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Matérias Temáticas | Lendas

Os vampiros caminham entre nós

Dizem que o vampirismo vem das propriedades mágicas do sangue, crença de todas as culturas do mundo. Os Astecas e outros povos bebiam sangue em rituais para ganhar fertilidade e imortalidade dos deuses. Outros mitos pregam que as pessoas excomungadas tornam-se mortas-vivas, alimentando-se de sangue. Crianças não-batizadas também viram vampiros.

A crença em vampiros ou anjos da noite que hoje dominam as telas dos cinemas e os canais de televisão, é provavelmente tão antiga quanto as lendas que remontam às mais antigas experiências humanas, anteriores até ao surgimento da palavra escrita. Acredita-se que ela (vampirismo) provém de reflexos inconscientes do temor respeitoso em relação aos mortos e na crença nas propriedades mágicas do sangue, que significa a vida, morte e o poder encontrado em todas as culturas do mundo.

Os Astecas e outros povos, por exemplo, comiam o coração e bebiam o sangue dos cativos em cerimônias ritualísticas para satisfazer os deuses e ganharem fertilidade e imortalidade. Beber sangue de animais, também era requerido para a busca da imortalidade nos ritos de Dionisius e Mithras. Mesmo hoje, alguns cristãos acreditam na transubstanciação mágica do pão e vinho no corpo e sangue de Cristo, para se juntarem a Deus na vida eterna.

Na verdade, progredimos na busca do ritual de vencer a morte, inicialmente sacrificando humanos e bebendo-lhes o sangue para satisfazer os deuses ou a eles nos juntarmos, vencendo a morte. Depois substituímos os humanos por outros animais para atingir o mesmo fim, cuja verdade básica é muito simples: matar alguma coisa para que alguém ou algo possa viver.

Os vampiros são antiquíssimos na mitologia de muitos países, principalmente no leste europeu, Suméria e Mesopotâmia, onde surgiram como filho de Lilith, se confundindo com Incubus, demônio que pode controlar animais daninhos e noturnos e ainda desaparecer numa névoa. Nas primeiras lendas sobre vampiros eles se transformavam em cães ou lobos. Em lendas mais antigas eles se transformavam nas noites de lua cheia, o que no fundo é comum com a lenda do Lobisomem. E, como na Europa não existem morcegos hematófagos, a associação com esse mammalia só pode ter surgido depois da colonização da América.

O vampiro tornou-se, porém, um personagem comum a partir da literatura universal de horror e mitológica, existindo muitas versões, cujos pontos em comum são o fato dele precisar de sangue (preferencialmente humano) para sobreviver, ser vulnerável à luz do Sol, transformar-se em morcego e ser ferido por uma estaca no coração. Os vampiros mais famosos são o Drácula (Bram Stoker), o Lestat e Lioncourt (Anne Rice) e Nosferatu (Max Schreck).

No Brasil também existem mitos relacionados a vampiros e seres semelhantes que se entrelaçam com o rico folclore das várias regiões do país. Das áreas urbanas até às regiões menos desenvolvidas é comum ouvir-se relatos dos ataques sanguinários de criaturas que perambulam pelas madrugadas. Os indígenas acreditam no Cupendipe, que apesar de não possuir a sede de sangue caracterizada nos vampiros, possui asas de morcego, sai de sua gruta apenas durante a noite e ataca as pessoas usando um machado.

Conta-se a história do Encourado no nordeste brasileiro, um homem de hábitos noturnos, com trajes de couro preto e exalando um odor de sangue fresco. A lenda rural conta que o Encourado ataca animais e seres humanos para sugar-lhes o sangue, mas prefere as pessoas que não freqüentam igrejas. Há quem diga que os habitantes das cidades por onde o Encourado passa, oferecem-lhe sacrifícios de criminosos, crianças ou animais de pequeno porte. Outros mitos pregam que as pessoas que morrem excomungadas, tornam-se mortas-vivas vagando pela noite e alimentando-se de sangue até que os sacramentos da Igreja as libertem. Crianças não-batizadas, e o sétimo filho de um sétimo filho também tornam-se vampiros.

Em Manaus, há relatos da presença de uma vampira que ataca os moradores, sugando o sangue através da jugular e deixando marcas de dentes nas vítimas, na forma tradicional das lendas. Os amazonenses contam, ainda, que após os ataques a vampira corre em direção ao rio e se transforma em sereia, desaparecendo nas águas. A Vampira do Amazonas possui a capacidade de transmutar-se e possui força física descomunal.

Relatos policiais dão conta de que em maio de 1973 foi encontrado o corpo de um rapaz com as perfurações características em seu pescoço, no município paulista de Guarulhos. São apenas alguns dos muitos exemplos da hipotética ação de vampiros no Brasil, cujos relatos transcendem a fronteira da boataria e do folclore.

Lendas antigas e modernas sobre chupadores de sangue, voadores notívagos e sobrenaturais, tais como as bruxas Lâmias da mitologia grega, são caracterizadas com várias formas, nas mais diferentes raças e credos. As Lâmias são representadas por Lilith da tradição cabalística, mulher criada antes de Eva e junto com Adão, também feita do mesmo barro. No Talmude (século 6 a.C.) Lilith aparece como a primeira mulher de Adão, mas suas origens datam da Babilônia, onde os antigos semitas as adotaram das crenças dos sumérios, seus antecessores, ligadas aos grandes mitos da criação.

Lilith foi mencionada pela primeira vez no épico babilônico intitulado Gilgamesh, cerca de 2000 anos antes de Cristo. Ela é uma das mais famosas figuras do folclore hebreu, parte de um grupo de espíritos malignos identificados com a noite, inicialmente considerada uma das grandes forças hostis da natureza, parte de um clã de três demônios, um macho e duas fêmeas. Foi provavelmente durante o cativeiro da Babilônia que os judeus travaram conhecimento com esse ser maligno. Além disso, a raiz indo-européia da palavra la (gritar, cantar) deriva o sânscrito lik (lamber) e de muitas outras relacionadas com a boca, lábios, língua...

No Zohar, o mais influente texto da seita religiosa de tendência carismática fundada pelo rabino Israel Baal Shem-Tov (século XVIII), acreditava-se que Lilith estava junto às crianças quando riam dormindo e daí o perigo de morrerem em suas mãos. Além do Antigo Testamento, o mito aparece na Cabala, por volta de 1600, onde Lilith une-se a Sammael. Durante a Idade Média, suas histórias se multiplicaram, inclusive aparecendo como uma das duas mulheres que reivindicavam a maternidade de uma criança junto ao rei Salomão.

Além de “A Crônica das Sombras”, revelando ensinamentos ocultos de Caim, “A Crônica dos Segredos” fala dos mistérios vampíricos. O lendário “Livro de Nod” narra a origem deles e os associa aos personagens bíblicos de Caim e Abel. Na obra, Caim foi amaldiçoado por Deus por ter assassinado o irmão Abel e por ter se recusado a acatar as punições impostas pelos Anjos do Criador, que foram até ele exigir que se redimisse. Caim viu-se condenado à solidão eterna, temendo o fogo e a luz, longe do convívio dos mortais (como um vampiro). Nesta versão, a origem dos vampiros veio da maldição divina atribuída a Caim, sina também herdada por sua prole.

Fica muito difícil, porém, estabelecer um limite entre os fatos e lendas que circundam o mito vampírico, pois boa parte destas informações confunde-se entre os relatos e pesquisas históricas coerentes, com a ficção cinematográfica. Na lenda de Caim, a conotação do termo vampiro ainda está ligada apenas ao sentido de imortalidade, solidão e aversão à luz. A longevidade e a sede pelo sangue (que caracteriza a imagem mais comum dos vampiros) deve-se possivelmente a personagens lendários que viviam anos incalculáveis, alimentando-se de sangue humano, após terem firmado supostos pactos com entidades malignas.

Outras versões são encontradas em diferentes culturas, todas combinando fatos históricos com a crendice regional. A maior parte dos povos possui uma entidade sobrenatural imortal, considerada maldita e que se alimenta de sangue. O mito do vampiro é, portanto, um ponto comum entre várias civilizações desde a Antiguidade. Mas o conceito específico dos mortos que retornam para atacar e alimentar-se do sangue dos vivos encontrou sua maior expressão na Europa cristã.

No século XII, o historiador William de Newburgh relatou diversos casos de mortos retornando para aterrorizar, atacar e matar durante a noite, identificando espírito maligno com o termo latino sanguessuga, além de outra grande variedade, como vulkodlak (lobisomem em sérvio), o vampir (de origem imprecisa) e palavras russas relacionadas com upyr.

A palavra upyr (que derivou o “vampiro”) tem registros de 1047, num documento para um príncipe Russo chamado Upir Lichy ou “Vampiro Maldoso”.

Após a “cristianização”, a lenda do vampiro ainda sobreviveu como um mito, carregada por ciganos, que migraram à Transilvânia, logo depois do nascimento de Vlad “Drácula”, em 1431, que mais tarde se tornou injustamente uma das maiores referências do ser maligno. O sanguinário Vlad Tepes (ou Vlad III) realmente existiu no século XV, na Transilvânia, mas governou apenas a Valáquia, uma região vizinha. Apesar da crueldade extrema com seus inimigos, Vlad III não possuía nenhuma ligação com os vampiros. Aliás, o termo Drácula (Dracul, que originalmente significa dragão) foi herdado de seu pai (Vlad II), que era Cavaleiro da Ordem do Dragão. Provavelmente, a confusão se deu através da semelhança entre os termos Drache que era o título de nobreza atribuído a Vlad II e o vocábulo Drac, que significa diabo em romeno antigo.

A relação entre Vlad III e o mito vampírico foi dada pelo escritor Bram Stocker, autor do famoso romance de terror “Drácula”, inspirado nas atrocidades que teriam sido cometidas pelo nobre conde, incorporadas a seu personagem principal. A partir dessa obra, Vampiro e Drácula tornaram-se praticamente sinônimos na literatura e nas crenças populares.

Segundo trabalho de Domício de Araújo Medeiros, há uma hierarquia entre os vampiros, cuja ordem maior do planeta é a seita Camarilla, que surgiu no século XV com propósito e poder de mantê-los unidos contra a Inquisição. O pesquisador defende que sete dos treze clãs existentes fazem parte da Camarilla (Brujah, Gangrel, Malkavian, Nosferatu, Toreador, Tremere e Ventrue), que se reúnem a cada 13 anos em Veneza, para discutir as leis da Camarilla e a eleição dos Justiçares, que são sete vampiros poderosos escolhidos para serem olhos, mãos e punhos do Círculo Interno com o poder de julgar aqueles que quebram as tradições.

O aclamado poeta e escritor inglês Lord Byron formou um pequeno grupo de intelectuais amigos na Villa Diodati, próxima a Genebra, onde inventaram histórias de fantasmas para deleite próprio. Anos depois, o escritor e médico John Willian Polidori, inspirado nas teorias de Calmet, deu à idéia básica de Byron um motivo vampírico e escreveu “The Vampire”, cuja personagem principal era Lord Ruthven, um aristocrata viajante que atraía e matava mulheres inocentes a fim de se alimentar do sangue delas.

Em 1872, o escritor irlandês Sheridan Le Fanu, autor de “Carmilla”, inovou a imagem do vampiro dando-lhe feição feminina em seu famoso conto e incorporando crenças ao ambiente gótico, com insinuações de conteúdo erótico. O Drácula, por sua vez, surgiu nos fins do século XIX, no romance homônimo de Bram Stoker. A obra-prima iniciou a era da ficção que continua até hoje, conferindo ao personagem a figura definitiva do vampiro vilão, inspirado em elementos dos trabalhos de Polidori e Le Fanu, como um pano de fundo gótico para a história do predador aristocrático e profano saído do túmulo, que hipnotiza, corrompe e se alimenta das lindas jovens que mata, revelando todo o impacto psicossexual envolvido no relacionamento entre vampiro e vítima, denotando a notável semelhança entre sede de sangue dos mortos-vivos e a sensualidade reprimida dos mortais.

Após o lançamento do extraordinário romance “Drácula”, em 1897, poucas obras publicadas durante mais de 50 anos mereceram destaque, criação só retornada nos fins da primeira metade do século XX, com novos romances e contos do gênero horror que injetaram sangue novo ao tema. Mas a volta dos vampiros para o público veio mesmo com os filmes exibidos para grandes audiências. O filme mudo alemão de 1922, “Nosferatu, Eine Symphonie des Garuens”, dirigido por F.W. Murnau, abriu a temporada com sucesso de um vampiro de aparência mórbida e revoltante. Outros o seguiram como “London After Midnight”, em 1927, vindo depois “Vampiro” (1932), um rigoroso e sombrio espetáculo de morbidez dirigido por Carl Dreyer; “Drácula”, da Universal, estrelado por Bela Lugosi, ator austro-húngaro, além de outros filmes das décadas de 1920, 1930 e 1940, que consagraram alguns atores como lendas vivas do mito do vampiro.

Filmes de vampiros sempre foram um grande sucesso, a exemplo de “Bram Stoker`s Dracula”, (Copolla, 1992) ou “Entrevista com o Vampiro” (Neil Jordan, 1994), baseado na obra de Anne Rice. Isto sem esquecer várias séries de TV que ainda exploram o tema durante várias décadas.  (Apolonildo Britto – Revista Amazon View – Edição 78)

 
Apolonildo Brito

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