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Matérias Temáticas | Lendas

Lendas indígenas da criação da noite

O Gênesis diz que o dia e a noite foram criados por Deus, quando separou a luz das trevas. Para os indígenas brasileiros não existia a noite, porque ninguém sabia como ela era. Somente a Cobra Grande conhecia a noite, que estava num grande rio escuro, dentro de um caroço de tucumã. Os gregos dizia que o dia nasceu do amor e assim por diante...

A interrogação sobre o mundo que o cerca e sobre a origem das coisas acompanha os primeiros passos do homem sobre a Terra, que cresce e se aprofunda na mesma medida da evolução humana. As grandes preocupações da humanidade estão sempre presentes nas mitologias, sendo raiz, portanto, da necessidade de explicar os fenômenos da natureza, o mundo material e a condição humana, que muitas vezes transfigura suas características e qualidades pessoais em animais, objetos ou coisas inanimadas.

O homem primitivo encarava ingenuamente os fenômenos naturais e os personificava à sua própria medida nas lendas que criava, projetando o seu inconsciente no mundo exterior. Assim, os mitos folclóricos estabelecem correspondências analógicas entre o universo antropológico e o cosmológico, muitas vezes se fragmentando e se completando como um ser paralelo, fantástico. Aliás, Carl Jung fundamenta as surpreendentes relações entre as esferas individual e cultural, geradas pelo inconsciente coletivo, que muitas vezes tornam os mitos sonhos de uma cultura.

A eminente escritora e folclorista Rosane Volpatto, em Mitos e Lendas, Sonhos da Cultura, diz que os arquétipos estão presentes nas lendas, mitos e nas maneiras de ser predominantes de uma cultura, como estruturas fundamentais do psiquismo humano e da autoconsciência das fraquezas e forças que os envolvem. Ressalta, ainda, que, para Carl Jung, o mito é a concretização do inconsciente coletivo, um elo que une ao consciente coletivo, ou seja, a memória das vivências das gerações que nos antecederam. O pensador enfatiza que o “inconsciente coletivo seria a identidade da humanidade, independente de época ou tempo que tenha vivido”.

Malinowski conceitua o mito como “uma realidade que corresponde a uma necessidade religiosa, às aspirações morais e a imperativos da ordem social”.  Ou seja, o mito é a verdade que esconde outra verdade, indo além das aparências em busca de significados da parte abstrata, no sentido mais profundo, cujas ações ou aventuras têm um significado simbólico. Para Franz K. Pereira, o mito é a resposta a um estímulo e a uma necessidade psíquica, que tem a imaginação como nutriente e o meio cultural como canteiro onde ele (o mito) germina e floresce.

A diferença tênue entre a lenda e o mito os confunde e os limites entre ambos são praticamente inexistentes. Segundo Luis da Câmara Cascudo, o elemento de distinção entre lenda e mito está no fator tempo-espaço. O mito narra fatos e cria personagens que estão acima do tempo e do espaço, são universais; enquanto a lenda relembra episódios heróicos, cuja origem e fatos impressionaram o imaginário popular, com localização e época definidas, mantendo a antiguidade, a persistência, o anonimato e a oralidade do conto. Mas tanto uma como o outro fazem parte da história de um país contada pela população.

Sobre o assunto, Rosane Volpatto ressalta que “fomos, somos e sempre seremos eternos caçadores de emoções” e que sem nossas lendas e mitos, com suas maravilhosas fantasias e sonhos idealizados, nossa vida seria totalmente sem graça, pois o mundo, através do imaginário, renasce como uma primavera. Garante que o homem é o único herdeiro destas ricas tradições, vivências e ensinamentos que o ajudarão a vencer seu terror existencial, histórico, assimilando este aprendizado para ser “merecedor da exuberante e esperançosa primavera que florescerá em seu coração”.

Os índios brasileiros também não são diferentes, ao contrário, são tão pródigos ou mais na caça das emoções no seu imaginário mundo panteísta. Mas são simplistas por excelência para explicar o universo complexo, contudo sábios suficientemente para manter vivo o seu lendário até os dias de hoje, vencendo o tempo e as culturas forasteiras que tentam impor conceitos e divindades alheias. Sua enciclopédia mítica abrange todos os ramos do conhecimento, cuja narrativa passa de boca em boca, fidedigna, através de gerações, como clones culturais imperecíveis.

O rico elenco lendário universal, por exemplo, quanto à narrativa, pode ser ordenado como fez a cultura judaico-cristã, a partir da criação do mundo e da divisão entre o dia e a noite. O Gênesis escrito por Moisés não define a última, mas a deixa subtendida, quando afirma que Deus disse: faça-se a luz!  Fala a seguir que Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas, o que equivale à divisão entre o dia e a noite, ambos ocorridos durante a rotação da Terra. O conhecido como dia é aquele que recebe a luz do sol, e noite onde se encontra a parte escura do planeta, no período do dia compreendido entre o pôr e o nascer do sol.

A maioria dos seres vivos tem na noite o período de descanso, muitas vezes com profundas alterações no metabolismo, tais como redução dos batimentos cardíacos, diminuição da temperatura corporal (animais homeotérmicos) ou substituição da fotossíntese pela respiração (vegetais superiores).

Para o escritor Volney Nazareno, em As Encantarias, a noite desempenha o papel de instigar, fascinar e, ao mesmo tempo, amedrontar, desde a origem do homem. Se todas as culturas têm a sua explicação para o que é a noite e de onde ela veio, na mitologia brasileira não é diferente. Os índios brasileiros criaram mitos e lendas de forma tão prolífica e criativa quanto os nórdicos, egípcios e maias, nos dando um terreno fertilíssimo para interpretações e reinterpretrações artísticas, material infelizmente quase inexplorado.

Para os indígenas de nosso País, por exemplo, não existia a noite, porque ninguém sabia como ela era e ainda não fazia parte do reino dos vivos. Somente a Cobra Grande conhecia a noite e sua existência num grande rio escuro, dentro de um caroço de tucumã, onde ninguém se atreveria libertar.

Mas um dia a filha da Cobra Grande resolveu sair do reino da mãe e morar na floresta, onde conheceu e se apaixonou por Tacunha, filho do cacique, que a pediu em casamento. No dia das núpcias, o jovem guerreiro murmurou no ouvido da noiva:

– Vem para perto de mim, vem dormir!

– Não é possível, ainda não é noite – disse ela.

– Noite? O que é noite? Você fala de coisa que não existe? Refutou Tacunha, assustado com a noiva.

– Tem sim, respondeu a noiva, minha mãe tem a noite presa dentro de um coco de tucumã, no fundo do grande rio escuro.

Tacunha pediu então a três amigos que fossem buscar o tal coco de tucumã, porém não disse a eles o que tinha dentro dele. Mesmo morrendo de medo de ouvir falar no nome da Cobra Grande, os três foram buscá-lo. Antes de partirem, o jovem noivo fez-lhes uma recomendação: não poderiam abrir o coco em nenhuma hipótese, pois seriam enfeitiçados para sempre se desobedecessem.

Não abrir o coco? Por quê? O que existiria naquele coco fechado por resina? Cada vez mais ficaram curiosos, tanto que a tentação ficou maior que o medo.

Conversaram e desconversaram muitas vezes, até que um dos amigos pegou o coco e o abriu. Para espanto deles, subitamente foram salpicados por um jato de resina que lhes queimou os braços. Depois, tudo escureceu, como se uma imensa névoa negra tivesse caído sobre o mundo. Aquilo tudo havia saído do coco. O que fazer agora? Cobra Grande e sua filha certamente saberiam que eles haviam aberto o coco de tucumã. Estavam perdidos!

Também, subitamente, as coisas da floresta começaram, num passe de mágica, a se metamorfosear. O mundo já não era mais o mesmo. As pedras e os tocos se transformaram em peixes e patos. A canoa e os pescadores da vizinhança viraram patos. Depois de criar todos os pássaros da floresta, a filha da Cobra Grande disse ao amado marido:

– Olha aquela linda centelha na noite! É a Estrela D`Alva anunciando que a aurora está prestes a chegar. Separarei então o dia da noite.

Os três amigos de Tacunha voltaram para a aldeia cabisbaixos para pedir perdão.

– Vocês desobedeceram à Cobra Grande – falou Tacunha – e abriram o coco, soltando a noite que devora todas as coisas. A filha dela vai transformar vocês em macacos, que pularão de galho em galho até o fim do mundo.

O três foram castigados e até hoje são reconhecidos por causa de uma mancha amarela que muitos macacos têm nas costas. É o jato de resina que os queimou quando abriram o coco, deixando marcas para sempre!

A tradição tupi do nascimento da noite diz que antigamente o sol brilhava continuamente e ninguém sabia o que era noite. Na época, os homens e os animais viviam juntos e falavam a mesma língua, quando um jovem guerreiro apaixonou-se por uma bela jovem chamada Moiaçu, ou Mboicunhãmuçu, filha de Mboiguaçu, a Cobra Grande, entidade que vivia no fundo das águas.

Como na história anterior, Moiaçu também não podia dormir porque o dia não findava e igualmente o marido mandou buscar a noite na casa da sogra, resultando na mesma curiosidade que fez os emissários libertar a escuridão do caroço de tucumã e, conseqüentemente, a metamorfose do mundo.

Poeticamente, os tupis dizem que Moiaçu, ao perceber o que acontecera, decidiu separar a noite do dia, para que ambos não se misturassem. Tomou um fio e fez o cujubim (ou jacutinga, ave da Amazônia), pintando sua crista de branco com tabatinga (barro branco) e as pernas de vermelho com urucu (fruto do urucuzeiro).

– Tu serás cujubim e cantarás sempre que a manhã vier raiando!

Dizendo isso, soltou o fio, que se transformou em pássaro e ele saiu voando. Com outro fio sujo de cinza, fez a coruja (ou inhambu, segundo outros) e ordenou-lhe que cantasse as horas durante a noite.

- Tu serás coruja e cantarás sempre que a noite chegar! Dizendo isso soltou-a e a ave saiu voando. Então, todos os pássaros cantaram a seu tempo e o dia passou a ter dois períodos, o diurno e o noturno.

Os equatorianos, por sua vez, também contam as histórias e mitos a cada instante para recordar quem são e manter a sua identidade cultural. Sobre a origem da noite e do dia, a etnia achuar narra que há muito tempo viviam na terra dois irmãos, Sol e Lua. Nunca caía a noite e ninguém jamais podia descansar. As mulheres tinham que fazer beiju de mandioca o tempo todo e os homens também tinham que caçar sempre, razão pela qual viviam muito cansados, pois nunca dormiam.

O Lua, que no caso é masculino, estava casado com Auju. Um dia, antes de sair para caçar, pediu à sua mulher que cozinhasse cará. Auju cozinhou o cará e comeu os mais maduros, deixando para Lua os mais verdes.

Voltando da caçada, Lua ficou muito bravo com o que viu e disse:

– Auju, como pode ser tão gulosa? Comeste           os melhores carás e me deixaste somente os verdes.

– Não comi quase nada, porque tenho a boca pequenina...

– Mas então, por que não estão quentes e maduros? Você está me enganando, Auju!

Furioso, Lua começou a preparar suas coisas para ir embora. Subiu pelo cipó que antes unia a Terra ao céu e, quando percebeu que Auju queria segui-lo, pediu à Serelepe que cortasse o cipó para que ela não o alcançasse.

Auju caiu no chão e se transformou na argila que usamos para fazer cerâmica. Lua, por sua vez, ficou no céu, convertendo-se no astro que hoje ilumina as noites. Assim nasceu o dia e a noite.

Segundo as crenças gregas, no princípio havia um grande vazio chamado Caos e todas as coisas estavam misturadas umas às outras. Sob esta confusão reinava a Noite ou Nyx e, em dado momento, surgiu o Érebo ou Inferno, nascido em um lugar desconhecido do reinado caótico. O Destino, as Moiras e as Parcas, divindades cegas, nascidas do Caos e da Noite, eram quem estabeleciam tudo, a quem os deuses estavam submetidos. Mas havia ainda apenas o silêncio e o vazio até que nasceu o Amor, produzindo um início de ordem. Da união de Érebo e Noite nasceram Éter, a luz celestial, e Dia ou Hélios, aparecendo então a Terra, a mãe universal chamada de Geia, onde os mortais habitaram em comunhão com os deuses olímpicos.

Já a mitologia nórdica dá conta que na aurora dos dias não existia nada. Nem céu, nem mar, nem terra, apenas Ginnungagap, um abismo frio e escuro. Ao norte encontrava-se Niflheim: a Morada das Névoas, uma terra tenebrosa cheia de melancolia, da qual um rio que se abria em doze grandes afluentes, que fluía de uma fonte que nunca se exauria.

Ao sul encontrava-se Muspellheim: a Morada do Fogo, uma terra de calor e luz incessante guardada por um gigante que tinha uma espada flamejante em punho, mandando para frente uma chuva de faíscas incandescentes.

Odin, o mais poderoso dos deuses, decidiu então dar forma ao universo caótico que o cercava e usou o corpo de Ymir para construí-lo. Mas o mundo ainda estava escuro e os deuses retiraram fagulhas de Muspellheim e atiraram ao céu, formando as estrelas. Da mesma fonte da qual os deuses criaram as estrelas, fizeram o sol e a lua e puseram carruagens douradas e arrearam lindos cavalos de crinas flamejantes de ouro e prata.

Aos cavalos que puxavam o sol foram dados poderosíssimos escudos para que se protegessem dos incandescentes raios que ele emanava. O mesmo não ocorreu com os ágeis cavalos da lua, pois eram banhados por dóceis raios.

Estava tudo perfeito, o dia e a noite foram criados para determinar o tempo, mas as carruagens precisavam de cocheiros para guiá-las com precisão e esta tarefa os deuses destinaram a Mani e Sol, filho e filha de um gigante. Assim os dias, os meses e os anos foram determinados pelas viagens que Sol e Mani percorriam.

Depois Odin chamou a Noite, triste filha de um gigante de coração frio, para guiar a carruagem escura puxada pelo cavalo negro de  crina congelada, de cujo cabelos escorriam gotas de orvalho e geavam a terra abaixo. Após ela, vinha o Dia, com seu cavalo de crina flamejante que irradiava a luz do dia para destruir o mal que brotava na escuridão da noite. Assim, aglomerando os dias e as noites em blocos, Odin ordenou que se apresentassem quatro estações, criando um ciclo, e fez com que todos obedecessem seus períodos. (Publicado na Revista Amazon View – Edição 86)

 
Apolonildo Brito

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