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Matérias Temáticas | Lendas

Lendas do Sol através dos tempos

O Sol ocupa lugar de destaque na civilização, quer por suas propriedades naturais atribuídos pela ciência ou pelos valores subjetivos oferecidos pelas lendas e mitos. O seu culto é antiquíssimo, remota à era faraônica como a maior divindade dos egípcios. Os gregos denominava-o Hélios, que conduzia o carro da Luz, enquanto a civilização incaica o tinha como deus principal.

Desde os tempos mais remotos que a memória humana registra, o Sol ocupa um lugar de destaque nas civilizações por suas propriedades naturais e pelos valores subjetivos que lhe são atribuídos. Considerado o astro-rei, é a estrela central em torno do qual giram todos os corpos que pertencem ao sistema solar. O Sol é a fonte de luz e energia que metaboliza as funções vitais e a vida molecular no nosso planeta. Enfim, o disco solar torna-se maior que isso, quando se adentra no imaginário popular, no terreno da mitologia e das ciências esotéricas, astrológicas e teogônicas.

A astrologia estuda a angulação que o Sol faz com os outros astros do universo celeste, que permite mapear o sol pessoal de um determinado indivíduo, identificar seus dons e habilidades inatas, assim como pontos fracos e desafios pessoais. Na astrologia cármica, a situação astrológica do Sol diz respeito a vidas passadas e o grau de missão que o indivíduo tem nessa encarnação.

O culto ao Sol é antiqüíssimo, remonta aos homens das cavernas, expresso em figuras rupestres deixadas pelos ancestrais da humanidade, destacando-se a partir de 4,5 mil anos antes de Cristo, na Mesopotâmia (atual Iraque), onde os sumérios acreditavam numa divindade solar (etérea), com maior intensidade depois 2,3 mil anos antes de nossa era. Mas foi na mitologia egípcia que a divindade do astro-rei do sistema solar ganhou maior notoriedade como um deus pacífico, pai e mestre do universo, que teria nascido, segundo certos mitos, de um ovo, ou originando-se de um lótus, de acordo com outros.

No Egito antigo dizia-se que o Sol despertava no oriente e distribuía luz e calor pelo mundo em sua barca de ouro, de 770 côvados de comprimento. O astro possuía forma humana durante o dia, ganhando uma cabeça de carneiro e longos chifres recurvados, durante a noite. O Sol era a maior divindade dos egípcios antigos, porém com uma variedade de denominações (Rá; Amon; Amon-Rá; Aton; e Ptá), mudadas através dos séculos por conveniência do poder reinante. A cosmogonia egípcia ocupa a primeira parte dos seus textos sagrados, tentando explicar com fantasia e relatos maravilhosos o que o conhecimento humano desconhecia.

Para as grandes religiões, inclusive a egípcia, a criação do universo fez-se de um único ato da vontade suprema, a partir do nada, da escuridão e do caos original. Na antiguidade egípcia, o criador chamava-se Nun, o espírito primogênito, o indefinido ser que se transformou em barro, matéria-prima que aparece na maioria das mitologias da criação do homem. Por isso Nun, simbolizado pelo barro, foi o berço espiritual e a primeira força que tomou forma no novo espírito da luz, Rá, o disco solar, pai de tudo o que habita sob os seus raios luminosos. A lenda diz que de Rá nasceram Tefnet e Chu, seus filhos primogênitos (a deusa das águas que caem na terra e o deus do ar, respectivamente), compartilhando da sua glória e poder, e ajudando-o em sua viagem longa e eterna através do firmamento.

A mitologia egípcia diz ainda que a luta feroz entre os homens e os representantes celestiais desgastou as energias de Rá, até o seu envenenamento e a conversão de Amon no rei dos deuses, dando poder divino aos faraós e tornando-se deus único e oficial do Egito antigo. Amon, pois, substituiu o culto enfraquecido de Rá no transporte do disco solar ao longo do arco celestial e passou a ser o deus da vida, da criação e da fertilidade. Quando desaparecia no céu visível, Amon passava a iluminar a noite dos mortos, no outro lado da vida. Mas no reinado de Amenófis IV (auto-batizado Aquenaton) Amon foi substituído por Aton, um derivado do deus criador, Atum, que foi doador da vida original e converteu-se na representação do Sol do poente e de lá, por vontade desse faraó, no deus único de toda a antiguidade egípcia.

Amenófis IV (cerca de 1.359 a.C.) é considerado visionário, revolucionário e idealista por ser responsável por um dos mais importantes momentos da história do antigo Egito, quando pela primeira vez na história da humanidade registrou-se a adoção de um deus único, ou seja, o primeiro governante conhecido a adotar o monoteísmo, cujo deus Aton era representado fisicamente pelo disco solar. O fato é que na sua morte findou esta reforma religiosa, com repercussão no campo artístico e político. Aquenaton deixou belíssimos poemas, plenos de humanismo, que consagra o Sol como criador de todas as coisas e cujos raios dourados e magnânimos não excluía nenhuma classe social, igualando os homens e exortando reformas estruturais na sociedade egípcia, o que provocou ciúme no clero e nas elites locais.

Na verdade, no Egito antigo, todos os deuses importantes eram associados a Rá, assim como Amon em Tebas, que tornou-se o primeiro de todos os deuses no decorrer do Novo Império, representado em forma humana, às vezes dotado de cabeça de carneiro, época em que a classe sacerdotal que detinha o poder e venerava-o em todo o Egito. Como Ptá, criador do mundo e senhor dos artesãos, era venerado pelos sacerdotes de Mênfis, cujo principal santuário encontrava-se na ilha de Elefantina.

Os gregos, como em várias outras mitologias, personalizavam o Sol chamado-o de Hélios e os romanos o chamavam de Sol. Sendo deus do Sol, Hélios passeava em uma carruagem puxada por cavalos através do céu, trazendo luz para a Terra, cuja jornada começava no leste e terminava no oeste, local onde Hélios completava sua ronda diária.

Segundo o poeta grego Hesíodo, Hélios era o filho de dois titãs – Theia e Hyperion, e tinha como irmãos Eos (a deusa da alvorada) e Selene (a deusa da Lua). O Sol também aparece envolvido em tramas e ciumeiras olímpicas, como um tipo de espião celestial, o que lhe causou a sua maldição no amor, depois de ter xeretado o caso amoroso ocorrido entre Afrodite e Ares, deuses respectivos do amor e da guerra.

Na mitologia greco-romana, o Sol também era representado por Apolo, enquanto Phoibus Apollon, o deus correlato da luz, da verdade, da música e da poesia. Logo após seu nascimento, Apolo matou a serpente Píton, na ilha de Delfos, local onde foi construído o mais célebre de seus templos, cujos oráculos eram acatados e respeitados em todo o mundo antigo. Apolo inventou a adivinhação e conduzia o Sol no zênite, em uma carruagem dourada puxada por quatro cavalos.

Fruto da união de outras culturas preexistentes na região andina, a civilização inca era muito rica e intimamente ligada à ciência, à religião e ao cotidiano, principalmente no que se refere à arte. Sua organização social era piramidal e caracterizava-se por três grandes grupos, tendo o Inca como chefe supremo, com poderes divinos, responsável pelo culto ao Sol, o seu deus principal. O Templo do Sol era um local onde os rituais eram realizados ao deus solar e as Virgens do Sol eram mulheres escolhidas pela sua linhagem e por sua beleza para serem educadas e tecer roupas finas de lã de vicunha para o seu esposo, o Sol. Como o Sol não podia vestir essas roupas, elas eram enviadas para o Inca por ele ser seu filho natural e herdeiro, que as incinerava no Templo do Sol quando o guarda-roupa do soberano estava superlotado.

Os eslavos referem-se ao Sol com respeito, pela importância que eles davam à luz, o fogo, o lume e o próprio astro-rei. Para esse povo, a mitologia que envolvia o Sol era muito ampla e acreditava que este corpo celeste tinha morada num longínquo lugar do oriente, considerado o país da abundância. Os eslavos diziam que o Sol habitava um palácio refulgente, todo de ouro e que percorria o zênite numa carruagem brilhante, puxada por doze cavalos brancos que possuíam crinas douradas, semelhantes à versão greco-romana do mito. Os nórdicos também personificavam o Sol como um belo jovem sentado em um trono de ouro, tendo ao seu lado suas duas belas filhas: a Aurora da Manhã e a Aurora da Tarde, chamadas Zorias, que possuíam a função de abrir e fechar as portas do céu para seu reluzente pai passar.

Do culto ao deus Sol, que acompanha a evolução do homem e praticamente envolveu toda a humanidade, só se manteve a data, 25 de dezembro, que era o dia de adoração dos romanos a este deus, data de celebração que os cristãos aproveitaram para consagrar ao nascimento de Cristo, por ele ter sido declarado “a luz do mundo”.

O disco solar também não ficou de fora das lendas dos índios brasileiros. Para eles, o sol era gente e se chamava Quandú, que possuía três filhos: um deles é o “sol que aparece na seca”; o outro, mais novo, “o sol que sai na chuva” e o filho do meio ajuda os outros dois quando estes se cansam. Diz a lenda que Quandú queria vingar-se da morte do pai, quando encontrou o índio que o comera trepado em uma palmeira inajá.

Quandú o ameaçou de morte, mas o índio foi mais rápido e o atingiu com um coco na cabeça, fazendo-o desfalecer, o que tornou tudo escuro. Começaram então a morrer de fome porque a escuridão impedia os índios de trabalhar, caçar e pescar, porque estava tudo escuro. A mulher de Quandú mandou o filho sair de casa e o dia ficou claro de novo, mas somente por alguns momentos, porque ficou muito quente, escurecendo novamente quando recolheu-se. E assim ficaram os três filhos de Quandú, entrando e saindo de casa. A lenda diz que, quando o sol está forte é porque o filho mais velho saiu de casa; e quando é sol mais fraco é porque que ficou fora foi o filho mais novo. O filho do meio só aparece quando os irmãos estão cansados.

Outra versão afirma que antigamente existia apenas escuridão na terra e que só as estrelas pequenas é que brilhavam, dentre elas uma estrelinha fraquinha aparecia no céu. Também havia uma indiazinha chamada Lilandra, que gostava de dançar em homenagem àquela estrelinha, atitude não entendida pelos índios que achavam que ela estava provocando os deuses que proviam a aldeia de comida e abrigo, razão pela qual foi proibida de dançar novamente, sob a promessa de punição.

Mas ela teimou e continuou a dançar, esperando que um dia aquela estrelinha se tornasse muito forte, iluminando todo mundo. A desobediência irritou muito o tuxaua, que decidiu puni-la, afastando-a da aldeia. No meio da floresta, a indiazinha se deparou com o reflexo da estrelinha numa poça de água turvada por suas lágrimas. Empurrada pela tristeza, lançou-se ao encontro do reflexo e nunca mais submergiu daquela poça de água. Foi quando a noite começou a virar dia, assustando os índios, que passaram a cantar e dançar para seus espíritos, agradecendo a criação do dia. Mas aos poucos a tribo passou a sofrer de insolação, morrendo de calor e de sede, pois desconhecia que aquela estrelinha de Lilandra (o sol) agora tinha um brilho tão forte que os índios ficavam cegos quando olhavam para ela.

Outra lenda diz que, quando deus criou o mundo, atribuiu brilho ao Sol e à Lua, mas não conseguiu apagar o fogo da paixão que eclodia entre ambos. A Lua ficou cabisbaixa com a separação (o Sol também se ressentiu por ela) e pediu ao deus que a ajudasse a aceitar o que havia decidido. Como resposta, deus criou as estrelas para que elas a consolassem quando se sentisse solitária e triste. Tudo em vão...

Dizem os índios, que o todo-poderoso determinou que a Lua ficasse sempre cheia e luminosa, mas ela não conseguiu manter-se, pois, como toda mulher, também tem as suas fases. Quando feliz, a Lua torna-se cheia, minguando depois de tristeza, até perder-se na escuridão. Falam, ainda, que o homem tentou conquistar a Lua, mas nem isso a tirou da tristeza, mesmo acompanhada das estrelas do céu, pois nenhum outro amor nesse mundo poderia alegrá-la, a não ser o do Sol. Foi quando deus, então, criou o eclipse para unir os dois eventualmente, momento em que o Sol compartilha da escuridão da Lua, ou que a sombra dele encobre a amada, deitando-se sobre ela, acontecimento pleno de amor.

Em pesquisa de Lenise Resende, a teogonia tupi revela que no começo havia a escuridão, quando nasceu o sol, Guaraci. Um dia ele ficou cansado e precisou dormir, fechou os olhos e tudo ficou escuro. Para iluminar a escuridão enquanto dormia, ele criou a lua, Jaci. Que era tão bonita que logo se apaixonou por ela. Mas, quando o Sol abria os olhos para admirar a lua, tudo se iluminava e ela desaparecia. Guaraci criou, então, o amor, Rudá, seu mensageiro, que não conhecia luz ou escuridão. Dia ou noite, Rudá podia revelar à Lua o quanto o Sol era apaixonado por ela. Guaraci criou também muitas estrelas, seus irmãos, para que fizessem companhia à Jaci, enquanto ele dormia e assim nasceu todas as coisas que vivem no céu.

Em versão do sertanista Couto de Magalhães, a mesma lenda diz que Cairé, a lua cheia, e Catiti, a lua nova, eram auxiliares de Rudá na missão de despertar saudades no amante ausente. Rudá ou Perudá, deus do amor indígena, residia nas nuvens e era o encarregado da reprodução dos seres criados. Sua missão era criar o amor no coração dos homens, despertando-lhes a saudade, fazendo com que voltassem para casa.

O lendário conta também que Mavutsinim criou de um tronco de árvore a mãe dos gêmeos Sol (Quate) e Lua (Iaê). Mas os dois irmãos não sabiam como conquistar o dia, porque no principio só havia a noite. O dia pertencia a Urubutsim (urubu-rei), o chefe dos pássaros, mas os gêmeos criaram um plano para capturá-lo e construíram um boneco de palha em forma de uma anta, onde depositaram detritos para a criação de algumas larvas. A pedido do Sol e da Lua, as moscas voaram até as aves e anunciaram o grande banquete que havia por lá, levando também a elas um pouco daquelas larvas, seu alimento preferido, para convencê-las. Tudo para atrair Urubutsim e aprisioná-lo quando chegasse, conforme haviam previsto.  Na chegada de Urubutsim, agarraram-no pelos pés e exigiram que ele lhes entregasse o dia em troca de sua liberdade, o que aconteceu depois de relutância. O urubu-rei foi libertado e, desde então, pela manhã, o dia surge radiante e à tarde vai se esvaindo, até o anoitecer.  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 84)

 
Apolonildo Brito

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