir por entre as árvores que cheiram e por cima das águas brancas que murmuram”.

E o Senhor, enternecido, abriu os dedos, deixando partir o vagalume. E aí tendes porque não é fixa, como a das estrelas, a luz do vagalume – é que ela esteve, algum tempo, abafada entre os dedos de Deus e até hoje o inseto guarda essa instantânea impressão.

O vagalume, pela fosforescência que apresenta, também é motivo de inveja de outros bichos, como a cobra que certa vez perseguia-o, sempre tentando dar um bote para comê-lo. E o vagalume fugia insanamente. Um dia cansado, no limiar de suas forças, ele desistiu e se entregou, não sem antes perguntar, como último desejo, antes que a cobra o devorasse: Por que, se não pertenço à sua cadeia alimentar de cobra; se sou tão pequeno que não mataria sua fome e tão pequeno que jamais lhe faria mal algum? A cobra, por sua vez, respondeu com toda a sinceridade: “Não é por nada, não... é que seu brilho me incomoda...”  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 71)

 
Apolonildo Brito

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